Blog de Lêda Rezende

Janeiro 06 2012

 

V

 

 

Com a tal retrospectiva da compra da Televisão – Leticia se viu quase refém de uma sequência de outras retrospectivas involuntárias.

 

Neste dia de volta do trabalho - sentou no Fouton que ficava na sala e de frente para a estante que finalmente arrumara.

 

Obviamente a estante não estava como planejara – porém melhor ordenada do que logo depois que se mudara. Os livros - ao menos - obedeciam uma ordem de linhagem. Vai lá saber que ordem é esta – mas assim denominava cada vez que repensava em retomar a reorganização. E com tanto - re – deixava mesmo era como estava. Havia uma lógica particular e ela saberia onde encontrar o que precisasse. Já era o suficiente. O excesso de metodologia tiraria a sensação de posse e pareceria que visitava uma Biblioteca fria e calculista. Haja desculpa sem nexo – riu um dia enquanto buscava um livro e não encontrava.

 

Nem ligou a Televisão.

 

Para não fugir completamente à rotina – cuidou um pouco das plantinhas antes de sentar. Notou que uma delas estava com as folhinhas tristinhas e colocou mais água. Com os dias quentes – quentíssimos e o ar seco – sequíssimo – as plantinhas sofriam com a falta de umidade em volta delas. Lembrava com frequência de uma amiga querida – Glória - que dizia achar criminoso deixar uma planta morrer de sede – já que não podia ir pegar a água sozinha. Nesse período que a amiga dizia isso ela – a Leticia – nem dava atenção às plantinhas. Mas nunca esqueceu a frase. E agora a utilizava quase como uma Lei.

 

Tocou de leve os dedos nas folhas e depois nos cabelos. Balançou a cabeça de forma positiva. Da Memória nada escapa – é só uma questão de oportunidade – e a oportunidade vem mais dia menos dia. Nada é desconsiderado nem escutado à toa. Quando algo é escutado – é porque já está registrado e em algum instante será utilizado. Qual um destino. Pelos sentidos entram – filtrados - o que depois será buscado. Agora sabia. Na época não.

 

Circulou pelos cinquenta metros quadrados. Parabenizou mais uma vez a Fadinha por ser tão delicadamente organizada. Encerrou as atividades profissionais do dia também de forma simbólica ao dispensar a roupa formal e sorrir para uma chuveirada de água quase fria.

 

E lá se foi ficar sentadinha no Fouton - sem nem bem compreender porque o fizera já que depois das rotinas sempre ia para a cama. Mas a retrospectiva veio se aconchegar como se estivesse apenas querendo um colinho. Recostada no Fouton – teve uma sensação de viajar no tempo ou de estar sonâmbula. Sozinha - se deixou levar.

 

Entretanto - mesmo a disponibilidade solitária tem os próprios limites. A retrospectiva foi seletiva – nada de lembranças que a magoassem. Sempre alertava aos navegantes que final de dia é momento de alegria. Mas também dizia o mesmo sobre o começo do dia.

 

Estava cuidando com mais dedicação do próprio humor para que não se desgastasse com o que não poderia ser mudado. Deixava sempre um arquivo estocado no ”Temporário”. Riu ao concluir assim. Vai ver este o motivo de tantos recentes elogios pela expressão dela. Até uma mocinha da loja que ela começara a frequentar depois da mudança comentou – se tem algo que admiro em você é que todas as vezes que vem aqui tem uma expressão de alegria. Tem boa energia em volta.

 

Gostou de escutar.

 

Olhou para a cozinha. Para o balcão com a toalha de renda branca e os utensílios de uso repetido ao alcance da mão. Ali fora o primeiro local onde todos se acomodaram diante da falta absoluta de espaço – os cinquenta metros quadrados mal cabiam as tantas e tantas caixas.

 

As últimas caixas entraram. A porta foi fechada. Os pulinhos com Cecilia e Roberto. As risadinhas. O pipocar de um champagne que Aline e Lilian junto com o Renato levaram até lá. As tacinhas – nem lembrava como arrumaram as tacinhas. Lembrou. Sem tacinhas. Champagne francês em copinho descartável. Daria uma reprimenda a nível internacional caso fosse exposta a cena. Mas não tinha jeito - era assim ou assim. E brindaram em copos descartáveis todo o francês das bolhinhas.

 

Feitos os brindes e celebrada a euforia olharam em volta. Cada um buscou uma posição estratégica e entre o amontoado de caixas – começaram a separar o que já poderia ser aberto. E nisso incluía a caixa de tacinhas para evitar serem transformadas em caquinhos.

 

O difícil era selecionar as caixas em meio a tantas pilhas de caixas encostadas na única parede e resvalando pelo piso.

 

Naquele dia entendeu a palavra Caos e todo o significado. Lembrou a Mitologia Grega. Há uma versão que diz que Caos é um filho de Cronos e irmão de Éter. Até se sentou melhor no Fouton.

 

Não faltaram risos – um auxílio de comicidade para empurrar um pouco a tristeza. Afinal – a mudança fora em decorrência de um desacerto nos planos de futuro. Todos ali dentro dos cinquenta metros quadrados – centímetro por centímetro - se empenhavam em ajudá-la a superar. A continuar. A entender o que a avó repetia – o que não tem remédio remediado está.  

 

Quando organizou as caixas para a mudança - tivera todo um cuidado em escrever em papel branco e prender com fita adesiva o conteúdo delas. Depois de tantas mudanças – poderia até ser orientadora metodológica de alguma Transportadora. Tudo bem – não tanto. Foi o que reconsiderou quando passou rapidamente os olhos pela estante. Mas os itens descritivos nas caixas lacradas estavam todos lá. Facilitava e muito saber o que se abriria e onde se colocaria o tal conteúdo.

 

Ai sim – as risadas foram soltas.

 

Cecilia pegou a primeira caixa e nem conseguia abrir – só ria. Os cabelos até caiam para trás. Avisou – aqui tem uma caixa enorme escrito – tirinhas de cabelo. Tirinhas de cabelo. Como alguém tem tantas tirinhas de cabelo. E o coro de risos se seguia melhor do que se tivessem um Maestro regendo.

 

Aline alertou – aqui tem outra mais interessante. Está escrito – roupas desnecessárias. Esta provocou até engasgos de tantos risos.

 

Renato olhou para uma outra caixa e entregou a Aline. Esta é melhor você abrir. Prefiro evitar ter uma consulta de Psicanálise de urgência. Está escrito – roupas íntimas de malhação. Nunca soube que ela malhava e muito menos que tinha roupas intimas para malhar. Todos riram novamente.

 

E de riso em riso e caixa em caixa – a tarde se foi.

 

Durante duas semanas a rotina fora abrir caixa. Lilian – a amiga querida de muitos anos viera por uma bela causa para passar três meses no país – já acordava com tarefas agendadas.

 

Leticia saia cedo para trabalhar e Lilian chegava para tentar dar alguma organização ao Caos. Vai ver dispensá-lo e convocar o Éter. Só mesmo um ato volátil para conseguir dar um – acabou – em tanto que se oferecia ao trabalho. Foi assim durante semanas. Até o domingo que o Luciano viera munido de músculos fortes e boa vontade intensa e as caixas desapareceram por completo. O Éter aconteceu. E o Cronos se satisfez.

 

Começou a etapa da decoração.

 

Todos os dias móveis eram levantados e mudados de lugar. Lilian e Leticia já até se divertiam. Os braços – sempre os braços – nem entendia como esquecera eles até o dia do pesadelo – lá estavam em brava serventia.

 

Quando tudo parecia adequado – nada. Era trocado novamente. Um dia o Roberto comentou - vocês duas vão ficar doentes da coluna – o que mais fazem dentro destes poucos metros é carregar moveis de um lado para outro. Desta vez elas riram. Quando ele comentou foi durante uma visita – e já iam pedir a ajuda dele quando o comentário veio e as duas – sincrônicas – calaram. E riram em códigos duplicados. Fingiram de assunto encerrado e quando ele saiu – lá se foram carregar os móveis e trocar de posição.

 

Sem falar na tarde que os tapetes chegaram da lavanderia. Este – sim. Foi o Dia Mundial de Carregar Peso. Os tapetes – dois – seriam um da sala e outro do quarto. Enormes. Leticia descobriu que ela própria precisava retomar a análise. Deu até saudade do Ronaldo – mas ele agora morava longe. Muito longe. Tinha mania de grandeza. Não o Ronaldo. Ela – a Leticia.

Os tapetes cobririam quase todo o piso que o senhor Elson – Evesio – Everdson havia tão artisticamente colocado.

 

Abrir e estirar o da sala fora fácil. Não tinha tantos objetos para levantar. Uma erguidinha de pé de cadeira ou de mesinha e lá estava o tapete lindo cobrindo e colorindo toda a sala com sua imensa metragem. Desta vez não foram polegadas. Repetiram-se os metros quadrados. Olhavam encantadas. E – por certo – tentavam gastar um tempo sem finalidade para evitar o passo seguinte difícil. Vai ver foi neste instante que a Leticia aprendeu este consumo de tempo para ganhar tempo fazendo nada. Não tão simples – mas assim.

 

A questão era o do quarto.

 

Ficaria sob a pesada cama de cabeceira de ferro trabalhado. Tinha que erguer a cama e estirar o tapete. E tudo isso sem espaço para movimentação. E contavam apenas com os braços delas. E mais um pormenor – teria que ser com muito cuidado. Barulho no apartamentinho era permitido até as cinco horas da tarde. Eram seis horas. Nada de arrastar daqui para ali. Não importava se o percurso era curto. Importava que o silêncio fosse longo.

 

Lilian – prática – foi logo desarmando a cama. Mesinhas de cabeceira abraçadas - foram parar na sala. Abajur desmontado. Enfeites colocados em segurança no cantinho da cozinha. Tudo com passinhos suaves.

Quatro braços a serviço da decoração. Qual uma devoção. Fé e função. Riram.

Quando finalmente conseguiram desmontar- estirar o tapete – definir a equalização – montar – repor objetos e móveis no lugar certo - não estavam só com os braços caídos. Pernas e fôlegos pareciam ter viajado para outra dimensão. Fosse depois da Televisão nova e saberiam em qual dimensão teriam ido parar.

 

Surpresa mesmo foi um tempo depois. A Lilian já havia voltado para o país onde morava. Quando soube que a Leticia havia carregado a enorme caixa da Televisão – reclamou. Você ficou maluca – carregar um peso daqueles. Leticia lamentou a distância geográfica. Estivesse perto da Lilian ofereceria a ela um espelho. Riu.

 

Passou a mão no Fouton. Desta vez riu alto. Respirou aliviada por saber que ninguém a observava. Teve o dia do Fouton.

 

Uma amiga também distante viria para visitar a Leticia e seria confortável recebê-la em casa. Nada de ficar em Hotel. Ficaria muito feliz de poderem passar a noite conversando e rindo sem compromissos outros além da conversa e do riso. Eram amigas da tantos anos que era uma alegria renovada que a Leticia sentia cada vez que a Carolina vinha vê-la. Desde que anunciava a vinda – todo um novo estado de ânimo surgia na Leticia. Carolina tinha sido aluna dela num tempo que orientava grupos de Formação e de aluna a amiga – foi um caminho rápido e sólido.

 

O único detalhe – não tinha local para a amiga dormir.

 

Um pensamentozinho veio anexado. Lembrou a espreguiçadeira de praia. Trouxera com ela do terraço do apartamento deixado para trás. Adorava a espreguiçadeira e pouco usara. Colocou na sala ao lado da estante. Ficaria como um recuerdo. E quando quisesse ler ou escrever – recostaria nela. Perfeito. Cobriu com uma manta que trouxera de uma viagem ao hemisfério de cima. Achou pertinente. Tinha uma certeza – a Aline vai achar ótimo – ela não é convencional. A Cecilia vai discordar – ela é mais séria em termos de decoração. Eis as surpresas. A Cecilia achou ótimo e divertido. Aline criticou insistentemente e diariamente – está horrível uma espreguiçadeira de praia no meio da sala. Tanto falou que Leticia – cansada da repetição – lá um dia dispensou a tal espreguiçadeira. Assunto encerrado. Deu de ombros – mas ficou com um gostinho de antagonismo. Guardou o acontecimento no tal arquivo do “Temporário”. Afinal sabia – Aline não queria que ninguém criticasse o apartamentinho.

 

Dispensou o pensamentozinho anexado. Saiu da espreguiçadeira e voltou à dormida da amiga que viria. E veio.

 

Lembrava que as noites que antecederam a chegada da Carolina - acordara na madrugada pensando na quase impossível solução. Sofá cama não caberia nos cinquenta metros quadrados. Cama – nem pensar. No quarto só cabia mesmo a dela própria. Colchão em chão ela se recusava. Seria uma desatenção com uma amiga tão querida. Mesmo assim ainda saiu para procurar em lojas especialistas em mobiliário para acomodar amigos em visita. Riu. As opções eram maravilhosas. Belas. Elegantes. Confortáveis. Mas já seria o caso de chamar novamente o senhor Elson – Evesio – Everdson para derrubar desta vez a parede que dividia com o vizinho. Não pareceu em definitivo uma solução adequada.

Voltou para casa no final do dia apenas com o cansaço como testemunha. Nada de sofá cama. E a Carolina chegaria em três dias - já avisada e ordenada que esquecesse Hotel. Dormiria no apartamentinho novo e colocariam as novidades pessoais com o bom hábito - “in vino veritas”. Aceito e confirmado – perfeito.

 

Permanecia aquele único detalhe já referido – não tinha local para a amiga dormir.

 

Estava no trabalho no dia seguinte – sem a solução doméstica mas aguardando uma inspiração – quando o celular tocou. A inspiração viera – mas não diretamente para ela. Viera para Aline.

 

Aline contava – já sei onde sua amiga vai dormir. Passei numa loja aqui na esquina de casa. A loja está em promoção. Já entrei e deixei até reservado para que ninguém se adiante pelo preço baixo e você – caso concorde e queira comprar – não mais encontre.

Achei um Fouton. Já medimos – a Lilian e eu - e cabe em seu espaço. O tecido é lindo – bege. Quando voltar - vamos até lá para ver se você define positivamente.

 

Fouton comprado.

 

A entrega seria efetuada em cinco dias úteis. Leticia começou a achar um tempo depois que esta era um rotina que ela desconhecia. Tudo no mundo girava e acontecia – após cinco dias úteis.

 

Não se inquietaram. Lá se foi a Lilian com ela buscar o carro. Colocado o Fouton no carro – era somente subir duas quadras e já estaria a solução definitiva dentro de casa – na sala. E nada de derrubar parede de vizinho – riram as duas no caminho.

 

Entre imaginar e executar – a linha não é tão tênue quanto se pode acreditar. Nada disso. As duas teriam que retirar do carro – colocar no elevador – levar pelo corredor – e depositar na sala.

Leticia ia começar a rir quando a Lilian alertou – nada de rir. O riso diminui a força. Guardou esta informação para repensar em outro momento – mas considerou de imensa importância. Lá ia ela de novo – a Leticia – lidar com os imensos. Riu discretamente.

Depois de mais esforço braçal com o peso do Fouton elevador e corredor adentro e os móveis novamente carregados e relocados – o Fouton ganhou o espaço ideal. Agora a Carolina já tinha onde dormir. Ou conversar e rir.

 

Leticia passou as mãos no tecido do Fouton. Era realmente bonito. E um objeto novo numa casa nova. Este sim – a primeira compra oficial para o novo apartamentinho. O mais tinha sido adaptado – trouxera já de muitos anos e muitas casas. Sentiu uma pontinha de tristeza e lembrou a Lilian. Fez uma mudança – já que esta era a palavra mais comum atualmente - na frase dela. Nada de lágrimas – as lágrimas diminuem a força.

Gostou mais assim.

 

A Carolina viera. Dormira no tal Fouton. Beberam vinho e falaram o que quiseram.

 

Olhou para as cortinas. Sempre adorou cortinas e tapetes. Mais uma vez a Lilian resolveu quase que magicamente o desejo da Leticia. Foi um tal de pregar aros. Lavar as cortinas. Providenciar varão. Na parte do varão ela sorriu. Passaram dias e dias em busca de um varão com três metros e meio. Ainda tinha o tal meio. Nem lembrava mais quem dera esta medida da janela onde o varão seria fixado para receber as cortinas. Mas entenderam como corretas as medidas. Não faltaram lojinhas e lojas. Só tinham até três metros de comprimento. Até que um dia encontraram numa loja de material de construção. Comemoraram. Não foi fácil – mais uma vez - trazer no carro o varão.

Trouxeram. Subiram pela escada. Não cabia no elevador. Sete andares. Sete. E fazendo força para não rir para não ficar fraca.  

Foi impossível não rir no ato seguinte. O varão de três metros e meio que subira pelas escadas com toda a seriedade requisitada – era maior do que o espaço da janela. Teria que ser trocado por outro de três metros. O meio metro que sobrava já ameaçava de novo a casa do vizinho.

Não trocaram. Serraram. Uma serrinha de metal foi apresentada e utilizada. Desta vez riram. Com força ou sem força – era impossível não ceder ao riso. Desta vez não era a rotina ou a medicação. Desta vez era o riso ou a medicação. Riram.

 

E lá estavam as cortinas lindas – penduradinhas. Olhou com um carinho quase parental.

 

A vida em paralelo continuava. O trabalho. A rotina de atendimentos. Os horários continuavam - mais cedo do que o desejado para acordar. Ainda brincava de Fadinha. As plantas estavam crescendo verdes e perfumadas.  Não havia um só dia que algo de dentro dos tais cinquenta metros não fosse movido ou alterado.

 

No dia da finalização da compra com a viúva temerosa fez um comentário com o Roberto. Este agora é todo meu. Posso até pichar as paredes se eu quiser. É todo meu.

 

Ainda não tinha combinado a derrubada de paredes e portas com o senhor Elson – Evesio – Everdson. Na manhã de um domingo que fora até lá para decidir que tipo de reforma faria – o Roberto foi encontrar com ela. Levou um presente. Um spray dourado para pichar as paredes o quanto quisesse. Adorou. Muito. Sempre seria grata a ele por este presente aparentemente lúdico – mas de importância quase visceral.

 

A mesma gratidão lúdica que tinha com a Aline. Quando toda a reforma foi acertada e combinada - uma caçamba se fazia necessária. Tijolos não somem no ar. Não existem na Mitologia Grega nem são parceiros do Éter. São retirados e levados materialmente para o mundo dos entulhos. A Aline sabedora das dificuldades de horário da Leticia foi logo avisando – deixa que eu resolvo. E resolveu. No dia que precisava ser retirado os tijolos desmembrados e as portas desqualificadas – lá estava em frente ao prédio A Caçamba. E Aline tirou uma foto e enviou para a Leticia que trabalhava do outro lado da cidade. Foi a foto e um recadinho – eis a sua caçamba. A mais linda do bairro. Sorriu.

 

Até o Renato que tinha horários tão difíceis quanto os dela – se dispôs a dar o nome e autorização numa lojinha de material de construção próximo do apartamentinho – para que nada pudesse ser motivo de atraso na entrega.

 

Luciano a levara para as compras de pisos e cimentos. Ambos lidavam com o doloroso da situação com tristeza – mas sem mágoas. Este era o viés por onde se entendiam a partir da mudança. E tristeza não se desvincula dos afetos. Não é preciso afeto desvinculado para se dissolver o que não está em Estado de Prazer. Muito pelo contrário. Para se dissolver o que não está em Estado de Prazer – é preciso muito afeto vinculado. Este também um aprendizado recente como o das plantinhas.

 

E uma espera em especial se fazia no dia a dia. Em meio a tanto prefácio e posfácio Leticia ia entremeando o novo texto. Inaugural. Seria avó. Todos aguardavam o nascimento da Riana.

 

Lilian viera para aguardar e Álvaro viera depois. Coitado. Também mal aterrissou e lá se foi recebendo uma maleta de ferramentas. Quadros e luminárias precisavam ser expostos.

 

Mas enfim cada coisa já parecia ocupar o espaço certo. E ela fazia disso um percurso também pessoal - começava a se sentir pertencendo àquele Lugar. Os cinquenta metros quadrados cabiam muito mais do que poderia imaginar qualquer engenheiro ou arquiteto com suas réguas e calculadoras.

 

Cada um mora dentro de uma metragem especial. Como na Televisão de terceira dimensão. Agora a medida era outra – e a Vida começava a se entender com a Leticia mais do que se desentender. E a Leticia começava a compreender a Vida muito mais do que simplesmente a justificar.

 

Antes de levantar do tal Fouton e deitar no horário infantil – Leticia lembrou o amigo americano que viera visitá-la vinte e seis anos depois que se despediram. Aliás – de repente todos pareciam querer visitá-la. Mas pensaria sobre isso depois. Em meio às conversas com o Paul - ela perguntou a ele se ele a estava achando egoísta. Ele respondeu com seriedade. Há uma diferença entre ser egoísta e estar independente. Você está independente. Go on.

 

Levantou e foi dormir. Amanhã tinha a Fadinha já cedo.

publicado por Lêda Rezende às 20:15

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