Blog de Lêda Rezende

Janeiro 31 2012

 

IX

 

Leticia acordou cedo no domingo. Abriu os olhos – e sentiu como se estivesse dentro de uma aquarela. Parecia um quadro. Um lindo céu azul turquesa enfeitava o vidro da janela. Por uma fresta um ventinho suave provocava uma dança festiva com as folhas verde escuro das plantinhas. Do frágil galhinho – o ramo da orquídea rosa se balançava com cuidado.

 

Teve até a impressão de sentir o cheiro do mar.

 

A brisa da manhã sempre a remetia ao lugar de onde viera. Cada vez que abria a janela – lá no apartamento de muitos e muitos metros quadrados – a maresia entrava para anunciar o dia. Era uma forma maravilhosa de acordar – isso era inegável. E nos dias que não trabalhava lá descia de carro para a praia quase em frente onde morava. Eis uma das poucas nostalgias que cultivava – a saudade do mar.

 

E a esta nostalgia se somava um detalhe em especial – pisar na areia morna remexida do final da tarde. Eis o que denominaria sem nenhum exagero de verdadeira saudade. Saudade do ventinho morno em volta da pele bronzeada pelo dia de sol. Do cheiro do mar mais forte ao final do dia do que no começo da manhã. Da água mais quentinha e mais calma. Da praia sempre vazia neste horário. Da escuta das ondinhas finais quebrando na areia. Do marulhinho que dava prazer aos ouvidos.

 

Pensou tudo isso enquanto olhava os prédios pela janela do quarto. Até fechou um pouco os olhos para que as imagens se servissem e se constituíssem pelas lembranças impostas.

 

Ficara ali por um ou dois minutos – mas sentiu como se tivesse viajado. Até deu uma balançadinha na cabeça para se obrigar a retomar a concreta realidade. E retomou.

 

Mas a sensação ficou. Leticia sempre dizia que a sensação é uma produção interna consistente e contundente que a realidade aponta - mas não a traduz como abstrata. Depois das tantas mudanças e adaptações necessárias às tais tantas mudanças – Leticia aprendera de uma vez por todas que as sensações muito mais ajudam do que maltratam. Apontam para as faltas – mas preenchem a emoção sob a saudade – complementando no tempo presente a experiência do tempo passado.

 

Voltou para a cama e ficou recostada nas almofadas – abraçada a si mesma – como se assim também abraçasse o mar – a areia – a maresia.

 

Até riu com ela mesma – deveria ter passado um protetor solar. Riu.

 

Olhou para os braços. Andavam tão requisitados ultimamente. Passou a mão pela pele - quando lá morava o tom da pele era outro. Nem parecia a mesma. Era bronzeada o ano todo. Nem entendia como a pele não estava sofrida. Acordava em tempos de férias já se arrumando para a praia.

E não havia dia de folga ou de final de semana que não começasse pelo quente caminho da areia.

Colocava uma toalha na areia e ali ficava deitada sobre a toalha - entre o que observava e o que pensava.

 

Quando eles eram crianças – ia com eles. Quando cresceram – ia sozinha. Ele sempre ocupado – acabava por não poder compartilhar. Compreendia. Ia só.

 

Muitas vozes complementavam o cenário. Crianças davam gritinhos ao fugir das ondas. Pais alertavam sobre os riscos. Homens fortes de corpos seminus queimados pelo sol diário anunciavam cocos verdinhos e pesados de água. Sempre tinha alguém vendendo óleos para o bronzeado perfeito em saquinhos coloridos e pendurados em hastes de madeira.

 

Vez ou outra cansada do sol entrava na água. Sentia um arrepio delicioso e logo depois já estava mergulhada com a segurança e tranquilidade de quem já conhece - como se em casa estivesse. Os cabelos longos e soltos escorriam felizes e salgados durante toda a manhã.

 

O cheiro das comidas feitas em barraquinhas na orla se misturava aos muitos aromas que o mar trazia - sabe-se lá de onde. Qual um trançado de aromas – a cidade toda era percorrida por este perfume múltiplo. Em determinadas horas do dia ou da noite – parecia que se estava em meio a um navio. E tudo sempre muito azul.

 

Mas eis o que se repetiu e veio em auxílio - o pragmatismo.

 

Leticia se levantou e se desabraçou. Foi falando para si mesma. Pois é – o mar está lá e eu aqui. Bem longe. E mais uma vez parodiou o Álvaro – já fui muito à praia no século passado. Riu. Já estou ate suando. Chega de mar por hoje.

 

Não iria gastar todo o domingo de sol e céu azul com os braços cruzados e recostada numa almofada - lembrando o mar de lá.

 

Voltou para a janela. Muitos caminhavam com os cachorros. Outros com sacolinhas da feira ou da Padaria. Havia uma alegria percorrendo as Alamedas. Por certo a desobrigação de horários e trânsito deixava as pessoas mais livres e disponíveis aos próprios comandos e vontades.

Verificou a hora. Voltou para a janela e decidiu – vou almoçar naquele Restaurante que há tempos não vou.

Até pensou em convidar alguns dos amigos – mas desistiu. Deveriam ter já a agenda do domingo preenchida e vinculada a algum compromisso social.

 

Vou sozinha.

 

E meio sem querer olhou para o espelho da sala. Lembrou o pensamento que banira da valise carregada com uma mão só – quando viajara para Buenos Aires. Lembrou os braços avisando que eram apenas eles – dois - diante do peso da Televisão nova. Lembrou quando fora ao Hospital com o coração madrugador aos saltos. Mais uma vez sorriu ao lembrar o café derramado - num dia de muito imprevisto – sobre a bata branca.

E de lembrança em lembrança - da decisão ao ato – foi somente uma questão operacional da vaidade.

 

Sentindo-se bem – desceu para seguir o caminho até o Restaurante.

 

Estava com muitas mesas ocupadas mas ainda tinha lugares disponíveis. Escolheu uma mesa que se localizava na varanda – próxima à calçada. Uma árvore deixava o lugar bem ventilado e com uma sombra confortável. Uma meia muradinha de concreto deitada sobre colunas finas separava o que era de público do que era de privado. E podia – sentada - colocar o braço sobre a muradinha. Sempre o braço. Mas agora ele teria um privilégio. Adorou isso.

 

Um garçom muito elegante e sorridente perguntou se seria somente ela. Ao escutar o Sim – retirou os pratos e talheres da cadeira em frente. Trouxe a carta de vinhos e o cardápio. Quando se decidisse pelo pedido – poderia chama-lo.

 

O ventinho balançou os cabelos. Ainda bem que não fiquei em casa pensando que poderia estar lá – podendo estar tão bem cá. E como se fizesse um trato consigo mesma concluiu – que a Memória traga o passado é maravilhoso. Afinal – é a minha história. Mas que nunca seja a Memória – sob qualquer que seja o viés - impedimento para que a história continue. Trato feito.

 

Até se acomodou melhor na cadeira.

 

Na mesa próxima algumas pessoas riam e falavam num tom de voz mais alto. Numa outra um casal em absoluto silêncio observava quem entrava e quem saia. Duas amigas pareciam se amparar uma na outra – mas sem prazer ou compartilhamento. Um outro casal se tocava pelos dedos um em frente ao outro – mas não se olhavam.

Pessoas caminhavam pela calçada e uma ou outra olhava para dentro do Restaurante.

Cores – estilos – aromas davam um nonsense perfeito ao ambiente de dentro e de fora.

 

Leticia escolheu as bebidas. A comida. Estava assim se servindo de si mesma e do que o elegante e sorridente garçom lhe atendia – quando alguém se aproximou.

 

Era uma das pessoas da mesa próxima onde todos riam e falavam em tom de voz mais alto. Uma moça muito gentil e sorridente comentou – notamos que você está sozinha – se quiser compartilhar da nossa mesa e nos apresentarmos seria ótimo. Mas fique à vontade para o Sim ou para o Não.

 

Após um segundo de dúvida – Leticia aceitou. As mesas se uniram. Eram oito pessoas e as idades variavam entre quatro a cinco décadas ou pouco mais. Moravam na região.

 

Satisfeitas as curiosidades de praxe – local de origem e profissão – a conversa se fez agradável. Quando disse de onde viera – não faltaram elogios e comentários positivos.

 

Leticia riu com os relatos de indecisão de um deles. Com a mania de perseguição de uma delas. Das cumplicidades de trabalho em três deles. Somente um casal era casado. Riram quando contou sobre os braços. E assim foi. Era apenas um grupo de amigos a sair num domingo de sol. Uma delas era maratonista e um outro ciclista. Riram mais uma vez quando Leticia falou que praticava levantamento de livro e de material de trabalho.

 

Mas foi elogiada pela coragem de sair e se sentar sozinha num Restaurante. Foi o que chamou a atenção deles – a serena solidão. Parecia uma pessoa de boa energia. Este o motivo de ter sido convidada a partilhar o grupo.

 

Leticia agradeceu. Falou para um deles – mas todos se viraram para ela. Ficou até ruborizada – o que foi apontado mas não criticado. Numa cidade de vinte milhões de habitantes – toda a solidão é relativa. E completou – há pouco tempo que aprendi que se pode se ficar só em casa – pode-se ficar só em público.

 

Foi cognominada de Sartra. E os brindes a Sartra se sucederam.

 

O garçom elegante e sorridente passava por eles e sorria. Leticia percebeu um leve sinal de cumplicidade entre o garçom e um deles. Algumas pulguinhas saltaram do mundo e se encaminharam rápidas para detrás da orelha dela – mas desconsiderou.

Fosse como fosse – se espontâneo ou sugerido pelo Garçom – a tarde estava ótima. Eram pessoas educadas e alegres.

Todos falavam e todos se expunham dentro de uma dose adequada de recato. A tarde chegou sem controle do relógio. Despediram-se com trocas de cartões e telefones – mas sem a obrigatoriedade de um possível reencontro.

 

Voltou caminhando para casa. No céu surgiam as nuvens e a possibilidade de chuva.

 

Começara a manhã pela nostalgia do mar. Encerrara a tarde não com a areia morna sob os pés descalços como lembrara com saudade. Mas com risos desconhecidos compartilhados e celebrados e pés bem calçados – mas pisando em terreno aquecido.

 

De volta em casa foi cuidar da rotina da segunda-feira. Separar as roupas e deixar o café da manhã em ponto de ser consumido. Como ainda era cedo – cuidou um pouco mais das plantinhas.

 

Colocou uma música – mas não a Casta Diva. Colocou uma música sob o som do Trio Elétrico e seguiu uma outra do Caetano - quase um hino à esquina da cidade escolhida.

 

Passando pelo espelho da sala – lembrou uma conversinha que tivera com ele quando voltou do Hospital naquela madrugada.

 

Ao espelho agradeceria. A ele contaria sobre muitos dias e muitas noites.

 

Agradeceu - e deixou que a Memória fizesse a parte dela.  

 

publicado por Lêda Rezende às 23:29

Janeiro 24 2012

 

VIII

 

 

Leticia acordou tão de repente que até demorou a se convencer de que estava realmente acordada.

 

O dia que antecedera esta especifica noite havia sido exaustivo. Intercorrência parecia até uma qualificação de tantas que tivera que enfrentar.

 

Não faltaram sustos e tensões. E pensar que tanto desejara com a rapidez da semana para que a sexta-feira chegasse. A sexta feira chegou – mas trouxe anexos dispensáveis. Foi o que mais ou menos resmungou quando os anexos foram se apresentando um por um.

 

Quando organizou a rotina para sair foi até avisando às plantinhas – não esperem por mim porque hoje é sexta-feira – chegarei tarde. A Fadinha que sente e espere. E sorriu de si para si.

 

Fechou a porta – e desceu pelo elevador sorrindo para o espelho. Lá vamos nós – o alter ego e eu.

 

Mas não seria bem assim.

 

Começou desde o instante que chegou na Garagem. A agenda do dia estava sobrecarregada e começaria desta vez meia hora mais cedo – ou seja às seis e meia da manhã. Estava com os minutos contados mas iria de carro e não era longe de onde morava. Chegaria de acordo e no acordo. Caminhou apressada em direção ao carro - porém tranquila.

 

A pressa até continuou na sequência - o que desapareceu foi o tranquila.

 

Alguém estacionara o carro em frente do carro dela e levara a chave sabe-se lá para onde ou por quanto tempo. O Garagista foi convocado. Não sabia o que acontecera – no instante que estacionaram – ele não vira.

 

O Garagista olhava – coçava a cabeça - e caminhava em torno do carro invasor e obstrutor. Não sabia como resolver – não sabia a quem pertencia o objeto móvel. Para ela bastante imóvel - assim falou por entre os dentes com o suposto responsável pela garagem. Enquanto olhava para o relógio e já sob tensão tamanho extra GG explicou ao Garagista - num tom de voz bem mais audível - para caminhar em volta do carro e coçar a cabeça não precisaria tê-lo convocado. Faria isto eu mesma. Talvez seja melhor alguma outra ideia.

 

Como que despertado - desistiu da caminhada e dispôs-se a perguntar aos moradores pelo interfone. Assim fez e assim – finalmente resolveu. O usuário desatento não desceu. Desceram a chave. Alguém com pouca bravura por certo - mas com muita sabedoria - pensou a Leticia enquanto aguardava o carro ser retirado.

 

A questão cinética demorou quarenta longos e intermináveis minutos para se restabelecer.

 

Quando finalmente conseguiu sair – já estava atrasada e sabia muito bem o que a esperava.

 

Os atendimentos já se amontoavam.

 

Agiu como se nada fosse com ela – não iria participar de discussões nem de teorizações sobre hora agendada. Ou queixas sobre Garagem e Garagista. Simplesmente chamou o primeiro e deu seguimento na ordem que considerou pertinente. Atendeu com o bom humor de sempre e pareceu que estava tudo em harmonia - o tempo – o espaço – a individualidade – a coletividade. Quase uma Filosofia. Mas assim pareceu.

 

Mas nem tudo que parece harmonia faz parte da harmonia de tudo.

 

Quando conseguiu unir num mesmo passinho relógio e agenda – respirou.

 

Com a tranquilidade retomada começou a organizar a mesa com os papeis e as tabelas de atendimento. Sentiu um desconforto na cadeira e notou que estava mais baixa do que o habitual.  Incomodava um pouco as costas. Com calma decidiu levantar um pouco o assento.

 

Ergueu a alavanquinha lateral que ficava sob o assento e - recebeu o encosto da cadeira de uma só vez – no rosto. Mais detalhadamente – recebeu a borda de ferro do encosto da cadeira no nariz. Em cima do nariz. Perfeito. Erguera a alavanca errada. O assento mesmo ficou lá na altura que estava. Nem se moveu. Mas o encosto foi obediente. Ao comando manual – obedeceu.

 

O sangue desceu rápido. As lágrimas solidárias desceram juntas. Uma bela parceria. A dor parecia que partiria o corpo em dois. Até lembrou a magia da caixa serrada com a mocinha de lantejoulas dentro. Se alguém errasse deveria ser assim a dor.

 

Colocou as mãos sobre o nariz e aguardou um pouco.

 

Quando o sangue parou – as lágrimas ainda continuaram. Ficou sozinha na sala. Olhando para a cadeira. Olhando para as mãos com sangue. Olhando até para as alavanquinhas. Sentia descer pelo rosto – quente - as lágrimas.

 

Respirou – não tão forte como gostaria porque a dor não permitia – mas respirou para se sentir ainda – qualquer coisa. Nem sabia que coisa queria sentir ou se sentir - mas respirou. Foi até a pia. Fez uma limpeza e colocou um pouco de água em cima do desacatado nariz. E ficou um pouco paradinha.

 

Passou o olhar rápido para a telinha do computador – e lá estavam amontoados mais uma vez os atendimentos.

 

Deu por encerrada a dor e dentro do que denominara de recuperada para a situação – voltou a chamar pela ordem de chegada. Antes - com muita cautela posicionou a cadeira da forma antes desejada. Nunca imaginara que teria medo de encosto de cadeira – mas foi o que aprendeu. Bem afastada e com todo o cuidado moveu as alavanquinhas e finalmente sentou.

 

Passando os dedos de leve pelo sofrido nariz – sentiu um pequeno inchaço. Considerou mais conveniente nem olhar num espelho. O espelho sempre pode piorar qualquer dor. Melhor evitar. Já teria o inevitável para dar conta – o olhar dos que entrassem na sala. Podia dispensar o próprio olhar.

 

Em resumo – uma tragédia – foi o que pensou um segundo antes da porta abrir e dar continuidade ao já estabelecido.

 

Prosseguiu no atendimento. Vez ou outra percorria o nariz com a pontinha dos dedos e parecia estar sob controle.

 

Num intervalo rápido optou por um café. Deveria estar mais atenta ao que não está em bom andamento e não sair da tal cadeira e de dentro da tal sala. Mas não. Lá se foi pegar o café. Escolheu um café duplo. A manhã precisava de uma dose maior de estímulo. Pegou o café duplo e sentou-se diante do computador. Apenas dois agendamentos aguardavam.

 

Levou a xícara aos lábios. Não passou – a xicara - do tórax. Escorregou por entre os dedos e desceu pela roupa da Leticia até o chão – onde se espalhou sem reservas.

 

Nunca esqueceria aquele instante.

 

Quando o café desceu pela roupa até o piso – todos os pensamentos passaram em desfile pelo cérebro e ao mesmo tempo nenhum pensamento passou. Uma sensação nova e estranha. O mundo parecia ter girado e ter parado. Impossível explicar. Mas foi o que sentiu – uma espécie de tudo dentro do nada.

 

Olhou para a roupa. Uma bata branca bordada. Linda. Mas com metade dela com café não pareceu tão linda.

 

Não sabia o que fazer. Este estado de catatonia deve ter durado segundos – mas ela se sentia como se tivesse saído da órbita e voltado no ano seguinte. Mas de volta – ainda bem apenas alguns segundos depois – chamou a mocinha da Recepção. Nem imaginava o tom de voz que usara – mas a mocinha subira duas escadas numa rapidez tamanha que parecia que estava na porta quando chamada.

 

Quando a olhou – riu. As duas riram. A responsável pela Limpeza foi chamada com urgência. Teria que limpar o chão e a mesa. Até dentro de uma gavetinha aberta tinha café. E ela ali – de pé com o nariz inchado e a roupa toda molhada de café. Um belíssimo dia.

 

A mocinha da Limpeza emprestou uma capa e levou a bata supostamente branca para lavar e secar. Ficaria pronta em uma hora. Certo. Obrigada. Riu enquanto limpavam toda a sala - a esta altura toda mesmo – cada um que pisava esbanjava marcas de café pela salinha.

 

Resolveu relaxar e tentar dar um pouco da tranquilidade que tanto desejara desde o momento que o carro fora impedido de sair. Já estava temendo ficar paranoica – mas recuou o temor. Por certo o dia correria melhor – já houvera novidades demais para tão poucas horas.

 

Prosseguiu conforme o previsto – torceu para ter encerrado a cota do imprevisto. Mas nunca se sabe o que os minutos trazem. Enfim. Fez a própria parte – já aprendera desde o dia da Televisão – há uma parte que se faz sozinha e outra que se faz compartilhado. Só não sabia que cadeira e café formavam uma parceria tão desastrosa.

 

Ia pensar sob o viés do inconsciente – mas desistiu com uma rapidez jamais creditada. Não se via em condições de reavaliar inconsciente. Que ficasse o nariz machucado e a bata cafeinada por conta de um possível chiste do Universo. Ela mesma – teria nada com isso a não ser por fazer parte da humanidade - ter um nariz e uma bata branca. Ponto final.

 

Com a bata branca já devolvida e devidamente incorporada à cor inicial – encerrou o dia e voltou para casa.

 

No carro arriscou pela primeira vez olhar-se no espelho. Estava lá somando-se ao ossinho do nariz a marca do tal chiste do Universo – mas não tão forte como supusera. Uma marca. Só isso.

 

Dirigiu com todo o cuidado e respirou – desta vez forte – e aliviada porque conseguiu chegar em casa. Iria subir – parabenizar a Fadinha e nada mais faria.

 

Não sairia. Nem à padaria que ficava em frente ao apartamentinho. Vai ver tem mais chistes por ai acumulado e o Universo resolve gastar todos com ela. Melhor mesmo ficar em casa conversando com as plantinhas e assistindo a algum dos filmes antigos que porventura tivesse esquecido. Ou dormir mais cedo por precaução – não por necessidade. Faria do horário infantil desta vez um horário apressado. Queria mesmo dormir logo.

 

Depois de tanta inquietude durante o dia de trabalho – de tanta tensão – sentiu-se realmente cansada. Muito mais do que o habitual.

 

Quando encerrou a rotina colocou um lencinho com gelo no nariz. Mas já impaciente – suspendeu o tratamento e deitou. Sentiu um conforto imenso no toque do edredom na pele e o aconchego do travesseiro em torno dos cabelos. Apagou a luz.

 

Recordou a cena do café derramado. A Corrida da Recepcionista. A Chefe da Limpeza subindo rápido para por na maquina de lavar e secar a bata. Ela de capa bege atendendo como se – a capa bege - fizesse parte do roteiro.

Com o pouco do humor que sobrou riu mesmo – melhor rir pelo café derramado do que chorar pelo leite derramado.

 

Depois desta pérola de raciocínio - concluiu que estava mal. Devia mesmo estar em situação de exaustão mental - para pensar tamanha bobagem só estando à beira da falência neuronal.

 

E de pensamento bobo a pensamento recriminador do pensamento bobo – Leticia dormiu.

 

A noite nem estava tão avançada quando Leticia acordou. E foi assim mesmo – acordou tão de repente que até demorou a se convencer de que estava realmente acordada. Abriu os olhos. Olhou em volta. Respirou. Sentiu o edredom na pele e o travesseiro nos cabelos. Mas estava suada.

 

Acordou sem saber o motivo – mas o motivo veio rapidamente objetivo e esclarecedor - sentiu algo estranho no corpo.

 

Estava com o coração aos saltos e pulos. Uma taquicardia acentuada a fizera acordar e agora a fazia se assustar. Nunca sentira algo igual. Nem nas etapas de mudança ou de abolição do previsto - sentira algo tão descontrolado no coração.

 

Passou as mãos pelo colchão e os braços voltaram com a resposta atualmente habitual. Estava sozinha.

 

Olhou para o telefone na mesinha de cabeceira e pensou – vou telefonar para eles. Desistiu. Deixa o telefone lá sossegado. Seria um susto e tanto que causaria a eles – no meio da noite. Tentou se acalmar e respirar com suavidade. Aquele deveria ter sido o Dia Nacional de Respirar. Quis respirar quando o assento da cadeira bateu no nariz. Depois quis respirar quando a dor passou. Foi um tal de respirar fundo e respirar raso que já estava até ficando monótono. Nunca solicitara tanto dos coitados dos pulmões.  

 

Afastou o edredom e ficou decidindo o que faria.

 

Impossível não lembrar as amigas e os alertas sobre as pessoas que moravam sozinhas - de todo – encontradas mortas dias depois. Deu vontade sim – mas de telefonar para elas no meio da noite avisando o que estava sentindo. Principalmente para uma delas – a que mais falou e repetiu este anúncio de obituário incontáveis vezes. Até foi com a mão em direção ao aparelho – mas também desistiu.

 

Já estava mudando de sudorese para frio. Um frio percorreu a pele e a fez tremer um pouco as mãos e pés. Até puxou de volta o edredom.

 

Temeu já ter morrido. Temeu estar morrendo. Temeu estar enlouquecendo. Implorou estar sonhando.

 

Nada.

 

O coração estava mesmo em ritmo de corrida desvairada. Alguma atitude tinha que tomar. A respiração já estava fazendo parceria. Tudo estava acelerado.

 

Decidiu sentar. Sentou. Em seguida levantou com cuidado e caminhou em direção à cozinha. O coração parecia querer ir à frente. Até bendisse os cinquenta metros quadrados. Andaria pouco e já resolveria a situação. Vai ver era sede. Mas afastou este pensamento sem sentido. Desde quando o coração acelera porque se está com uma sedezinha banal no meio da noite. Nem que tivesse suado tanto assim. Mas podia ser.

 

Trouxe o pensamento de volta.

 

Naquela situação tudo servia de companhia – até pensamento errado ou sem sentido.

 

Acendeu todas as luzes.

 

Quem sabe a luz externa sugeria uma luz interna.

 

Bebeu a água – um copinho quase todo mesmo sem vontade.

 

Nada.

 

O coração continuou acelerado e sentiu uma delicada tontura. Não tinha jeito. Aliás – jeito tinha. Poderia chamar um daqueles atendimentos em domicilio. Não. Impossível. Sirene. Maca. Aparelhos. Enfermeiros. Médico. Seria muito barulho e por certo – por nada. Afinal se podia pensar tanto – mal de todo – não deveria estar.

 

O tal – de todo – a fez mais uma vez lembrar as amigas com o – sozinha de todo. Já estava mesmo era se irritando. As amigas dormindo serenas e equilibradas - e ela acordada com o coração aos saltos e aos pulos pensando nelas. Era só o que faltava. Baniu mais uma vez as amigas.

 

Iria ao Hospital. Passar a noite admirando e elogiando os cinquenta metros quadrados e bebendo água não parecia uma solução madura e menos ainda adequada. Muito mais insano seria ficar discutindo com as amigas enquanto elas – as amigas – dormiam acompanhadas e esquecidas dos mortais de sétimos dias.

 

A própria profissão da Leticia já a deixava em situação de ambiguidade – tanto ajudava quanto amedrontava. Sabia sobre riscos e riscos. A questão sempre estava na gradação. Ou pior ainda – no tempo entre o surgimento do sintoma e a instalação do tratamento.

 

Quando esta frase chegou ao cérebro consciente – ou mais ou menos consciente - decidiu chamar um taxi.

 

Ligou para a Portaria e avisou - preciso sair para um atendimento e não quero dirigir a esta hora. Por favor - chame um taxi e me avise quando chegar. Mas vou tentar descer logo. Está tudo bem sim – obrigada.

 

Mudou a roupa. Pegou a identificação. A Carteirinha do Seguro Saúde. Ate passou batom. Se era para ser – que fosse com elegância. Olhou para o espelho e lembrou da manhã. Do nariz coitado espancado – e a recusa em se olhar no espelho. Até vingança do espelho inventou. Lembrou de um comentário que fizera quando recebeu o encosto da cadeira no nariz - o espelho sempre pode piorar qualquer dor. Era a Vingança do Espelho.

 

Estava bastante criativa. Nem poderia imaginar que o temor produz criatividade. Ou que coração acelerado também acelera a intensidade da imaginação. Deu um sorriso para o espelho – um sorrisinho tão sem graça que até teve a impressão de ver o espelho entristecer e querer chorar.

 

Fechou a porta do banheiro e deixou o espelho lá preso junto com as possíveis lágrimas e vingancinhas.

 

Arrumada – apagou as luzes e desceu.

 

No elevador o coração aumentou mais ainda a corrida entre uma batida e outra. E teve a sensação de que as batidas estavam já se atropelando.

 

O taxi chegou – a porta do Hospital também não demorou a chegar.

 

Desceu e se identificou. Tinha um amigo de Plantão. Ai sim – respirou fundo e leve.

 

Ele que sempre fora bem humorado – manteve o estilo. Foi logo dizendo – então é assim. Quando soube que o Plantão estava calmo e que eu poderia até dar uma dormidinha veio me acordar. Ela riu. Lembrou o espelho trancado. Ainda bem.

 

Ele a examinou. Fez exames específicos. Perguntou pelo dia de trabalho que antecedeu a tal maratona cardíaca. Perguntou pelos recentes acontecimentos. Ela foi sucinta. Ele foi pragmático. Mas contou sobre o nariz - que recebeu de imediato uma radiografia - e do café. Este recebeu de imediato – uma gargalhada. Encerrou o interrogatório semi-oficial perguntando por que viera sozinha. Avisou que não quis acordá-los e assustá-los. E já estava no Hospital – o Lugar correto para dar uma definição real. Caso fosse mesmo necessário – esperaria o dia amanhecer e avisaria a eles.

 

Os exames específicos chegaram. Tinha sido realmente uma aceleração – mas sem lesão orgânica e sem sequelas. E já estava estabilizado. Talvez um sonho. Ou a agenda exaustiva do dia. Medicou um relaxante e a dispensou sorrindo – agora vou dormir. Não me apareça aqui de volta. E deu um abraço solidário na Leticia. Autorizou a um dos motoristas do Hospital a levá-la de volta em casa. Avisou que telefonaria para ela pela manhã para confirmar se estava tudo bem.

 

De volta para casa – repetia para si mesma esta frase. Estou voltando para casa. Estou voltando para casa. Precavida - sorria de cantinho e do lado que o motorista não percebesse. Vai lá que pensa que a aceleração era mental e a leva de volta para alguma sedação. Nem pensar. Só queria chegar em casa - e destrancar o coitado do espelho e se recobrir com o edredom.

 

Agradeceu ao motorista. Agradeceu ao Porteiro. Saiu agradecendo até às paredes do prédio. Agradeceu ao elevador. Agradeceu ao interruptor quando acendeu as luzes. Agradeceu aos cinquenta metros quadrados. Agradeceu à Fadinha. Agradeceu às plantinhas. Só não listou agradecimentos às amigas funestas.

 

Abriu a porta do banheiro. Sorriu para o espelho que pareceu ficar feliz.

 

Deitada na cama – enfim respirando sem preocupação se leve ou profundo – passou a mão pelo colchão. O braço trouxe a resposta habitual. Mas desta vez com uma nova leitura. Fizera o que deveria ser feito. Enfrentara o que deveria ser enfrentado e mesmo diante de tanto susto – soubera dosar as necessidades e as faltas das mesmas necessidades. Estava aprendendo rápido.

 

Tentou resgatar na Memória se tivera mesmo algum sonho – como o amigo do Plantão sugerira. Abraçada ao edredom - alguns fragmentos vieram. Tentou recompor com mais particularidades - mas desistiu. Melhor não repetir o dano. Vai lá que da segunda vez não escapa – e se era para ser esquecido que ficasse esquecido na totalidade e de uma vez.

 

Lembrou-se do Freud. Formulou algumas frases para ele e sobre ele. Mas nada gentil ou afetuoso que o agradasse escutar ou saber - se vivo estivesse. Riu.

 

Sentiu o frio da madrugada. Quando encontrasse com eles contaria sobre o dia e sobre a noite. A Lilian mandaria contar na ordem inversa – sobre a noite e sobre o dia. A ele contaria apenas sobre o dia. Às amigas funestas nem sobre a noite nem sobre o dia.

 

Ao espelho agradeceria. A ele contaria sobre muitos dias e muitas noites.

 

publicado por Lêda Rezende às 00:03

Janeiro 18 2012

 

 

VII

 

 

A ideia surgiu num dia coerente - numa segunda-feira.

 

Para se pensar em fugas não existe nada mais estimulante do que acordar na segunda-feira com sono – lógico - e buscar uma saída. Qualquer saída - contanto que se possa ficar fora da rotina que a semana garante - desde o primeiro toque do despertador. Vai ver se algum historiador investigar vai descobrir que a História girou em torno da segunda-feira – por certo o dia das Revoluções.

 

Por uma dessas coincidências do desejo aliado à solidariedade do inconsciente – Leticia acordou naquela segunda-feira cantarolando uma musiquinha.

 

Dormira tarde na véspera – muito tarde. Fora rebelde e desautorizara o horário infantil. Dormiria no horário adulto – chega de tanta obediência.

 

O domingo tinha sido prazeroso. Acordara mais tarde e quando eles telefonaram com os convites para um domingo compartilhado – aceitou saltitante. Saíra para restaurantes e cafezinho com eles quatro. Passara a tarde de conversinhas e risadinhas. Cada um falou um pouco de si e escutou um pouco do outro. Riram de si mesmo e do outro. Um domingo leve e carregado de afetuosidade. Este um traço arraigado entre eles - a intensidade Padrão Ouro do afeto incondicional. Eis uma das poucas certezas absolutas que tinha na vida. E na Vida.

 

Quando se despediram voltou para casa para arrumar o dia seguinte. A segunda-feira.

 

Foi quando decidiu aumentar o tempo de vigília. Riu. Nada de controle de horas. E além do mais – poucas horas de sono também são também consideradas horas de sono. Nada de ficar nesta espécie de auto punição. Nem lembrava mais quando iniciara esta rotina tão rigorosa. Mas já foi respondendo ao pensamento - não lembrava quando iniciara mas já era tempo de revogá-la. E falou isso diante do relógio da cozinha. Um relógio quase maior do que a cozinha que comprara numa manhã de sábado logo depois da mudança e do Futon.

 

Até riu lembrando a Televisão. Parecia que tudo era maior do que os cinquenta metros quadrados. Agora não tudo – a obediência diminuíra de tamanho. Assim falou para os tais ponteiros mas com todo o cuidado para não ser vista. Não pelos ponteiros – mas por algum membro mais desocupado da vizinhança já que deixara a janela e as cortinas abertas. Nada daquela ameaçadora camisa branca de tirinhas para trás. Já que escapara do duende verde não seria por ponteiros de relógio que iria se comprometer.

 

E afinal – estava dentro da própria posse – algo já bem definido.

 

Mas assim fez. Dormiria quando estivesse com vontade de dormir – não porque teria que dormir. Falou o que tinha que falar para o relógio – e fez todo um lúdico. Por via das dúvidas – com posse ou com exageros - decidiu fechar as cortinas.

 

Acendeu as luzes da sala. Enquanto separava roupas e material da – inevitável segunda-feira - colocou um CD da Maria Callas. Tudo ia muito bem até que entrou a Casta Diva.

 

Pronto. Ai já era como se tivesse mudado para outra esquina.

 

Cada vez – e nunca soube porque – que escutava Maria Callas cantando Casta Diva – chorava. Era instantâneo. O som começava e as lágrimas caiam. Quando assistiu ao filme biográfico – saiu do cinema como se tivesse saído de um enterro. O nariz vermelho sentia-se bem à vontade entre os dois olhos inchados. Notou que algumas pessoas a observavam e fingiu um espirro. Pode até ter convencido às tais pessoas que a observavam – mas não aos olhos. Indiferentes - continuavam dispensando lágrimas.

 

Nem o Ronaldo com todo o saber interpretativo conseguiu ajudar a decifrar. Caminharam pelo Casta. Depois pelo Diva. Depois pela voz. Depois pelo libreto. Nada. Nunca deu certo. Só as lágrimas. Desistiu.

 

Ainda bem que choro pela Casta Diva. E deixou de se preocupar.

 

Enquanto a noite prosseguia - obedecia às lágrimas e desobedecia ao horário. Enfim. Nada é perfeito e não há rebeldia sem preço.

 

Escolheu livros. Pensou em dar uma organizada na estante – mas recuou. Nada de tarefas. Caminhou pela casa. Telefonou para uma amiga distante – falaram pelo tempo que acharam que deviam falar. Passeou pela casa novamente.

 

Trocou de música. Chega. Agora passaria às canções napolitanas.  

 

E de rebeldia em rebeldia quando foi dormir já sentiu aquele friozinho que a madrugada sempre trás. Ainda ligou a Televisão – mas já cansada – desligou e dormiu. Não sem antes dar uma olhadinha para o malvado relógio e seus cruéis ponteiros. Quase deu um grito – mas não quis dar uma de arrependida. Até falou em francês – non je ne regrêt rien.

 

Esta a ultima lembrança que teve da noite quando acordou pela manhã - atrasada e sonolenta. Claro.

 

Às pressas foi fazendo – ou cumprindo – o necessário. Nem percebeu que cantarolava enquanto organizava o trabalho da Fadinha. Até as plantinhas foram regadas ao som da tal musiquinha.

 

Não era uma musiquinha comum. Muito menos habitual. E nada tinha de regional. Foi atentar ao que cantarolava já saindo de casa. Fechou a porta – e se escutou.

 

Cantarolava mi Buenos Aires querido cuando yo te vuelva a ver. Esta a musiquinha que a acompanhou não só no despertar mas - também - durante todo o dia.

 

A cada intervalinho – lá estava cantarolando a música do Gardel.

 

Voltou para casa. Parabenizou a Fadinha. Organizou o dia seguinte. E recomeçou a cantarolar a musiquinha.

 

E cantarolando - correu para a Internet. Quanto será que custava um final de semana em Buenos Aires – quase perguntou desta forma ao Sábio da Internet.

 

Perguntou parecido. E resposta do Sábio veio imediata. Uma listagem de Agências de Viagem apareceu na telinha do computador. Olhou seguidas vezes. Deixou até a janelinha aberta para continuar olhando. Procurou se ocupar para afastar o olhar. Desta vez até arrumou um ou dois livros.

 

Voltou. Olhou de novo. Escolheu uma das Agências listadas. Leu fingindo pouco interesse – mas percebeu em rápidas piscadas que estava ao alcance da conta Bancária. Se arriscasse seria como um deslize sem fraturas nem maiores repercussões. Nada que alguns pequenos atos engessados em dois ou três finais de semana – fizessem o contraponto.

 

Há tanto tempo que não viajava. Com as mudanças do previsto para o abolido e com a arrumação e reforma dos cinquenta metros quadrados – muitas restrições se impuseram e na ordenação de – isso não – as viagens inauguravam o item um.

 

Nunca viajara sozinha para laser. As viagens que fizera sozinha eram viagens de Congresso e colegas e amigos estariam em torno dela. Apartamentos de hotel eram divididos com as amigas também congressistas. A parte de turismo e laser ficava imprensada em aulas e conferências e pouco conhecia nestas cidades que fosse muito além do local do Congresso e fora do percurso de ida e volta ao hotel.

 

Esta seria a primeira vez que iria sozinha – por conta dela – para um roteiro escolhido por ela. E com as datas de acordo cm o ímpeto dela. E bem distante de aulas e atualizações técnicas. Esqueceria a profissão. Dispensaria as apostilas e certificados. Até riu. O certificado agora seria oferecido a ela por ela mesma. Um belo curso intensivo – de si mesma. Ótimo. Quem sabe aprenderia a lidar melhor com as próprias faltas e ausências – como bem alertava o Drummond.

 

Viva o cantarolar matutino.

 

Olhou o imenso relógio. Ainda conseguiria um atendimento.

 

Ligou. Atenderam. A mocinha desta vez não falou aquele – sim pode falar – da agência do Francesco – mas foi educada no – pois não. Quase comentou com ela que bem melhor é começar com um sim. Nada disse nem insinuou – que cada um escolha onde colocar o sim ou o não. Não seria ela agora Orientadora de Agência. Já tinha tarefas demais. E só queria possibilitar um destino temporário – uma fuga com passagem de volta - apenas isso. Uma questão de segunda-feira.

 

Mas quando falou o destino – a mocinha pareceu se entusiasmar. Estivera lá quinze dias atrás. Acrescentou o quanto gostava daquela cidade. Da música. Da dança. Da alegria das pessoas. Da comida. Da noite. Falou tanto e sequencialmente que até se desculpou e retomou a formalidade. Leticia entendeu como um sinal do Universo. Teve a música saída sabe-se lá de onde ao acordar -  agora a primeira agência que entra em contato já atende uma mocinha apaixonada por Buenos Aires.

 

Por certo um bom sinal. Um ótimo sinal. Um excelente sinal.

 

Recatada com a gradação dos sinais apenas fez as perguntas de praxe. A mocinha respondeu obviamente baseada em alguma gélida tabela – mas a cada resposta parecia vir um incentivo no estilo – vai sim. Na pergunta pelo número de reservas explicou – somente eu. A mocinha informou dos valores.

 

No momento seguinte já estava lendo para a mocinha entusiasmada e do – pois não – o numero do Cartão de Crédito. Sim. Iria sexta-feira no começo da manhã e retornaria no domingo no começo da noite. Sim. Já na próxima sexta. Correto. Perfeito.

Estava feito. Sentiu-se até vingada. Só depois lembrou a pergunta e a resposta pelo número de reservas. E do sobrenome do apartamento do hotel – single.

 

Desligou e ficou de pé. Assim. De pé e silenciosa. Onde já se viu – comprar uma passagem porque cantarolou uma música. Imagina se tivesse sido uma polca. Ou uma valsa. Deveria sim – ligar para o Cartão de Crédito e cancelar a compra e a reserva. Depois confirmar o cancelamento com a Agência. Ou já sair para comprar a tal camisa branca com fitinhas que amarravam os braços para trás. Pensou até em colocar a Casta Diva para que chorasse provocado e disfarçado.

 

O chorar disfarçado quase a remeteu a uma simbolização causal das lágrimas ao escutar a música – mas interrompeu.

 

Ia começar a se recriminar mais intensamente ainda - quando sentou. Só faltava uma auto-flagelação.

Mas respirou calma. Foi até o espelho – confirmou ser ainda ela mesma. Voltou para a sala. Relaxou. Tentou controlar a adrenalina. A serotonina. A histamina. A taquicardia. Até se acomodou melhor na cadeira para se sentir mais segura.

 

Parabéns – disse de si para si. Vai viajar no final de semana por sua conta e autoria. Estão impedidos de danificar o corpo qualquer que sejam os sintomas vindos da mente desvinculada de realidade. Assim. Tipo uma ordem inversa.  

 

Se pode ficar no apartamentinho sozinha - pode ficar num hotel sozinha. Se pode ir ao cinema sozinha – pode ir ao Teatro sozinha. Se pode sair de carro sozinha – pode sair de avião sozinha. Se pode resolver toda a reforma sozinha – pode escolher todo o roteiro sozinha. Se pode dormir sozinha em Português – pode dormir sozinha em castelhano.

 

E muitos desses – sozinha – não foram consequentes da mudança. Rememorou e quase enumerou. Assim fora e assim agira tantos e tantos anos. A diferença é que – semelhante às lagrimas disfarçadas pela Casta Diva – parecia estar acompanhada.

 

Toda a parte de prazer cultural sempre fora sozinha. Um não gostava de determinado filme. Outro não gostava de determinado teatro. Um reclamava de muita gente. Outro de muito sono. Um de dor nas costas. Outro de humor inadequado para filas. E por aí seguia. Um dia ela decidiu que poderia dispensar os desconfortos de um ou de outro e passou a ir com ela mesma. Lá estava o alter ego mais uma vez de interlocutor. Não achava maravilhoso ir sozinha – entendia que a diversão começa quando o filme ou a peça acaba – mas se assim era para ser que assim fosse. Sabia que são as conversinhas de botequim depois do que se assistiu que faz valer a diversão - mas se habituou a contracenar consigo própria.

 

Depois da tal lista de sozinha – e da conclusão do disfarçada - estava feliz.

 

Pela primeira vez se sentiu realmente vestindo a própria pele. Faria o que desejasse. Não se comprometeria com a vontade alheia. Riu. De alheia já era suficiente ela com ela mesma.

 

Fosse uma entalhadora e entalharia um Tótem – o do Ego. Mas faria com certeza uma comida totêmica – um banquete totêmico - bife de chourizo. E a bebida também totêmica – vinho. Riu. Desta vez riu mesmo. Adeus Casta Diva. Agora seria Allegra Diva. Pensou e falou mais algumas bobagens e levantou.

 

Foi tratar de organizar o roteirinho.  Antevendo a rotina de trabalho da semana atropelada para adiantar os atendimentos da sexta-feira – por certo mal teria tempo de planejar a viagem. Agora sim – como num prefácio - iria cuidar do nem bem planejado e já executado. Separar os horários. Teatro. Casa de Tango. Passeios na Recoleta. Cafés. Vinho em Palermo. Feirinhas de artesanato nas pracinhas. Aquela cerveja deliciosa no final do dia. Comprinhas - que ninguém é de ferro. Livraria Ateneu. Brindar el Caminito. Servir-se da doce brisa portenha.

 

O Sábio da Internet veio em auxílio. Não faltou opinião ou sugestão. Jogou até um beijo para o Sábio. Sorriu para o Universo e enviou um - muito obrigada. Há tempos aprendera que se escuta com os próprios ouvidos e se enxerga com os próprios olhos. Estava na hora de colocar em prática esta tão simplória teoria. Sem disfarces nem obstáculos. Assim. De corpo e alma – presentes.

 

Não precisou do Francesco. Nem do Giovanni. Nem de quem quer que fosse - para servir de companhia ilusória. Não precisava do olhar do outro. Não precisava se explicar a ninguém. Viajaria sozinha porque naquele momento lhe daria prazer. Nada a ver com o passado nem muito menos com o futuro. Estava com vontade de ir a Buenos Aires e iria. Simples assim.

 

Desta vez dormiu mais cedo. Preferia não acompanhar a demora dos dias. Dormiu e sonhou aterrissando e buscando um táxi. Hablava en Español. Não só a Realidade gosta de sonhos - os sonhos também gostam de Realidade – foi o que pensou quando acordou.

 

Não sabia dizer se dormir cedo acelerava o processo do Tempo – mas a quinta-feira chegou célere. A Agenda fora fechada e os remanejamentos agilizados. Nada ficara sem a devida cota de responsabilidade valorizada.

 

Desta vez Leticia arrumou a roupa da viagem o material da viagem – que seria no dia seguinte. Arrumava e falava sorrindo. Amanhã a esta hora – olhou irônica para o tal mégalo-relógio e falou – amanhã a esta hora estarei lá.

 

Quando contou a eles – os quatro se surpreenderam. Cecília achou maravilhoso e sorrindo acrescentou um – força na peruca. Aline perguntou repetidas vezes se ela iria sozinha mesmo e fez um olhar mais convencionalmente desconfiado. Roberto pediu um pouco preocupado que ligasse duas vezes ao dia dando noticias. Renato riu e desejou excelente viagem.

Deixou com eles todas as formas de contato em Buenos Aires e prometeu ligar as duas vezes ao dia.

 

Ele quando soube pareceu entristecer – mas fez poucas observações - apenas perguntou que dia voltaria.

 

Mas enfim. Lá estava ela em casa – sozinha – arrumando a valise. Estava econômica no espaço e no peso. Já sabia bem desde a Televisão e dos móveis arrastados de um lado para o outro – o limite dos braços. Há o que pesa desgastando e há o que pesa com leveza. Ela e os braços dela já eram quase um Tratado de Filosofia e Energia. Levaria o necessário para um final de semana. Nada além do que usaria caso ficasse na cidade e saísse durante o dia e a noite. Parecia tão simples quando assim pensado. E assim mesmo foi – simplesmente - atuado.

 

Podia segurar a valise com uma mão só. Mão só - a fez dar uma paradinha. Mas dispensou o pensamento com a mesma rapidez que despertara a atenção dela junto com um erguer da sobrancelha. Sobrancelha de volta ao lugar certo e pensamento banido. Deixa para depois. E talvez nem para depois. Até relembrou o Freud e o deixou ficar – um charuto muitas vezes é apenas um charuto.

 

Que bom que com uma mão só podia segurar a valise da viagem que decidira fazer. Até balançou a cabeça de forma positiva. Achou perfeita esta alusão seguida da conclusão.

 

Numa mão a valise. Na outra mão os documentos. Na expressão - a emoção. Sentiu-se poeta de si mesma. Fechou os olhos e já se viu chegando lá. Sentindo a brisa portenha – como costumava dizer. Só comprava a brisa portenha com a brisa do mar. Ai sim. O Rio da Prata que perdoe mas a brisa do mar era a vencedora – primeiro lugar no concurso de brisa.

 

Enquanto organizava o Departamento de Viagem – como também costumava nomear sorrindo - optou por colocar todos os cd’s de Tango que estavam abandonadinhos na estante. Separou o que encontrou – ainda não tinha arrumado esta parte da estante. Quase se arrependeu. Fosse mais organizada e encontraria o que procurasse. Só teve o cuidado de não aumentar muito o som – não queria desconfortar a ninguém – queria apenas se regozijar. Já estava recostada no Futon com todos os sentidos em estado de alerta e quase sentindo o cheiro da tal brisa - quando olhou para o lado.

 

Sim.

 

Um cuidado especial se fazia importante. As plantinhas precisavam de uma outra mão. Não suportariam um final de semana inteiro sem ajuda. E não as deixaria ao abandono. Lembrou a amiga querida e a fala sobre a crueldade da sede permitida pela imobilidade natural. Mas resolveu. O zelador que já avisara inúmeras vezes – se precisar é só chamar – foi chamado.

 

Sim. Regaria as plantinhas pela manhã do sábado. No domingo não seria necessário – ela já estaria de volta. Não comentou para onde iria - nem como nem por que. Estava aprendendo que nada tem que ser explicitado. Acaba-se invadido pelas contradições de muitos e de cada um. Lembrou os conselhos do pai.

 

Sexta-feira acordou cedo. Muito mais cedo do que o habitual e do que o necessário para a viagem. Mas acordou. Uma certa tristezinha chegou de repente – muito mais cedo do que o habitual ou do que o necessário. Olhou para a valise arrumadinha e apressada – já estava na porta de saída. Olhou para a mão.

 

Enquanto se arrumava – olhou para o espelho. Sorriu e disse – até a volta. Quando eu voltar você é que vai me olhar diferente. E dispensou a tristezinha.

 

Pegou o que de momento lhe pertencia. Abriu a porta. Colocou a valise próxima ao elevador. Voltou. Despediu-se das plantinhas. Deu folga à Fadinha. Fechou a porta e desceu.

 

Numa mão a valise. Na outra mão os documentos. Na expressão - a emoção.

 

Na Portaria um táxi a aguardava conforme combinado. Cumprimentou o motorista e seguiu para o Aeroporto. As mãos da Leticia livres da valise e documentos – cumprimentaram-se efusivamente.

 

Sorrindo – cantarolou - mi Buenos Aires querido yo te vuelvo a ver.

 

 

 

publicado por Lêda Rezende às 22:03

Janeiro 11 2012

 

VI

                 

Com tudo resolvido e já na manhã véspera da mudança – Leticia desceu toda feliz pelo elevador. A reforma estava finalizada e dentro do previsto. Até acariciou as paredes e circulou tanto pelos poucos metros quadrados que quase ficou tonta. Mas estava encerrada esta etapa.

 

Na manhã seguinte chegaria a Transportadora com o que - na divisão - ficara para ela.

 

Encontrando o zelador – fez uma pergunta que desde o inicio planejava – mas esquecia. Estava ela com uma dúvida operacional. Não vira nesta confusão toda – a menos que estivesse muito mais desatenta do que desejava estar – a saída de gás de cozinha.

 

Vendo-o passar aproveitou para perguntar sobre a cegueira seletiva. Só não esperava a resposta que ele dera. Pela primeira vez - preferiu a cegueira.

 

Não. Não temos – mas há previsão de obras para instalação no próximo ano. Por enquanto somente com botijão de gás dentro da cozinha.

 

Não tinha tubulação para gás encanado. Murmurou meio de si para si. Não porque planejasse esse meio resmungo – mas porque a voz desapareceu.

 

Despediu-se dele com um aceno e uma imitação de riso e saiu. Resolveu caminhar um pouco pelas Alamedas - quem sabe a caminhada ajudasse na solução. Ou quem sabe algum duende verde viria com alguma boa sugestão. Nesta época ainda não estava com amizades com a fadinha.

 

Apelou para o tal duende. Mas de verde mesmo só viu a própria imagem assustada num reflexo de uma vitrine. Nem lembrava quando fora a última vez que estivera frente a frente com um deles. Não frente a frente com um duende. Frente a frente com um botijão.

 

Ela não sabia lidar com botijão de gás. Simples. Não sabia. Além do mais considerou espacialmente incompatível um botijão dentro daquela minúscula metragem da cozinha. Não compreendia como não tinha visto.  

 

Os passos seguintes pelas Alamedas trouxeram de imediato uma lembrança. A das falas das poucas amigas que contara sobre os desvios na rota do Futuro compartilhado - que de previsto passara a abolido.

Alertaram – morar sozinha de todo é perigoso. Sempre há assaltos e o pior – pode-se ficar morta durante dias sem ninguém perceber.

 

Simpáticas – pensou. E encantadoras – pensou de novo. Mas não era momento de refletir sobre amigas temerárias. Já tinha muito para resolver

depois da dolorosa notícia da falta de encanamento.

 

Mas foi impossível evitar imagem de corpos mortos solitários em apartamentos como as amigas advertiram – depois da imposição do tal botijão. Por certo tinham botijão de gás – os pobres mortos solitários. Isso ninguém comentou – foi o que concluiu de mais sábio naquele instante. Roxa sorriu. Ou talvez tivesse sorrido. Já não garantia o tipo da expressão facial que surgia depois da assustadora informação. Deve ter ficado branca como neve.

 

Sempre gostara de contrapontos.

 

Enquanto descia pelas tais Alamedas buscando algum – pelo amor de Zeus – mágico duende solidário - veio uma lembrança repentina. Vai ver fora realmente por alguma intermediação esverdeada.

 

Lembrou numa inspiração súbita e forte. Quase perdeu o fôlego. Ainda bem que a voz tinha sumido – senão seria uma espécie de grito que se escutaria. Até tossiu para ativar os pulmões.

 

Lembrava de algumas cenas da infância não muito claras – na cozinha. Mas uns pequenos traços de Memória se uniram e se fizeram presentes como uma espécie de auxílio intempestivo. Lembrou a mãe colocando com uma esponja um pouco de espuma de sabão na saída – não tinha certeza onde exatamente – mas talvez na conexão do botijão com o fogão.

Quase escutou a voz da mãe experiente - se fizer bolhinhas é sinal de risco iminente de explosão.

 

Quando a palavra explosão veio à mente – o corpo até reagiu. Não só os braços – mas o corpo todo. Até sentou-se num banquinho em frente a uma lojinha da Alameda. Imagina uma explosão de um botijão de gás num espaço de cinquenta metros quadrados. Não teria jeito nem com a ajuda do maravilhoso senhor Elson – Evesio – Everdson. E por certo ele ficaria irritadíssimo quando visse o piso que colocara tão maravilhosamente perfeito - espalhado e destroçado entre paredes e teto.

 

Sim. Paredes. No plural. Desta vez o vizinho que escapara de tanta ameaça que viria depois - de derrubar a parede do apartamento dele para instalar sofá cama e varão de cortina no apartamento dela – não escaparia da tal explosão. Desta vez teria um amplo espaço com pisos e pedaços da alta tecnologia do fogão na sala dele. Sem falar na terceira dimensão da televisão. Tanto esforço para subir no elevador para depois ficar no plano de última dimensão.

 

E além do mais moraria – Sim – sozinha. Um detalhe de extrema importância. Quem faria esta parte de retirar – colocar – testar e ligar – seria ela. Sem esquecer a tal esponja com espuma. Acabaria ensaboando até a geladeira. E explodiria tudo limpíssimo. Com toda esta sequência aumentara o risco de engrossar as estatísticas das amigas cuidadosas.

 

Nem conhecera ainda o Francesco e por certo a tia Luiza perderia a chance de acreditar em Papai Noel. Quanta alteração no Destino por conta de uma caninho ausente.

 

Nem pensar.

 

Nem tudo é solidão e dificuldade. Ou obituário de jornal. Pode fazer de outra forma. Falou num sussurro já diante de outra vitrine e em outra Alameda. A escolha – a decisão e a vontade - agora é sua. Temer e evitar também faz parte do direito de posse. 

Sempre se pode transformar pensamento em diálogo. Bendito seja o inventor do alter ego. Sorriu. Não tinha duende verde – mas tinha alter ego.

 

Logo que soube pensou em dramatizar a situação tornando-a tema de jantar na casa dos filhos e norinhas. Mas não se imaginava contando esta novelinha para quem quer que fosse. Ou que esta historinha tivesse algum ponto de interesse para quem quer que fosse – além dela mesma. Quem poderia se interessar por questões tão simples e corriqueiras - além do alter ego e do temor dela. Nem o tal duende se interessara. O mundo parecia se mover muitíssimo bem sem as tais questões de botijões e encanamentos.

Imagina se contasse também que descera as Alamedas em busca de um duende verde e que ele não aparecera. Iria ficar de roupinha nova – aquela branquinha que se amarra com tirinhas. Os braços iam ficar bem mudos para trás. E o espaço onde passaria a morar seria menor que este - com a única diferença de ter paredes acolchoadas e falta de acesso a fogões e muito mais ainda a botijões.

 

Sorriu de novo. Inventara há muitos anos um pêndulo imaginário. Até quis registrar o domínio. Mas não existe registro público para uma criação imaginária. Sentiu-se um gênio desconhecido. Riu ao lembrar-se disso.

 

Funcionava de forma egóica – e obviamente prática. Cada vez que se imaginava contando algo a alguém – e este tal pêndulo imaginário oscilasse para o lado do ridículo - era porque realmente o relato era ridículo. E nada contava. Buscava a solução mais pertinente e encerrava a dialética com ela mesma.

 

Este era um dos filtros mais importantes que ela utilizava sempre antes de depositar qualquer queixinha em ouvidos alheios. Conversava com o alter ego primeiro e depois com os outros egos. Considerava uma tática de guerrilha. E tática vencedora – nunca errara. Só errara quando agira por impulso e saíra por ai falando as primeiras asneiras que surgissem na cabeça – deixando empoeirado num canto qualquer o tal pêndulo imaginário.

 

E sabedora de que cada um tem seu filtro – sabia também que nem sempre os excessos de um se entendem com os filtros dos outros. E vive versa. Assim aprendera sobre cautela.

 

De filtro em filtro – agiu com pragmatismo. Lembrou a fase atual do – é meu. Todo meu.

 

Quando a mudança foi feita lá se veio o fogão. Foi encaixado no lugar correto – e inclusive liberado um espaço para o tal botijão ameaçador.

E lá ficou qual um enfeite ultrapassado e gasto – sem uso por alguns meses. A querida Lilian veio e se foi. O sábio Álvaro pendurou luminárias e quadros. Teve tempo até de discorrer sobre a nomenclatura do mamão. As meninas riram dos avisos nas caixas. A tia Luiza passara a crer em Papai Noel.

 

Tudo acontecia e o mundo girava – menos o fogão. Lá ficava. Desligado. Desencanado. Sem botijão. Inútil.

 

Leticia passava por ele – fingia que não via. Olhava de cantinho de olho. E nunca a ele se dirigiu a não ser para colocar algum objeto em cima - enquanto abria alguma porta de armário. Quem perguntasse quando o colocaria em funcionamento – ela respondia – qualquer dia desses surge um espaço para ele. Somente isso. Os que perguntavam não continuavam. Por certo entendiam que ainda era uma adaptação. No que não estavam absolutamente errados.

 

Qualquer decisão que inclua um pouco que seja da oralidade – também tem que ser bem pesada. Riu de si mesma e das metáforas ou analogias sem a menor validade.

 

Definido o quero e o não quero partiu para a solução. Desta vez sem analogias nem metáforas. O objeto em questão não mais pertencia ao desejo da função. Um simples caninho o destituíra. Assim ficava então passível de indeferimento. Simples – se não queria ter botijão de gás – não precisaria ter fogão. E ainda valia mais uma vez - um vice e versa.

 

Uma cozinha moderna surgiu repentinamente. Já havia bastante com o que se preocupar. Botijão de gás era realmente nada.

 

Numa tarde de folga - entrou na internet. Localizou um site de compra e vendas. Gostou. Seguiu todas as orientações e lá dispôs o tal fogão órfão de encanamento.

 

Vendo fogão novo – sem defeitos – pouco uso. Acrescentou os detalhes de tecnologia e as tantas vantagens decorrentes.

 

No minuto após o anúncio – surgiram candidatos. Vários. Não sabia que tantos estavam dispostos à adoção de um fogão.

 

Um deles mais interessado foi logo entrando em contato pelo mail particular dela. Leticia – inegável – teve uma pontinha de temor. Lembrou – mais uma vez – das amigas cuidadosas. E se fosse um assaltante disfarçado. Sorriu de si mesma. Por que o infeliz do assaltante se disfarçaria em comprador de fogão órfão. Sempre escutara que a base para ser um assaltante é justamente a preguiça em desenvolver um trabalho. Não seria justamente este que teria todo esse trabalho para assaltar um lugar que ele por certo não saberia de alguma riqueza associada. Em especial à venda de um pobre fogão.

 

Baniu o pensamento. Silenciou as amigas.

 

Agora já amiga da Fadinha – uniu-se a ela. Limpou o fogão. Deixou-o reluzente. Por pouco se apiedava do coitado – tanto tempo sem atenção e agora aquela faxina toda. Até os objetos podem ser iludidos. Mas retomou o tão já ameaçado senso de sanidade. Nada de conversar com fogão. 

 

No dia marcado e na hora marcada chegou o comprador. Apresentou-se na Portaria ao Zelador requisitado por Leticia para – por via das dúvidas - servir de identificador de assaltantes que casualmente gostem de trabalho.

Quando comentara por alto com o Zelador que não conhecia a pessoa que viria buscar o produto de uma venda – ele abriu os olhos um pouco exagerado. Vai ver também receava os tais assaltos e os mortos solitários e esquecidos em apartamentos. Mas se dispôs a acompanha-lo desde a chegada e subida até a saída do prédio. Muito gentil.

 

Mas longe disso.

 

O comprador era um senhor de cabelos todos brancos. Magrinho. Sotaque arrastadinho. Chegou acompanhado pela esposa – uma senhorinha que ria de qualquer fala. O zelador até diminuiu o tamanho do esbugalhado dos olhos.

 

A senhorinha sentou-se na cadeira da salinha e olhou em volta. Comentou algo sobre como alguém consegue viver em tão pouco espaço e acrescentou - eu ficaria sufocada. Leticia ia abrir a boca – mas desconsiderou. Fechou de volta e por garantia ainda colocou os dedos sobre os lábios. Nada de vaidades feridas ou orgulhos desconsiderados. O caso ali era apenas uma venda de fogão. Não daria uma festa. Não os convidara para se hospedar. Nem muito menos estava vendendo nem um sequer dos cinquenta metros quadrados. Apenas se livraria de um intruso. O fogão.

 

Ao ver o marido com a ajuda do zelador carregando o fogão - a senhorinha esqueceu a metragem sufocante e sorriu. Levantou-se com um ar de alegria e alívio. Pareceu até rejuvenescer. Não imaginara que fosse um fogão tão novo – que maravilha. Bateu até palminhas toda feliz quando viu o fogão saindo do apartamentinho para seguir em direção à casa dela.

 

Leticia se controlou para não fazer o mesmo – bater as palminhas – pelo mesmo motivo da senhorinha. Poderia não ser bem compreendida e obstaculizar a compra e venda. Já resistira à observação de arquitetura pneumológica da sorridente senhorinha – não seria agora que iria arriscar algum tropeço por conta de umas palmas fora de propósito.

 

O marido deixou um pouco o fogão no hall do elevador e voltou para finalizar a compra. Enquanto separava o valor exato – comentou a aventura de saída de casa e chegada à cidade.

 

Explicou - vieram de uma cidadezinha do interior não muito distante e saíram cedo de casa. A estrada teve um acidente sem gravidade – mas que atrapalhou o fluxo de carros e o horário planejado. Pretendia ter chegado mais cedo. Desculpou-se. Mas estavam felizes pela compra. Moravam num sitio – quatro filhos e dez netos compartilhavam todos os finais de semana com eles. Tinham trinta e nove anos de casados. E compravam mais um fogão.

 

Leticia desta vez baniu Freud que já vinha de lá dando opiniões.

 

Enfim - com o fogão devidamente vendido – nada mais de preocupações com botijão de gás.

 

Quando eles saíram – tratou de organizar o espaço esvaziado. Ao contrário da senhorinha do sítio – achava que tinha espaço até de sobra. Já foi rápida colocando uma mesinha com uma linda toalha portuguesa. Não tinha mais volta – mas por via das dúvidas e sendo precavida - se voltassem apontaria a falta de lugar. A senhorinha sufocada por certo não só entenderia como fugiria buscando ar. Riu.

 

A modernidade e a praticidade seriam agora integrantes da nova vida. Viva a nova vida – pensou a Leticia sem uma só ruguinha de saudade do fogão. Até porque fora bem adotado. Ficaria reluzindo em chamas azuis por todo o dia. E o que não faltaria seria espaço nem pessoas. Seria como um membro da família.

 

Lembrava muito bem o quanto celebrara quando ele – o fogão - entrara porta adentro do último apartamento destituído. Quando o porteiro avisou da entrega - autorizou subir e já abriu a porta sorrindo. Daquela vez não temia assaltantes nem requisitou avaliador de personalidade. A própria empresa que entregou – fez no mesmo instante a ligação – com o encanamento.  Quando saíram – tudo funcionava. Ocupara um espaço adequado e perfumara as conversinhas de começo de noite com aromas deliciosos. Cumprira a finalidade por um tempo. Assunto encerrado.

 

Qual uma Filosofia oscilante pensou – naquele dia da entrega deixara o cantinho específico reluzente para receber o novo fogão. E agora neste dia da saída restava um cantinho especifico também reluzente para demonstrar a saída. A vida tem tanto vai e vem – que nem sempre se consegue acompanhar. Riu.

 

Ainda bem que não tinham encanamento de gás no prédio novo.

 

Estava diante da escolha e da vontade própria. Quando avisou sobre a venda o Roberto se preocupou. A Aline também. Você vai ficar triste – ambos disseram.

 

Não.

 

Cozinharia – sim - as comidinhas com os mil temperinhos que gostava. Teria uma dieta saudável e prazerosa. E - acima de tudo – pouco trabalhosa. Quase riu lembrando o perfil preguiçoso que definia um assaltante. Vai ver era agora assaltante do próprio prazer. Ou da infância - reencontrada no horário de dormir.

 

Estava mesmo era feliz com a decisão e cumprimento da decisão – livre de discussões teóricas ou práticas. Sem dialética de convencimento nem retórica de aconselhamento.

 

Apenas o ato pelo fato.

 

Cozinharia em placa de indução – que já comprara enquanto aguardava a saída do já inútil órfão. Já constava como itens - desde que mudara - uma panela de arroz e um micro-ondas. Perfeito. Na feirinha do bairro uma senhora sorridente e de mãos magras - vendia já tudo picado e higienizado. Era só selecionar o que faria durante a semana e nada mais de tanto lavar e secar.

 

Sorriu de novo. Até se abraçou. Obviamente sabia que o mais importante na realidade não era a venda nem o caninho ausente. O mais importante é que agira. O verbo agir mudava de tom. Não aceitara nem desistira. Não rebelara nem ofendera. Não omitira nem resignara. Não temera nem calara. Só agira de acordo com a própria vontade.

 

E se tinha que ver com o fogão e com a falta do tal caninho - também tinha que ver com ela.

 

Sem falar que estava muito feliz por não ter que ensaboar conexão de botijão nem se imaginar voando pelos ares num torpedo gaseificado.

 

Cecilia e Roberto – sempre atentos já foram presenteando com panelas especiais para micro-ondas. Aline e Renato com as adequadas para a placa de indução.

 

A Lilian que gostava de relatos leves - ao saber toda a história na realidade e na seriedade - achou meio sem graça. Até descartou a possibilidade de ter falado uma frase que a Leticia atribuiu a ela. Não lembrava ter feito algum comentário sobre cozinha ser conceito e não objeto. Mas vai ver falara e não lembrava. Mas tinha certeza absoluta de que não a assustara com corpos mortos nem com assaltos em ambientes de pouca metragem. Justo ela que só gostava de relatos leves – jamais faria parte integrante de grupos de leitores da Seção Policial. Estava certa a Lilian. A Memória que pode até falhar numa frase pronunciada – mas nunca erra dentro dos próprios valores. Estivesse a Leticia com uma tacinha – brindaria em direção à Lilian.

 

Esta foi uma das vezes que errara ao falar por impulso as primeiras asneiras que surgiram na cabeça – deixando de lado a ajuda do tal pêndulo imaginário que tanto utilizava.

 

Enfim.

 

Leticia deitou-se naquela noite pensando na nova decoração da cozinha.

 

Com a falta de paredes e a composição métrica do apartamentinho – da cama olhava para o espaço reaproveitado. As cores da toalha sobre a

mesinha davam um toque a mais de alegria ao antes não festejado. Observava não só o que ocupara o lugar – mas o que definira o Lugar.

Com a vida profissional em escala crescente e com a nova fase de vida em escala independente – pensava sobre as diferenças – ou as sutis semelhanças - entre inovar e renovar.

 

Os braços percorreram a cama. Dormiu.

 

Um tempo depois ao acordar pela manhã – vai lá saber porque - lembrou-se do episódio do fogão. Sentada diante do balcão sorriu enquanto tomava o café da manhã com calma. Da outra ponta as plantinhas balançavam com o ventinho que entrava pela janela.

 

Sorriu por uma lembrança. Num dia de folga convidou uma amiga para almoçar em casa. Organizou a mesa. Escolheu a toalha. Fez um serviço impecável. O cardápio adequado.

 

A amiga entrou e conversavam enquanto Leticia colocava as comidinhas no balcão para que se servissem. Ela – a amiga - olhou para a cozinha e fez aquela expressão quase infantil de quem busca. Não encontrando o objeto da busca - perguntou onde ela escondera o fogão.

 

Leticia explicou sem muitos pormenores a decisão – e os motivos da decisão. A amiga surpresa comentou – nunca conheci alguém que tivesse dispensado o fogão da cozinha. Ele tem razão em ter desistido de investir na relação. Riram.

 

Acrescentou outro verbete ao já existente é meu todo meu. Acrescentou - eu posso. Mais um pouco e teria usado o spray que o Roberto dera para ela pichar a parede como dona absoluta dela.

 

Quando deu por encerrada a rotina dispensou as lembranças e saiu.

 

 

publicado por Lêda Rezende às 23:31

Janeiro 06 2012

 

V

 

 

Com a tal retrospectiva da compra da Televisão – Leticia se viu quase refém de uma sequência de outras retrospectivas involuntárias.

 

Neste dia de volta do trabalho - sentou no Fouton que ficava na sala e de frente para a estante que finalmente arrumara.

 

Obviamente a estante não estava como planejara – porém melhor ordenada do que logo depois que se mudara. Os livros - ao menos - obedeciam uma ordem de linhagem. Vai lá saber que ordem é esta – mas assim denominava cada vez que repensava em retomar a reorganização. E com tanto - re – deixava mesmo era como estava. Havia uma lógica particular e ela saberia onde encontrar o que precisasse. Já era o suficiente. O excesso de metodologia tiraria a sensação de posse e pareceria que visitava uma Biblioteca fria e calculista. Haja desculpa sem nexo – riu um dia enquanto buscava um livro e não encontrava.

 

Nem ligou a Televisão.

 

Para não fugir completamente à rotina – cuidou um pouco das plantinhas antes de sentar. Notou que uma delas estava com as folhinhas tristinhas e colocou mais água. Com os dias quentes – quentíssimos e o ar seco – sequíssimo – as plantinhas sofriam com a falta de umidade em volta delas. Lembrava com frequência de uma amiga querida – Glória - que dizia achar criminoso deixar uma planta morrer de sede – já que não podia ir pegar a água sozinha. Nesse período que a amiga dizia isso ela – a Leticia – nem dava atenção às plantinhas. Mas nunca esqueceu a frase. E agora a utilizava quase como uma Lei.

 

Tocou de leve os dedos nas folhas e depois nos cabelos. Balançou a cabeça de forma positiva. Da Memória nada escapa – é só uma questão de oportunidade – e a oportunidade vem mais dia menos dia. Nada é desconsiderado nem escutado à toa. Quando algo é escutado – é porque já está registrado e em algum instante será utilizado. Qual um destino. Pelos sentidos entram – filtrados - o que depois será buscado. Agora sabia. Na época não.

 

Circulou pelos cinquenta metros quadrados. Parabenizou mais uma vez a Fadinha por ser tão delicadamente organizada. Encerrou as atividades profissionais do dia também de forma simbólica ao dispensar a roupa formal e sorrir para uma chuveirada de água quase fria.

 

E lá se foi ficar sentadinha no Fouton - sem nem bem compreender porque o fizera já que depois das rotinas sempre ia para a cama. Mas a retrospectiva veio se aconchegar como se estivesse apenas querendo um colinho. Recostada no Fouton – teve uma sensação de viajar no tempo ou de estar sonâmbula. Sozinha - se deixou levar.

 

Entretanto - mesmo a disponibilidade solitária tem os próprios limites. A retrospectiva foi seletiva – nada de lembranças que a magoassem. Sempre alertava aos navegantes que final de dia é momento de alegria. Mas também dizia o mesmo sobre o começo do dia.

 

Estava cuidando com mais dedicação do próprio humor para que não se desgastasse com o que não poderia ser mudado. Deixava sempre um arquivo estocado no ”Temporário”. Riu ao concluir assim. Vai ver este o motivo de tantos recentes elogios pela expressão dela. Até uma mocinha da loja que ela começara a frequentar depois da mudança comentou – se tem algo que admiro em você é que todas as vezes que vem aqui tem uma expressão de alegria. Tem boa energia em volta.

 

Gostou de escutar.

 

Olhou para a cozinha. Para o balcão com a toalha de renda branca e os utensílios de uso repetido ao alcance da mão. Ali fora o primeiro local onde todos se acomodaram diante da falta absoluta de espaço – os cinquenta metros quadrados mal cabiam as tantas e tantas caixas.

 

As últimas caixas entraram. A porta foi fechada. Os pulinhos com Cecilia e Roberto. As risadinhas. O pipocar de um champagne que Aline e Lilian junto com o Renato levaram até lá. As tacinhas – nem lembrava como arrumaram as tacinhas. Lembrou. Sem tacinhas. Champagne francês em copinho descartável. Daria uma reprimenda a nível internacional caso fosse exposta a cena. Mas não tinha jeito - era assim ou assim. E brindaram em copos descartáveis todo o francês das bolhinhas.

 

Feitos os brindes e celebrada a euforia olharam em volta. Cada um buscou uma posição estratégica e entre o amontoado de caixas – começaram a separar o que já poderia ser aberto. E nisso incluía a caixa de tacinhas para evitar serem transformadas em caquinhos.

 

O difícil era selecionar as caixas em meio a tantas pilhas de caixas encostadas na única parede e resvalando pelo piso.

 

Naquele dia entendeu a palavra Caos e todo o significado. Lembrou a Mitologia Grega. Há uma versão que diz que Caos é um filho de Cronos e irmão de Éter. Até se sentou melhor no Fouton.

 

Não faltaram risos – um auxílio de comicidade para empurrar um pouco a tristeza. Afinal – a mudança fora em decorrência de um desacerto nos planos de futuro. Todos ali dentro dos cinquenta metros quadrados – centímetro por centímetro - se empenhavam em ajudá-la a superar. A continuar. A entender o que a avó repetia – o que não tem remédio remediado está.  

 

Quando organizou as caixas para a mudança - tivera todo um cuidado em escrever em papel branco e prender com fita adesiva o conteúdo delas. Depois de tantas mudanças – poderia até ser orientadora metodológica de alguma Transportadora. Tudo bem – não tanto. Foi o que reconsiderou quando passou rapidamente os olhos pela estante. Mas os itens descritivos nas caixas lacradas estavam todos lá. Facilitava e muito saber o que se abriria e onde se colocaria o tal conteúdo.

 

Ai sim – as risadas foram soltas.

 

Cecilia pegou a primeira caixa e nem conseguia abrir – só ria. Os cabelos até caiam para trás. Avisou – aqui tem uma caixa enorme escrito – tirinhas de cabelo. Tirinhas de cabelo. Como alguém tem tantas tirinhas de cabelo. E o coro de risos se seguia melhor do que se tivessem um Maestro regendo.

 

Aline alertou – aqui tem outra mais interessante. Está escrito – roupas desnecessárias. Esta provocou até engasgos de tantos risos.

 

Renato olhou para uma outra caixa e entregou a Aline. Esta é melhor você abrir. Prefiro evitar ter uma consulta de Psicanálise de urgência. Está escrito – roupas íntimas de malhação. Nunca soube que ela malhava e muito menos que tinha roupas intimas para malhar. Todos riram novamente.

 

E de riso em riso e caixa em caixa – a tarde se foi.

 

Durante duas semanas a rotina fora abrir caixa. Lilian – a amiga querida de muitos anos viera por uma bela causa para passar três meses no país – já acordava com tarefas agendadas.

 

Leticia saia cedo para trabalhar e Lilian chegava para tentar dar alguma organização ao Caos. Vai ver dispensá-lo e convocar o Éter. Só mesmo um ato volátil para conseguir dar um – acabou – em tanto que se oferecia ao trabalho. Foi assim durante semanas. Até o domingo que o Luciano viera munido de músculos fortes e boa vontade intensa e as caixas desapareceram por completo. O Éter aconteceu. E o Cronos se satisfez.

 

Começou a etapa da decoração.

 

Todos os dias móveis eram levantados e mudados de lugar. Lilian e Leticia já até se divertiam. Os braços – sempre os braços – nem entendia como esquecera eles até o dia do pesadelo – lá estavam em brava serventia.

 

Quando tudo parecia adequado – nada. Era trocado novamente. Um dia o Roberto comentou - vocês duas vão ficar doentes da coluna – o que mais fazem dentro destes poucos metros é carregar moveis de um lado para outro. Desta vez elas riram. Quando ele comentou foi durante uma visita – e já iam pedir a ajuda dele quando o comentário veio e as duas – sincrônicas – calaram. E riram em códigos duplicados. Fingiram de assunto encerrado e quando ele saiu – lá se foram carregar os móveis e trocar de posição.

 

Sem falar na tarde que os tapetes chegaram da lavanderia. Este – sim. Foi o Dia Mundial de Carregar Peso. Os tapetes – dois – seriam um da sala e outro do quarto. Enormes. Leticia descobriu que ela própria precisava retomar a análise. Deu até saudade do Ronaldo – mas ele agora morava longe. Muito longe. Tinha mania de grandeza. Não o Ronaldo. Ela – a Leticia.

Os tapetes cobririam quase todo o piso que o senhor Elson – Evesio – Everdson havia tão artisticamente colocado.

 

Abrir e estirar o da sala fora fácil. Não tinha tantos objetos para levantar. Uma erguidinha de pé de cadeira ou de mesinha e lá estava o tapete lindo cobrindo e colorindo toda a sala com sua imensa metragem. Desta vez não foram polegadas. Repetiram-se os metros quadrados. Olhavam encantadas. E – por certo – tentavam gastar um tempo sem finalidade para evitar o passo seguinte difícil. Vai ver foi neste instante que a Leticia aprendeu este consumo de tempo para ganhar tempo fazendo nada. Não tão simples – mas assim.

 

A questão era o do quarto.

 

Ficaria sob a pesada cama de cabeceira de ferro trabalhado. Tinha que erguer a cama e estirar o tapete. E tudo isso sem espaço para movimentação. E contavam apenas com os braços delas. E mais um pormenor – teria que ser com muito cuidado. Barulho no apartamentinho era permitido até as cinco horas da tarde. Eram seis horas. Nada de arrastar daqui para ali. Não importava se o percurso era curto. Importava que o silêncio fosse longo.

 

Lilian – prática – foi logo desarmando a cama. Mesinhas de cabeceira abraçadas - foram parar na sala. Abajur desmontado. Enfeites colocados em segurança no cantinho da cozinha. Tudo com passinhos suaves.

Quatro braços a serviço da decoração. Qual uma devoção. Fé e função. Riram.

Quando finalmente conseguiram desmontar- estirar o tapete – definir a equalização – montar – repor objetos e móveis no lugar certo - não estavam só com os braços caídos. Pernas e fôlegos pareciam ter viajado para outra dimensão. Fosse depois da Televisão nova e saberiam em qual dimensão teriam ido parar.

 

Surpresa mesmo foi um tempo depois. A Lilian já havia voltado para o país onde morava. Quando soube que a Leticia havia carregado a enorme caixa da Televisão – reclamou. Você ficou maluca – carregar um peso daqueles. Leticia lamentou a distância geográfica. Estivesse perto da Lilian ofereceria a ela um espelho. Riu.

 

Passou a mão no Fouton. Desta vez riu alto. Respirou aliviada por saber que ninguém a observava. Teve o dia do Fouton.

 

Uma amiga também distante viria para visitar a Leticia e seria confortável recebê-la em casa. Nada de ficar em Hotel. Ficaria muito feliz de poderem passar a noite conversando e rindo sem compromissos outros além da conversa e do riso. Eram amigas da tantos anos que era uma alegria renovada que a Leticia sentia cada vez que a Carolina vinha vê-la. Desde que anunciava a vinda – todo um novo estado de ânimo surgia na Leticia. Carolina tinha sido aluna dela num tempo que orientava grupos de Formação e de aluna a amiga – foi um caminho rápido e sólido.

 

O único detalhe – não tinha local para a amiga dormir.

 

Um pensamentozinho veio anexado. Lembrou a espreguiçadeira de praia. Trouxera com ela do terraço do apartamento deixado para trás. Adorava a espreguiçadeira e pouco usara. Colocou na sala ao lado da estante. Ficaria como um recuerdo. E quando quisesse ler ou escrever – recostaria nela. Perfeito. Cobriu com uma manta que trouxera de uma viagem ao hemisfério de cima. Achou pertinente. Tinha uma certeza – a Aline vai achar ótimo – ela não é convencional. A Cecilia vai discordar – ela é mais séria em termos de decoração. Eis as surpresas. A Cecilia achou ótimo e divertido. Aline criticou insistentemente e diariamente – está horrível uma espreguiçadeira de praia no meio da sala. Tanto falou que Leticia – cansada da repetição – lá um dia dispensou a tal espreguiçadeira. Assunto encerrado. Deu de ombros – mas ficou com um gostinho de antagonismo. Guardou o acontecimento no tal arquivo do “Temporário”. Afinal sabia – Aline não queria que ninguém criticasse o apartamentinho.

 

Dispensou o pensamentozinho anexado. Saiu da espreguiçadeira e voltou à dormida da amiga que viria. E veio.

 

Lembrava que as noites que antecederam a chegada da Carolina - acordara na madrugada pensando na quase impossível solução. Sofá cama não caberia nos cinquenta metros quadrados. Cama – nem pensar. No quarto só cabia mesmo a dela própria. Colchão em chão ela se recusava. Seria uma desatenção com uma amiga tão querida. Mesmo assim ainda saiu para procurar em lojas especialistas em mobiliário para acomodar amigos em visita. Riu. As opções eram maravilhosas. Belas. Elegantes. Confortáveis. Mas já seria o caso de chamar novamente o senhor Elson – Evesio – Everdson para derrubar desta vez a parede que dividia com o vizinho. Não pareceu em definitivo uma solução adequada.

Voltou para casa no final do dia apenas com o cansaço como testemunha. Nada de sofá cama. E a Carolina chegaria em três dias - já avisada e ordenada que esquecesse Hotel. Dormiria no apartamentinho novo e colocariam as novidades pessoais com o bom hábito - “in vino veritas”. Aceito e confirmado – perfeito.

 

Permanecia aquele único detalhe já referido – não tinha local para a amiga dormir.

 

Estava no trabalho no dia seguinte – sem a solução doméstica mas aguardando uma inspiração – quando o celular tocou. A inspiração viera – mas não diretamente para ela. Viera para Aline.

 

Aline contava – já sei onde sua amiga vai dormir. Passei numa loja aqui na esquina de casa. A loja está em promoção. Já entrei e deixei até reservado para que ninguém se adiante pelo preço baixo e você – caso concorde e queira comprar – não mais encontre.

Achei um Fouton. Já medimos – a Lilian e eu - e cabe em seu espaço. O tecido é lindo – bege. Quando voltar - vamos até lá para ver se você define positivamente.

 

Fouton comprado.

 

A entrega seria efetuada em cinco dias úteis. Leticia começou a achar um tempo depois que esta era um rotina que ela desconhecia. Tudo no mundo girava e acontecia – após cinco dias úteis.

 

Não se inquietaram. Lá se foi a Lilian com ela buscar o carro. Colocado o Fouton no carro – era somente subir duas quadras e já estaria a solução definitiva dentro de casa – na sala. E nada de derrubar parede de vizinho – riram as duas no caminho.

 

Entre imaginar e executar – a linha não é tão tênue quanto se pode acreditar. Nada disso. As duas teriam que retirar do carro – colocar no elevador – levar pelo corredor – e depositar na sala.

Leticia ia começar a rir quando a Lilian alertou – nada de rir. O riso diminui a força. Guardou esta informação para repensar em outro momento – mas considerou de imensa importância. Lá ia ela de novo – a Leticia – lidar com os imensos. Riu discretamente.

Depois de mais esforço braçal com o peso do Fouton elevador e corredor adentro e os móveis novamente carregados e relocados – o Fouton ganhou o espaço ideal. Agora a Carolina já tinha onde dormir. Ou conversar e rir.

 

Leticia passou as mãos no tecido do Fouton. Era realmente bonito. E um objeto novo numa casa nova. Este sim – a primeira compra oficial para o novo apartamentinho. O mais tinha sido adaptado – trouxera já de muitos anos e muitas casas. Sentiu uma pontinha de tristeza e lembrou a Lilian. Fez uma mudança – já que esta era a palavra mais comum atualmente - na frase dela. Nada de lágrimas – as lágrimas diminuem a força.

Gostou mais assim.

 

A Carolina viera. Dormira no tal Fouton. Beberam vinho e falaram o que quiseram.

 

Olhou para as cortinas. Sempre adorou cortinas e tapetes. Mais uma vez a Lilian resolveu quase que magicamente o desejo da Leticia. Foi um tal de pregar aros. Lavar as cortinas. Providenciar varão. Na parte do varão ela sorriu. Passaram dias e dias em busca de um varão com três metros e meio. Ainda tinha o tal meio. Nem lembrava mais quem dera esta medida da janela onde o varão seria fixado para receber as cortinas. Mas entenderam como corretas as medidas. Não faltaram lojinhas e lojas. Só tinham até três metros de comprimento. Até que um dia encontraram numa loja de material de construção. Comemoraram. Não foi fácil – mais uma vez - trazer no carro o varão.

Trouxeram. Subiram pela escada. Não cabia no elevador. Sete andares. Sete. E fazendo força para não rir para não ficar fraca.  

Foi impossível não rir no ato seguinte. O varão de três metros e meio que subira pelas escadas com toda a seriedade requisitada – era maior do que o espaço da janela. Teria que ser trocado por outro de três metros. O meio metro que sobrava já ameaçava de novo a casa do vizinho.

Não trocaram. Serraram. Uma serrinha de metal foi apresentada e utilizada. Desta vez riram. Com força ou sem força – era impossível não ceder ao riso. Desta vez não era a rotina ou a medicação. Desta vez era o riso ou a medicação. Riram.

 

E lá estavam as cortinas lindas – penduradinhas. Olhou com um carinho quase parental.

 

A vida em paralelo continuava. O trabalho. A rotina de atendimentos. Os horários continuavam - mais cedo do que o desejado para acordar. Ainda brincava de Fadinha. As plantas estavam crescendo verdes e perfumadas.  Não havia um só dia que algo de dentro dos tais cinquenta metros não fosse movido ou alterado.

 

No dia da finalização da compra com a viúva temerosa fez um comentário com o Roberto. Este agora é todo meu. Posso até pichar as paredes se eu quiser. É todo meu.

 

Ainda não tinha combinado a derrubada de paredes e portas com o senhor Elson – Evesio – Everdson. Na manhã de um domingo que fora até lá para decidir que tipo de reforma faria – o Roberto foi encontrar com ela. Levou um presente. Um spray dourado para pichar as paredes o quanto quisesse. Adorou. Muito. Sempre seria grata a ele por este presente aparentemente lúdico – mas de importância quase visceral.

 

A mesma gratidão lúdica que tinha com a Aline. Quando toda a reforma foi acertada e combinada - uma caçamba se fazia necessária. Tijolos não somem no ar. Não existem na Mitologia Grega nem são parceiros do Éter. São retirados e levados materialmente para o mundo dos entulhos. A Aline sabedora das dificuldades de horário da Leticia foi logo avisando – deixa que eu resolvo. E resolveu. No dia que precisava ser retirado os tijolos desmembrados e as portas desqualificadas – lá estava em frente ao prédio A Caçamba. E Aline tirou uma foto e enviou para a Leticia que trabalhava do outro lado da cidade. Foi a foto e um recadinho – eis a sua caçamba. A mais linda do bairro. Sorriu.

 

Até o Renato que tinha horários tão difíceis quanto os dela – se dispôs a dar o nome e autorização numa lojinha de material de construção próximo do apartamentinho – para que nada pudesse ser motivo de atraso na entrega.

 

Luciano a levara para as compras de pisos e cimentos. Ambos lidavam com o doloroso da situação com tristeza – mas sem mágoas. Este era o viés por onde se entendiam a partir da mudança. E tristeza não se desvincula dos afetos. Não é preciso afeto desvinculado para se dissolver o que não está em Estado de Prazer. Muito pelo contrário. Para se dissolver o que não está em Estado de Prazer – é preciso muito afeto vinculado. Este também um aprendizado recente como o das plantinhas.

 

E uma espera em especial se fazia no dia a dia. Em meio a tanto prefácio e posfácio Leticia ia entremeando o novo texto. Inaugural. Seria avó. Todos aguardavam o nascimento da Riana.

 

Lilian viera para aguardar e Álvaro viera depois. Coitado. Também mal aterrissou e lá se foi recebendo uma maleta de ferramentas. Quadros e luminárias precisavam ser expostos.

 

Mas enfim cada coisa já parecia ocupar o espaço certo. E ela fazia disso um percurso também pessoal - começava a se sentir pertencendo àquele Lugar. Os cinquenta metros quadrados cabiam muito mais do que poderia imaginar qualquer engenheiro ou arquiteto com suas réguas e calculadoras.

 

Cada um mora dentro de uma metragem especial. Como na Televisão de terceira dimensão. Agora a medida era outra – e a Vida começava a se entender com a Leticia mais do que se desentender. E a Leticia começava a compreender a Vida muito mais do que simplesmente a justificar.

 

Antes de levantar do tal Fouton e deitar no horário infantil – Leticia lembrou o amigo americano que viera visitá-la vinte e seis anos depois que se despediram. Aliás – de repente todos pareciam querer visitá-la. Mas pensaria sobre isso depois. Em meio às conversas com o Paul - ela perguntou a ele se ele a estava achando egoísta. Ele respondeu com seriedade. Há uma diferença entre ser egoísta e estar independente. Você está independente. Go on.

 

Levantou e foi dormir. Amanhã tinha a Fadinha já cedo.

publicado por Lêda Rezende às 20:15

Janeiro 02 2012

 

                                                                              IV

 

 

Numa noite em que arrumava a estante e bem no estilo impetuoso - Leticia tomou a decisão.

 

Estava ordenando os muitos livros por título e por autor. Desde que mudara – planejava. Mas neste dia colocou o plano em execução. Tivesse um organograma – agora este item seria riscado. Mas claro que não tinha. Leticia e um organograma eram mais distantes que fantasias e ilusões em pessoas idosas.

 

O ambiente estava em silêncio. Só o arrastar das capas dos livros nas prateleiras da estante fazia uma musicalidade de arranjo de orquestra. Umas mais fortes. Outras mais fracas – tudo dependia do peso do volume a ser ordenado. E sem analogias – o peso pelo peso.

 

Nunca fora muito interessada em Televisão – mas neste instante se interessara. Sim. Vai lá saber o porque mas quando colocou um dos livros na prateleira pensou objetivamente – vou comprar uma Televisão. Até foi verificar o título e o autor para ver se justificavam a súbita necessidade - mas nem o título nem o autor continham algo que a tivesse induzido a esta vontade repentina. Enfim. Coisas do inconsciente. Aceitou. E continuou planejando e arrumando os livros. Agora com mais pressa e - portanto - com menos Metodologia. Eis de novo mais um aspecto estrutural da Leticia. A desconcentração imediata.

 

A cada intenção de decoração – parava com os livros e ia se postar em frente ao suposto local do novo objeto. Já estava com os pensamentos fora da estante.

 

Mas enfim. Compraria uma nova Televisão com tudo que tinha de atual. E grande. Enorme. Caberia sobre a cômoda e ficaria de frente para a cama. Não. Colocaria pendurada na parede da sala. Seria mais democrático e não ocuparia espaço. Não. Melhor deixar sobre a cômoda – sem pendurar. Evitaria a imobilidade.

 

Atualmente a Leticia estava com um novo olhar sobre o que não podia ser movido. Desde que destituíra paredes e portas – tudo passara a ter um novo conceito dentro de casa. E dentro dela. Ficara grata à noite de insônia que a fez compreender o que realmente dispensara além de tijolos e madeira. Numa outra noite também de insônia – pensou sobre a retirada das paredes como consequência e não como causa. Naquela noite o sono voltou mais rápido.

 

Enquanto escolhia com mais pressa a ordem dos livros e já desistindo de continuar com a outra estante – pensou nos filmes. Poderia assistir a todos os filmes que gostava. Tinha uma coleção de filmes antigos que o Luciano lhe dera num aniversário – mas poucos deles ela assistira. Apenas um ou outro num dia que não trabalhou por doença ou folga extra e ficara sozinha. Somente ela gostava dos tais filmes antigos – o que significava que não os assistia. Agora iria por em dia todo o presente. E olhando para as caixinhas dos filmes – sorriu pelo pleonasmo da metáfora.

 

Lá ficaram os livros do jeito que estavam. Foi cuidar dos filmes.

 

Organizou as caixinhas. Colocou por ordem de preferência. Separou os fios do aparelho de DVD. Até paninho de limpeza passou nas capas. Um carinho só. Riu de novo. Estava rica em metáforas. Ou as metáforas ricas dela.

 

Com a divisão de alguns objetos na organização da Transportadora – a Televisão do quarto de cima já fora direto para o lado de caixas do Luciano. Era dele. Podia levar. E ele levou. Ficara para ela uma antiga – mas como não se interessava por Televisão – deu de ombros e deu de presente à mocinha da Portaria do novo prédio.

 

Como os dias estavam tão cansativos ao retornar do trabalho – cumprimentava plantinhas e elogiava a Fadinha – e dormia cedo. Na maioria das vezes não jantava. Um copo de leite e uma torrada qualquer – e estava encerrado o assunto. Quando agia assim lembrava-se do Álvaro.

 

Quando alguém reclamava e apontava que ele não deveria pular refeição alguma – ele ia saindo e avisando – já comi demais no século passado. Sábio amigo.

 

Mas o novo horário de sono – este realmente era novo. Em período algum da vida dormira tão cedo. Vai ver que talvez quando criança. E mesmo assim sob o comando da mãe brigando e a obrigando a ir para a cama. Ia zangada e torcendo para que o tempo voasse junto com a infância submissa. Agora estava na contramão do pedido. A infância submissa se fora – e ela ia dormir cedo. Um dia até comentou para um amigo – nem adiantou crescer já que tenho que dormir cedo. Ele riu.

 

Ao deitar - abria um livro – e durante muitas noites seguintes tinha a sensação de dejà vu. Estava sempre na mesma página. O ritmo profissional era intenso. Somava a mudança e todo o envolvimento emocional que a mudança causara e só restava mesmo ler todas as noites a página número um. Acordava no meio da noite – e lá estava o coitado do autor desprezado num canto da cama sob a luz acesa da mesinha de cabeceira. Ao se olhar via um certo desalinho no estilo de dormir. Mas sem muita perda de tempo - recolhia o livro e já dormia. Parecia que estava recuperando um cansaço ancestral. Quem sabe estava mesmo.

 

Mesmo possuída pelo tal cansaço ancestral - nunca deixara de organizar a roupa do dia seguinte ou o café da manhã já ficar em ponto de ser aquecido. Havia rotinas e precauções que não poderiam ser descuidadas. E acrescentava uma boa noite para as plantinhas e um pouco de água na terrinha para que a noite delas também fosse confortável.

 

E – lógico – cuidava de fechar janelas e cortinas. Nada mais de engatinhar. Ou de ficar atrás do balcão temendo tournée de barata. Agora já era a etapa de andar e resolver. Ao menos assim acreditava ou tentava acreditar.

 

Já estava numa fase que aprendera – nem tudo é matemático e nem tudo é transformado em saber. A parte que sobra de muitas somas sempre se perde num cantinho qualquer do traço. E muito saber fica por aí – sabe-se lá onde – desaproveitado porque não conseguimos alcançar.

 

Deu por encerradas as tarefas da noite. Com a manhã do amanhã em ordem – dormiu pensando na Televisão nova.

Acordou no horário de sempre – cedo. Mas desta vez nem reclamou com o espelho – a nova compra a deixara mais animada. Organizou todo o apartamentinho antes de sair. Certa da atitude na sequência - deixou um espaço aberto para a Televisão nova. Quem sabe poderiam ter alguma disponível na loja e entregariam no ato da compra.

 

Já saiu para o trabalho com todo o roteiro feito. Voltou do trabalho direto para o shopping – encontrou a que queria.

 

Tela enorme. Maior do que os cinquenta metros quadrados. Riu com o vendedor que nada entendeu com este comentário dela meio entre os dentes. E ainda era um daqueles aparelhos novos de terceira dimensão. Tudo de maravilhoso. Deixaria em cima da cômoda. De frente para a cama. E se sentiria dormindo em meio ao mundo real. Riu. De real o mundo tem nada. O vendedor escutou e mais uma vez não entendeu. Mas ciente de que ela estava decidida na compra – dizia sim a tudo. Entender é para quem compra – não para quem vende. O verbo vender dispensa entendimentos. Só lê números. Procede. Cada um com seu quadrado. Riu mas desta vez discreta e consigo mesma. Cansara da expressão de concordância surda do tal vendedor.

 

Tudo acertado. Dados. Pagamentos. Endereço de entrega. Impossível a entrega ainda hoje. Receberia num prazo de cinco dias úteis - após a finalização da compra. Que deixasse a portaria avisada – ou voltariam com o produto e demoraria mais cinco dias úteis para repetir a entrega.

 

Pensou – autoritário este vendedor. Nem terminou o pensamento e ele foi avisando – ordens da Empresa – desculpe – mas tenho que seguir e informar.

 

Que seja feita a santa vontade da Empresa. Agradeceu e saiu.

 

E cuidou de esperar que a utilidade - dos dias – passasse apressada.

 

Numa sexta feira – obviamente exausta - chegou de volta em casa. O porteiro sorriu para ela e avisou - tem uma encomenda para a senhora. Está atrás da coluna – é grande e bem pesada.

 

O grande até ela já concluíra desde a decisão até a finalização do processo. A questão foi o tal – bem pesada.

 

Mais uma vez os braços avisaram – estava sozinha. Até olhou para eles – os braços – e calculou o valor dos músculos e das articulações.

Olhando assim – não pareciam grande coisa. Grande mesmo só a televisão numa imensa caixa bege.

 

O porteiro olhou para ela – e ela jurava que ele também olhara para os braços dela. Mas devia ser uma impressão fruto de algum Complexo de Inferioridade mal curado. Ela mesma já olhara o suficiente. Mas não pode deixar de perceber que ele estava com um risinho de canto de lábio – quando falou sobre o peso.

 

Leticia formalizou - eu comprei - eu resolvo. Subirei com a minha Televisão de terceira dimensão. E põe dimensão nisso – outra conclusão invasiva.

 

Avisou ao porteiro – desço já.

 

Subiu. Colocou bolsa e material de trabalho na bancada. Organizou mais uma vez o espaço escolhido para colocar a Televisão. Até passou um paninho com o álcool que sobrara da noite da barata. Olhou mais uma vez para os braços – e quase imponente - desceu.

 

O porteiro ficou observando. Ela deu um abraço na caixa. E respirou fundo. E semi-abraçada a ergueu e a caixa obedeceu. Ficou erguida por entre os braços dela. Quase um momento amoroso. A Leticia caminhou em direção ao elevador. Palavra correta e adequada. Eleva-dor. Pensou isso enquanto – carregada de orgulho próprio fingia descontração aos olhos do porteiro.

 

Enfim. Deu os passos necessários. Talvez não os necessários – mas os possíveis. Dois passos. Todo aquele esforço rendera dois mínimos passos. E a Televisão dentro da caixa de cor bege – escorrera solene – dela até o chão. Mas de pé. Nada de cair deitada. Uma elegância tem sempre que ser requisitada.  Depois de dois ou três passinhos com parada – chegou finalmente diante da porta do elevador. Apertou o botão do eleva-dor abraçada à caixa. Ou tentando fazer com que aquele gestual fosse mesmo um abraço. Lá estava ela carregando um peso por certo maior do que o dela própria. Os braços apontadores de faltas e perdas pagavam o preço da denúncia não solicitada. Já estava se sentindo quase uma esquizofrênica. Conversava com Televisão e discutia punição com os braços. 

 

O elevador chegou. Ela abraçou de novo a caixa – e conseguiu. Conseguiu entrar e apertar o número do andar onde desceria. Ficou orgulhosa – até fez uma carícia nos braços.

 

Nova batalha até dentro do apartamentinho – e a guerra foi finalmente vencida. Ao menos a parte do front. Faltava agora a parte das trincheiras – ou seja – colocar em funcionamento em cima da cômoda que escolhera como lugar possível e conveniente.

 

Encostou a caixa na parede. Ainda bem que sobrara alguma – mesmo sendo a divisória do apartamento vizinho. Cuidou para que a caixa não escorregasse e se sentou no sofá com os braços caídos qual uma pintura de retirante. Diziam os entendidos em dores que a dor muscular surge apenas algumas horas depois do exercício intenso. Contrariou a assertiva. A dor muscular que sentiu dos ombros até os dedos a fez saber e lembrar todos os feixes musculares que compõem a anatomia. Ao menos a dela. E nela. Nada de horas. Foi apoiando a caixa na parede e a dor foi se instalando nos braços. Eis uma rapidez de dar inveja.

 

Lá estava a caixa ocupando a metade da sala – o que é compreensível sabendo-se das dimensões internas da habitação - e ela com os braços caídos tentando se ajustar à ideia da compra. Quase se recriminou por não atender as opiniões carregadas de logística do Roberto. Quando contou a ideia que tivera a ele no trajeto para a compra ele foi objetivo - aquelas polegadas desejadas eram bem maiores que o espaço ao qual supostamente pertenceriam. Lembrava que ele fizera um chiste – põe de frente para a janela que os vizinhos vão pensar – da varanda deles – que estão num cinema. E riram. Ambos.  Agora não sentiu vontade de rir.

 

Mas deixou as trincheiras para outro momento. Foi prática – se até agora fiquei sem televisão mais uma noite não faz mal algum. E diante da caixa fez um aceno de despedida e falou sorrindo – até qualquer momento.

 

Mas em algum momento o qualquer momento chega. Nova onda filosófica a invadiu. E concordou. Era já chegado o momento. Afinal estava realmente ridículo e desconfortável ficar pulando a caixa encostada na parede já há cinco dias. Até riu quando fez as contas. Mais novos cinco dias úteis – inúteis.

 

Criou um espaço no tapete da sala – afastou as cadeirinhas dos séculos passados e deitou no tapete a tecnologia do século bem atual.

 

Com um estilete cortou as defesas da caixa. Com fingida calma e sincera vontade de ganhar tempo – mesmo sabendo que faria diferença alguma no contexto este ganho de tempo - foi primeiro jogando num saquinho todas aquelas fitas adesivas que dariam para envolver qualquer araucária gigante. Eram metros e metros de fita adesiva. Mas foi retirando e finalmente – a caixa estava liberta.

 

Abriu. Olhou para dentro dela como se fosse um conteúdo surpresa. Olhou sentadinha do lado da caixa e verificou o que dela – da caixa - seria retirado em ordem de prioridade. Tinha uma enorme e preta base e um cilindro transparente. Entendeu – porém não muito rápido. Mais um pedacinho daquele tempo que jurava estar ganhando foi consumido. O cilindro se acoplaria à base e a base assim composta aguardaria o encaixe da tela. Nada mais elementar. Brincadeira de criança – ela pensou. Retirou a tal base. Pesada. Muito. Colocou na cômoda que havia limpado. Acoplou o pequeno cilindro – enfim algo leve - e voltou em direção à caixa.

 

Tentou – verbo correto – retirar a tela. Estava envolvida por uma fina camada de papel endurecido e folhas finas de um material que lembrava um isopor. Algo bem moderno – pensou. Digno de terceira dimensão. Sorriu. Do que não sabia – mas sorriu.

 

E lá se foi a Leticia e os braços retirar de dentro da caixa a tela. Puxou duas ou três vezes. Já quase esquizofrênica – começou a discutir com os braços. Lembrou até das sessões de Análise com o Ronaldo. Quantas horas foram remuneradas a ele sob o assunto de força e de braços. Sem falar no que rendera o dia que ficara com as duas mãos grudadas e ele a perguntar os motivos dela estar com as mãos grudadas. A pergunta era – o que fazia ela de mãos dadas consigo própria.

 

Recordou o quanto era tranquila naquela época. Deu saudade imediata. Fosse agora e o Ronaldo iria preferir as mãos grudadas do que soltas na bochecha dele. Riu. Riu como habitual – com a baixa de oxigênio cerebral. Mas não deixa de ser um riso. Coitado do Ronaldo. Tinha o cabelo comprido e preso em rabo de cavalo. Por certo ia ficar descabelado depois que ela desgrudasse as mãos e grudasse na bochecha dele. Riu de novo.

 

Entendeu. Estava tentando ganhar aquele tempo. Até o Ronaldo – coitado – fora espancado.

 

Mas a tela continuava no mesmo lugar. De diferente só a base solitária com o cilindro em cima da cômoda. Inúteis mas já postados.

 

A memória foi-se sofisticando. Lembrou as telas do Jeronimus Bosch. Nunca ele vira uma televisão – nem de uma dimensão quanto mais de três – e compunha telas tão ricamente povoadas. Imagens e distorções de imagens – como uma quarta dimensão da alma humana.

 

Lá estava de novo tentando ganhar tempo. Mas perdoou a Memória - eis uma aliada solidária e amigável. Ultimamente estava bem amiga da Memória e das lembranças.

 

Recostou-se na cama diante da cômoda. Olhou os objetos que colocara. Refez o caminho até ali. Não da vida dela – seria gastar tempo demais sem finalidade alguma. Pensou no percurso da compra – mas dispensou o vendedor. Comprara a Televisão que desejara. Escolhera o tamanho e a modernidade tecnológica. Desobedecera conselhos. Separara um local adequado e até higienizara o tal local. Subira com ela até o apartamento qual uma música nordestina – entre abraços e escorregos. Encostara à parede divisória. Aguardara mais cinco dias. Retirara a base e o cilindro. Colocara na tal cômoda higienizada.

 

Não seria justo ceder a um pensamentozinho safado que se enfiava por entre a retrospectiva. Um anúncio na Internet – vendo televisão com muitas polegadas e muitas dimensões pela bagatela da metade do custo e ainda na caixa. O comprador terá que retirar no local.

 

Em absoluto.

 

Voltou para a frase já conquistada mudando apenas a conjugação. É minha. Toda minha.

 

Levantou-se da cama. Sacudiu braços e mãos. Quase acenou um pedido de desculpas ao Ronaldo descabelado e esbofeteado. Fez uma reverência ao Bosch. Foi no espelho – quase deu um grito de susto – estava mais descabelada que o coitado do Ronaldo teria ficado. Nos dedos ainda sentia o pegajoso da cola das fitas adesivas. A pele do rosto em total descompasso com a temperatura ambiente – suada sob um frio de quinze graus.

 

Aprendeu rápido.

 

Melhorou a aparência – prendeu os cabelos - acalmou a pele do rosto. Interfonou para a Portaria do prédio e solicitou a presença do Zelador. O senhor Romildo subiria em vinte minutos.

 

E lá chegou o senhor Romildo. Simpático. Atencioso. Sorridente. Disponível. Escutou a explicação e a demanda anexada. Olhou para a caixa deitada no tapete. Passou um rápido olhar no saquinho das fitas adesivas. Caminhou até o local onde seria colocada a tela. Olhou para Leticia.

Imagino como foi difícil carregar este peso – deveria ter me pedido. Por certo é magrinha - porém forte. Parabéns. Mas vamos lá. Deixa colocar aqui em cima do cilindro. Que bela Televisão. Enorme. Quase maior do que o apartamento. Sorriu - sem eco.

 

Quando o senhor Romildo colocou tudo certo no local certo completou. Entendo destas conexões. Vou organizar os fios e fazer as ligações. Deixo tudo pronto. Fios e ligações são comigo mesmo. E sorriu enquanto colocava cabinhos e tomadas nas entradas corretas.

 

Pronto. Sempre que precisar pode chamar.

 

Lá se foi o senhor Romildo repetindo pelo corredor enquanto juntava uma parte da caixa dispensada no hall de Serviço – se precisar é só chamar.

 

Leticia deu os retoques na cômoda. Tomou uma chuveirada. Levou uma tacinha de vinho tinto para a mesinha de cabeceira. Ligou a Televisão. O quarto se encheu de luz e som. As imagens circulavam absolutamente e perfeitamente nítidas – escolheu um filme na prateleira dos filmes antigos. Estava feliz. Muitas conquistas além da tal terceira dimensão se fizeram efetivas por conta de um impulso. Gostou.

 

Dormiu e sonhou com a cineasta descabelada e o filósofo de rabo de cavalo. Ronaldo parecia girar numa cadeira segurando um clarinete – mas ela não entendia bem o que ele falava. Sonhou que havia muita luz acesa na casa e um ruído forte e repetido.

 

Acordou – era o despertador tocando. Era cedo.

 

A Televisão estava ligada desde a noite. Por certo o sono viera forte com estilo comatoso. Assim ela dormira e não desligara. Sorriu para a tela imensa – e desligou. Esticou os braços. As mãos percorreram o colchão. Esticou as pernas. Tudo parecia perfeito.

 

Abriu mais ainda os olhos. Dormira muito tarde – bem diferente do horário infantil que há muito seguia. Dormira no horário adulto – se tivesse tempo até sorriria disso. Mas não tinha. O tempo inútil que tentara gastar quando não sabia como fazer para erguer a televisão – fora realmente todo gasto. A palavra certa agora era – emergência.

 

Pela primeira vez esquecera de separar a roupa do dia seguinte e o material de trabalho. O pulo que deu da cama deve ter despertado vários vizinhos. Vinte milhões de pessoas pareciam estar correndo de um lado ao outro dos tais cinquenta metros quadrados. Conseguiu se entender.

 

Lógico que no modo acelerado – mas venceu. Fez toda a rotina. Regou as plantinhas. Arrumou a cama e a cozinha. Passou pela Televisão e caminhou com os dedos pelo contorno da tela.

 

Foi trabalhar. Quando voltasse a Fadinha teria feito o que tinha que ser feito. Desceu sorrindo o elevador e pensando sobre qual filme assistiria antes de dormir. Estava feliz com as novas diretrizes - podia assim denominar – que incorporava à maturidade. Pedir ajuda não é coisa de solitários – é de quem faz parte do mundo real. Que bobagem. Teria economizado cinco dias de espera – sabe-se lá do que – com a caixa encostadinha à parede. Tem uma parte que se faz sozinho e outra parte que se faz com ajuda. A parte que era dela – tinha cumprido. Simples assim.

 

E o riso lúdico se fez de cúmplice deste súbito item recém adquirido de maturidade. Sorriu e pensou enquanto subia rápida a ladeirinha.

 

É minha. Toda minha. Sorriu.

 

 

 

 

publicado por Lêda Rezende às 23:06

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