Blog de Lêda Rezende

Setembro 18 2010

 

O despertar fora da ordem do pós-folga. Nem bem sabia por onde começar. Não decidira se reclamava ou se agradecia. Parecia uma questão fácil de resolver – à primeira vista. Ou ao primeiro des-piscar de olhos. Mas não era.

 

Os quatro dias passaram. Assim. Passaram. Como o Tempo é sádico. Só demora no que não interessa. Lembrou o dia da banheira. O dia que chegou cedo em casa e foi imergir na água quente. Fez uma brincadeira - Tempo de fora. Aqui só será aceito o espaço. E quando saiu da banheira a água não tinha descido pelo ralinho. Tinha saído para o piso do banheiro. E correu para secar e salvar toda a decoração que fizera de mesinhas e música e velas e incensos. Correu apressada antes que a inundação se fosse escada abaixo. E o Tempo comandou - destituindo o espaço.

 

A avó da amiga não cansava de repetir. O espaço é de todos e o Tempo é dono dele mesmo, menina, o espaço é de todos e o Tempo é dono dele mesmo.

 

Aprendeu como sempre se aprende – no logo depois.

 

Mas fora cautelosa. Desta vez absteve-se de comparações ou deliberações. Quando a noite chegou e trouxe com ela a véspera da rotina – obedeceu. Colocou todos os ponteiros em dia. Despertador ativado. Roupas escolhidas. Bolsa arrumada. Material revisado. Tickets e chaves em locais visíveis. Até o pãozinho já ficara espremido no espaço exíguo da torradeira. Tudo facilitado para que a volta do tal pós-folga se fizesse sem transtornos. Uma metodologia que beirava já - a insanidade. Sim. Só possuída pela insanidade seria alguém tão detalhista de véspera. Mas se conhecia. Sabia que seria adequada esta facilitação. E fez o que o coração mandou. Pensou esta frase e recusou. Fez o que a razão mandou. Recusou de novo. Fez o que tinha que ser feito. Deixou.

 

Acordou com o aviso do despertador. Passeou a mão pelo rosto. Sim. A pele continuava lá. Macia. Leve. Ainda estava dentro da validade. Ela. A pele. A massagem com desincrustação. Torceu para que assim continuasse depois da volta. Depois da retomada do cotidiano sem tréguas. Nada de bandeira branca nem de – daqui a pouco. Era retomar e retomar. Simples assim. Enfim desceu as escadas para por em prática - o teorizado na noite anterior. Desceu. Ligou a torradeira. Fez o café da manhã. Em seguida deu uma passadinha na varanda - olhou para a ladeirinha. Talvez em busca de alguma interdição. Sempre há uma esperança em algum cantinho da fantasia. Mas nada. Algumas pessoas subiam abraçadas a si mesmas na tentativa de aquecer o corpo. Outros mais displicentes deixavam os braços nadarem no vai e vem do caminhar rápido. E como se num espelho – virou-se para si mesma.

 

Até ai nada de inesperado.

 

Olhou para a toalha do banheiro. Vai lá saber por que – olhou. E lá estava – o inesperado.

 

Descansando feliz nas malhas da toalha estava uma abelha. Listinha quase dourada no corpo encurvadinho. Anteninhas. Asinhas. Lindinha. Uma abelhinha por inteiro. No banheiro dela. Na toalha dela. E no horário dela.

 

O tempo é dono dele mesmo. Falou alto - já enxergando o relógio e o aviso de – anda logo.

 

Não fosse ela absolutamente alérgica a picada de abelha – e não haveria um problema. Até faria uma saudação à madrugadora abelhinha. Mas ela era. Absolutamente e perigosamente alérgica a picada de abelha. E vai lá saber o humor da abelha. Vai lá saber se voltava de alguns dias de folga. Afinal – operárias são operárias. Não importa a escala zoológica. E nem sempre é aconselhável intervenções bruscas em quem retorna de um pós-folga.

 

Escolheu – cautela.

 

Não sabia o que fazer. Mas as ideias não faltaram. Vieram – em auxilio – aos borbotões.

 

Foi até perto dela. Vai ver era tímida e sairia. Não deu certo. Ela continuou na toalha. Voltou. Acendeu a luz. Abriu mais a janela. Vai ver – a abelhinha - usava algum creme facial que a luz artificial era contra indicada. Nada. Também sem resultado.

 

Teve a mais brilhante das ideias. Ao menos assim considerou. Foi em passos rápidos até a varandinha. As pessoas - agora mais numerosas - subiam e desciam. Pegou um vaso que sossegado estava na mesinha. Acolhia uma florzinha branca - linda e refrescada pelo orvalho da manhã.

Foi com o vasinho e a florzinha até perto da toalha. Acenou para a abelhinha. Até falou - olha quem veio lhe buscar. Lá fora o dia está perfeito. E olha só que perfume tem esta florzinha. Nada. Nem se virou para olhar a florzinha – que por certo abandonada e magoada – foi levada de volta para a mesinha na varandinha. Notou que o número de pessoas que subiam e desciam havia diminuído.

 

O Tempo é dono dele mesmo. Falou mais alto - já olhando forte para o relógio e o aviso mais contundente de – anda logo.

 

Outra ideia iluminada. Pegou o vidrinho do perfume. Daquele que ela tanto exigia que não faltasse. Fez uma espécie de rastro de perto da toalha até a janela do quarto. Assim. Como um atalho etéreo digno dos deuses. A casa se encheu de perfume. Até espirrou. Ela. Porque a abelhinha não moveu uma listinha que fosse.

 

Foi o suficiente. Se ela tem péssimo humor depois de dias de folga – eu também tenho. Armou-se de coragem. De necessidade. De horário. De Tempo e de relógio. Pegou uma toalhinha de papel e dobrou três vezes.

 

Com delicadeza e com a firmeza que só a decisão impõe – a segurou. Certificou-se de escapar da picada – caso ela também tivesse tomado alguma decisão com firmeza. Vai lá saber as atitudes idiossincrásicas de uma abelha numa manhã de volta ao trabalho.

Assim. Com prudência mas com cuidado. A ideia era  – operárias – voltem ao trabalho. Sentiu-se até vingada. Não seria somente ela. Não era certo. Vamos ao trabalho – nós duas. Falou alto.

 

E foi até a varanda com o papelzinho dobrado três vezes. A abelhinha aconchegadinha dentro dele. Antes mostrou a florzinha a ela - e ela à florzinha. Abriu o papelzinho com suavidade – e ela voou.

 

Não somente ela – a abelhinha. Ela também quase repetiu o mesmo ato. Correndo pela casa atrás do Tempo-dono-dele-mesmo.  Arrumou-se de um passo só. Saiu pegando e colocando o tão tranquilamente projetado na véspera - com tanta rapidez que até conferiu os sapatos no elevador. Ainda bem. Não estava com um pé de cada par.

 

Chegou – atrasada.

 

Alguém fez um comentário rindo. Pensou que hoje estava de folga. Por certo acordou tarde achando que era uma Madame. Esqueceu que é uma operária. Falou assim esta palavra. Operária.

 

Temeu pela pele. Pela massagem. Pelo desincrustamento. Lembrou dos dias de folga. Lembrou da florzinha rejeitada. Da abelhinha mal humorada. Controlou-se. Sorriu. E passando a mão por segurança no rosto disse um sorridente – e discreto entre os dentes - bom dia.

 

E – assim iniciou o primeiro dia de volta - à operária.

 

 



publicado por Lêda Rezende às 17:16

Setembro 11 2010

 

Considerando uma sábia decisão – efetivou a ideia. Com um dia útil recheando o domingo e o feriado optou transformá-lo num dia útil para si mesma.

 

A tal efetivação foi oficializada dois meses antes. Com total precaução e prudência – como lhe ensinara a avó de uma amiga. Muitas vezes a escutou afirmar. Prudência e precaução são atitudes menina, prudência e precaução são atitudes.

 

E agiu cheia de boas intenções. Fechou a agenda. Organizou os atendimentos. Distribuiu os horários. Tudo feito com muito cuidado e rigor. Devidamente protocolado.  Assim era o estilo dela. E assim fez.

 

Celebrou os dias de folga com a antecedência que os planos bem elaborados permitem. Cada vez que se sentia cansada – lembrava. Dias tais e tais – estarei de folga. E se animava de volta à rotina estabelecida. Era uma otimista profissional.

 

Com o caminhar das semanas descobriu que mais longe parece mais perto. E que mais perto parece mais longe. Quase fundou uma nova filosofia - A Filosofia da Expectativa. Ou um texto - O Oposto do Cronológico. Ou uma tese - Dissertação sobre as Horas Estagnadas. Ou ainda um ensaio – Ensaio sobre a Antevisão. Até ria das próprias ideias. Mas nada expunha. Ninguém sabia do tamanho da aflição. Sossegada e discreta – fantasiava a teoria e aguardava a prática.

 

Quando parecia mais perto – sentia aquela aflição de nem rotação nem translação existiam mais. Mas continuou como se nada fosse com ela.

Venceu. Com parcimônia. Com paciência. Com lucidez. E os dias chegaram. Até enviou recadinhos. A partir das cinco horas da tarde do dia tal – estarei de folga por quatro dias. E riu. Riu sozinha. Digitando a mensagem - e rindo.

 

E o primeiro momento se fez existir. Saiu na hora certa do atendimento. Entrou no carro. Feliz. Colocou as músicas de lá de onde viera. Não existia música melhor para escutar diante do planejado e alcançado. Lembrou de redes balançando. De tardes na praia. De areia morna.De água de côco no final do dia.

 

Mas voltou para onde estava – e lembrou  uma banal compra já adiada por falta de tempo inútil. Uma compra cosmética. Procedia.

 

O trânsito àquela hora do dia e em véspera de feriado - se apresentava em Estado de Acúmulo.

Era o que sugeria aquela interminável fila de luzinhas vermelhas à frente.  Avisou a si mesma. Nada de reclamações. Escuta a música e cantarola que o tempo passa. Obediente a tantos – não foi difícil obedecer a si mesma. Fez o exigido para a situação.

 

E entre um cantarolar e outro - olhou para o lado. Os olhos se anteciparam ao raciocínio. Grudaram na placa da loja. Lá estava paradinha numa esquina bem alegrinha e iluminada - a lojinha dos cosméticos. Assim. Em paredes brancas e azuis. O raciocínio virou-se para o trânsito. Os olhos para a lojinha. Trocaram de posição. E nesta de um orientar o outro – o raciocínio e o olhar - venceram as mãos. Girou o volante.

 

Um simpático e sorridente senhor se aproximou de imediato e se ofereceu para manobrar o carro. Já foi entregando a chave e o sorriso junto com um - muito obrigada.

 

Entrou tímida. Circulou entre as prateleiras que prometiam pele de recém nascidos. Cabelos de virgens romanas. Perfumes de deusas olímpicas. Estava assim nesse caminhar quase etéreo quando uma voz delicada a chamou à razão. Ou ao terreno – melhor dizendo.

Posso ajudar em algo. Assim a voz veio até ela. Em suaves decibéis - por certo para não aterrar tão de súbito a esperança oferecida em caixinhas tão coloridas.

 

Avisou o que pretendia. Mas só pretendia. Queria dados concretos e práticos sobre o produto. Eficácia não seria questionada. Só a eficiência da conta bancária dela. Isso sim. Precisava de um certo controle – ou a pele se despencaria. Não a dela apenas. Incluiu a pele do gerente do Banco nisso. Era um rapaz tão jovem e sonhador. Tinha tantos planos futuros. Achou maldade envelhecer o coitado de um cheque só.

 

Fosse um filme e não teria direção melhor.

 

Na cena seguinte estava deitada numa poltrona maravilhosa. Serviço de oferta da casa – assim foram informando. Uma forma pragmática de demonstrar a eficácia do que vendemos. O mundo além das caixinhas. Complementou - e riram. Uma música suave percorria o ambiente. Uma mocinha delicada fazia limpeza e “desincrustamento” na pele dela. Assim. Este termo parecia imprescindível. A mocinha o repetiu inúmeras vezes. Precisa de um desincrustamento facial.

 

Que providencie então.

 

A pele foi desincrustada. Massageada. Hidratada. Firmada. Revitalizada. Este outro termo que a mocinha usou - também repetidas vezes - em seguida ao outro. Agora você está revitalizada.

 

Uma hora e meia depois e encerrada a sessão – assim nomeou – levantou-se. Controlou-se para não tomar atitudes impetuosas. Mas por pouco – muito pouco - não beijou ardorosamente o espelho. Adorou.

 

Pediu ao Universo que cuidasse do gerente. Do Banco. Da conta. E comprou o proposto inicial.

 

Por um milésimo de Realidade – lembrou. É sempre assim.  Uma Realidade sempre puxa outra. Eis um axioma. Uma verdade quase digna dos gregos. Encheu-se de súbita materialização. Perguntou à gentil mocinha desincrustadora. Por acaso vocês aqui tem manobrista.  Assim. Uma pergunta quase retórica. Lembrava vagamente que alguém lhe pedira as chaves. E vaga-mente deu até um frio na coluna. Mas não era momento de brincar com as palavras. Quase deu uma ordem cerebral. Mas comentou. Ofereceram uma manobra. E ela cedera sem desconfianças. Como de hábito. Este poderia até ser nomeado como Defeito. Diante do Conforto era Ingênua. Assim. Como um Título. Tudo em maiúscula.

 

Inegável a sensação. Escutar um sim fez - a tal revitalização da pele - funcionar na íntegra.

 

De volta ao – ainda bem – carro já manobrado em direção à saída – olhou-se no espelho. Sorriu. O trânsito fluía melhor. Voltou para casa pensando. Na pele. Na revitalização. Até na avó da amiga das prudências e precauções. Só desviou o pensamento do gerente do Banco. Ficaria para os dias úteis. Afinal - de nada serve se atormentar por um gerente em dias inúteis. Riu. Fácil.

 

Estavam deflagrados os tais – finalmente atingidos e alcançados – dias de folga. Desincrustados e revitalizados. Perfeito.

 

 

 

publicado por Lêda Rezende às 22:29

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