Blog de Lêda Rezende

Julho 29 2009

 

O primeiro pensamento foi o habitual. Corriqueiro. Não acredito que isto está acontecendo. Até esboçou um sorriso. Mas no pensamento.

 

Sim. Rir de expressão facial seria arriscado. Todos que estavam ali dentro não tinham a menor intenção de rir. Ou de ver alguém a rir. A coisa parecia séria. As pessoas em volta pareciam assustadas. Somando tudo isso chegou a uma outra banal conclusão. Deve haver um risco.

 

Ajeitou-se melhor na cadeira. Buscou um mínimo de conforto. Nem que fosse pura fantasia. Conforto era objeto inexistente. Naquele lugar e naquela situação. Mas enfim. Buscou fingir que se aconchegava. E se aconchegou a si mesma. Não sem antes tomar uma atitude. Considerava-se uma pessoa de atitude. Agora era o momento de se provar isso.

 

Controlou o riso mais uma vez. Até se desentendeu. Devia ser alguma nova patologia. Porque ninguém em saudável raciocínio teria vontade de rir. Ali. Aquela hora. E com aquela temeridade. Mas permitiu a vontade. E proibiu a exposição da tal vontade. Se persistisse – prometeu. Buscaria uma ajuda profissional. Medicamentosa. Até cirúrgica. Mas alguma cura teria que ter.

 

Já que a esta altura já se sentia com a doença instalada.

 

Resolvido isso – mudou de texto. Abriu o ladinho da bolsa. Acrescentou aos pensamentos o objeto auditivo egóico. Seu tenor preferido a privilegiava com suas árias preferidas. Nem ousou pensar a palavra - perfeito. Ai já não seria uma patologia susceptível de cura.  Ai já seria buscar a ira do Universo. E isso já seria demais. Até para ela. Censurou na primeira letra da palavra. E ficou ali a escutar. A voz. A música. O coro. O relato dramático em decibéis corretos.

 

Por um segundo veio uma palavra nova. Legado.

 

Sim. Se a situação era de risco. Se a gravidade estava já denunciada e aceita. Qual seria seu legado.

 

Complicado. Aprendera algo.  O que foi dito – permanece. O que foi esquecido de ser dito – também permanece. Mesmo o sujeito oculto - continua sendo chamado de sujeito. E as pessoas complementam. Uns diriam – falei com ela hoje. Outros – faz tempo que não falo com ela. Mais alguns – passou o dia todo trabalhando. Mais outros - ela reclamava tanto do horário. De uns - condescendência. De outros - informações. De mais outros - considerações. As pessoas acabam por preencher com frases – as faltas materializadas.

 

Mudou novamente de texto. Porque lembrou deles. Sem comentários. Já que não podia rir – também não iria chorar. Deu - a si mesma - um titulo. Extremista. Fez até um discreto sim com a cabeça. Ninguém notou.  

 

Um senhor mais alto – de pé – informou. Foi um problema com o da frente. Algo que ver com os trilhos. A chuva está muito forte. Acho que vamos todos ter sair. E caminhar por aquela minúscula trilhazinha. Bem coladinha no paredão. Para subirmos.

 

Concluiu. Eu não. Não vou. Tenho horror de caminhar em lugar apertado.

 

E ele sempre diz que sou malcriada. Junto os dois e daqui não saio.

 

Aumentou o som. O tenor se espalhou. Melhor escutar aquela ópera. Que a outra que estava se construindo.

 

Ia fechar os olhos quando ela veio falando. Gesticulava alto. Queria organizar um motim. Sobre os trilhos. Dar queixa. E naquela situação. Não deu para segurar. Riu. A cena ficou patética. Amotinados no subterrâneo e sobre trilhos molhados. Nem aquele francês pensou nisso. E olha que ele adorava um fosso. Devia ter nascido aqui e agora. Ia se espalhar mais que o tenor nos  ouvidos dela.

 

Foi interrompida por outro. Com ar de sábio - levantou. Ergueu a mão. E a voz. Deu até um pigarrinho antes de falar. Pediu calma. Avisou. Excitação gasta oxigênio. Uma senhorinha sentadinha – até então alheia a tudo - levantou o queixo. O olhar. Em direção a ele. E balançou a cabeça – como se a frase lhe lembrasse algo já passado. O olhar pareceu mais distante que a saída.

 

Nova interrupção. Um gritinho fino informou. Subitamente. Matei. Matei. Passei agora para uma segunda fase. Todos se viraram. Tudo era sinal de perigo. Identificado o matador – todos voltaram a sua posição anterior. E ele feliz – acionava rápido com seus dedinhos as teclas do joguinho. E ria a cada possível mudança de fase.   

 

O frio foi cedendo espaço. Ao calor. E a maioria retirava casacos. Capas. Lenços. Uma semi nudez sem objetivo. Apenas o ato pelo ato. Como se bastasse um suar – para todos se despirem. Fez lembrar o mestre austríaco.

 

Veio uma suave voz - saindo por um tubinho com tela. Informou. Estamos re-iniciando o trajeto. Pedimos desculpas pelo transtorno. As chuvas causaram problemas. Mas já estamos com a situação sob controle. E avisou a próxima parada.

 

Ele começou a vestir o casaco e comentou. Com a absoluta segurança dos pessimistas. Lá em cima está bem pior do que aqui embaixo. Hoje ninguém volta para casa.

 

 

Impossível resistir. Ela riu. Alto. 

 


Julho 26 2009

 

Acordou com o dia já programado de véspera.


Adorava isso. A sua programação adiantada. Dormia sabendo o dia seguinte. Mais ou menos assim. Não era metódico. Nem obsessivo. Era programado. Palavras com sentido diverso. E funcionalidade ainda mais diversa.


E assim seguia seu estilo. Alguns até opinavam. Faziam elucubrações carregadas de teorias sobre o ato em si. Dava de ombros. Escutava mas não antagonizava.


Alguém um dia lá sugeriu. Vai ver é uma aposta na vida. No dia seguinte estará vivo. Vai ver é isso. Funciona como ordem prévia. De rotina a ser cumprida. Nada afastando a possibilidade da interrupção. Da já cuidada rotina. Desde a véspera.


Desta vez acatou. Não que estivesse em total acordo. Acordo era muito difícil de conseguir com ele. Sempre tinha um se ou um mas. Os mais próximos até se surpreenderam. Ela perguntou. Não vai falar que não. Riram. Ele não riu.


Ficou pensando. Não dizia refletindo porque cansara desta palavra. Deste verbo. Refletir passou a lhe sugerir uma observação superficial. Como uma leitura das primeiras linhas. Desconsiderando todo o parágrafo. Como uma alegoria. Sempre cabia mais imagem do que texto. Uma idéia particular. Mas não abria mão.


Assim fora mais aquela noite. A roupa da manhã já separada. A chave do carro sobre a mesa. O café da manhã já deliberado. E dormiu.


Pela manhã já se sentiu reconhecido. Tudo estava conforme o planejado. Logo era muito mais uma questão de reconhecimento. Do que de conhecimento. Assim acreditou. Tinha lá seus instantes de credulidade. Quase lúdica.


Saiu. Foi cumprir o já agendado.


Parece que alguém não entendeu muito bem. Ou se fez de desentendido.


Em meio ao rumo determinado – um susto.


Ela veio de lá. Desconsiderando listas. Projetos. Estilos. Ordens prévias. Obstáculos. Vai lá saber o que programara na véspera. Mas foi uma pancada só. E um estridente grito do metal com metal. Como uma cruel dor aguda e cortante.


Seu carro restava ali. Como diriam os poetas do além mar. E restava era a palavra mais correta. Uma parte se fora. E a que restara não se sustentava. Qual um doloroso divórcio. Onde um não sabia o que fazer sem o outro. Mas já se entendendo separados. As partes destacadas estavam bastante machucadas. Para fazer uma analogia - novamente - poética.


Olhou rapidamente para o relógio. Olhou com calma para si mesmo. A parte externa estava íntegra. Nada parecia ter sido perdido. De si mesmo.


Ela veio. Com um manual de explicações. Sim. Do jeito que falava parecia ler o Manual do Descontrole. Falava alto e ritmado. Fazia as pontuações de forma correta - mas desordenada. Explicava o por que do acidente.


Por um segundo o pensamento se deslocou. Achou maravilhoso. Que alguém soubesse explicar acidentes daquela forma.


Mas logo se recolocou. Respondeu com monossílabos. Objetivos. Claros. Talvez apenas não muito polidos. Mas para uma dama descontrolada – era o máximo que podia conter. Ela era a responsável por toda uma quebra. De metal a trato. Desconsiderando por total o dia seguinte - dele. 


Os meios de solução chegaram. Foi tudo resolvido protocolarmente. Protocolarmente.


Seguiu para a rotina. De taxi. Voltou para casa de noite. De taxi. Quando chegou informaram. Não tinha luz. Subiu as escadas. Muitas. Pela primeira vez se arrependeu. A vista era bela. Sim. Os braços abertos Dele pareciam mais próximos. E acolhedores.


Ficava mais lindo visto da sacada. Mas as escadas eram infinitas.


Superada mais esta etapa - entrou. Nada poderia mais ser feito. À falta da energia elétrica se agregaram muitas outras faltas.


Encontrou uma daquelas lanterninhas de página. Decidiu. Vou vencer mais este inesperado. Abriu um livro que recebera. Começou a ler. O texto falava sobre idéias num carro. Ou sobre a falta de micro num carro. Algo por aí. Na segunda palavra carro do texto – fechou o livro.


Precisava apenas repensar sobre o susto.  E todas as suas variantes. Sobre o evitável - previsto. Ou o inevitável - imprevisto. Ou o inevitável - previsto. Ou ainda sobre o evitável – imprevisto.


Riu. Concluiu. Foi tão somente uma discordância de tempo. Ou de espaço. Só isso. Nada tinha que ver com a véspera. Ou com o programado. Com a tal lanterninha – começou a organizar o dia seguinte. Agora com algumas novas adequações.


E foi dormir. Sem maiores nem menores - reflexões. 


 


Julho 25 2009

 

Os debates ficaram agendados. Os temas estabelecidos. O grupo se reuniu para o proposto.

 

A questão – naquele momento - era básica. Ele tentou formular com sobriedade. A traição está em que Lugar. Na emoção. Na omissão. Na materialização. Ou na obviedade da informação. Ou pior ainda. Na ambigüidade de um riso sorrateiro e explícito.

 

Ao final desta longa frase dita de forma entrecortada – um silêncio adequado se fez.

 

A cada um coube um pensar. Mas a ninguém parecia caber um responder. Pelo menos de imediato. Não houve um só já sei. Parecia que cada um se perguntava muito além da demanda.

 

Ela decidiu. Nada de tanto silêncio. Parecia indignada. Por que ninguém responde. Onde já se viu. Quem nunca se sentiu assim. Traída. Sofrida. Rejeitada. Revoltada. Quem nunca disse - eu que me dei tanto.

 

Surgiram alguns risinhos disfarçados. Parecia ser este exatamente o resumo das perguntas entrecortadas. Mas ninguém se atreveu a falar. Sequer a insinuar. Não era caso de gracejos. Era. Mas não para ela. Mais ou menos assim. Respeitaram a seriedade dela. Calaram-se e escutaram.

 

Traição é fato de escuta. Muito mais do que de fala.

 

Estava tensa. Mexia a colher do cafezinho como se cavasse a terra. Parecia querer exumar alguma mágoa antiga. Para vê-la – talvez - transformada em esqueleto. Ou em pó. Vai lá saber. Apertava a colherzinha com tanta força que os dedinhos até estavam esbranquiçados.

 

A voz começou rouca. Traição não é questão de Lugar. Nem de lugar. É mais uma questão de falta de assento. De falta de olhar. Traição é esvaziar uma pessoa. Totalmente. Expondo sua intimidade a outro. Traição é da ordem do visceral. Por isso dói tanto.

 

Parecia conversa de intelectual daquele país. Lá sim. Cada fala tinha uma total ausência de significado. E ampla plenitude de linguagem. Quem de fora estava - sempre concluía. Entendi nada. Mas sei que é importante. Muito importante. E não faltaram publicações e mais publicações sobre estes tão importantes- nada entendido.

 

Alguém teve uma idéia na sequência da escuta.  E expôs rapidamente a tal idéia. Aqui também tem vinho. Olharam para ele. Riram aliviados.

 

Optaram pelo vinho. Mesmo correndo o risco daquela frase em latim. A esta altura qualquer risco parecia menor que a exumação. Foi a sensação que deu.

 

Alguns se levantaram. Caminharam pesado. Como se cobrissem algum túmulo com os pés. Outros se recostaram na cadeira. Como se buscassem um conforto. Um ou outro olhou para fora da janela. O olhar parecia invejar quem passava isento.

 

Ela sentou. Dispensou o café. Fosse a colherzinha um ser vivo e estaria grata. Até poderia respirar de novo. Ergueu a mão. Firme. Quase todos a olharam. Menos os que observavam os isentos passando na calçada.

 

E calma, muito calma, se dirigiu para a bandeja das taças. No rosto estava uma expressão de falei o certo. Pegou uma taça de vinho branco. Bem gelado. O copo solidário suava o excesso.

 

Comentou. Que cada um exponha seu recato. Eu de minha parte, decidi enterrar o meu. Continuou. Acho que virá um temporal. Pegou mais uma taça da bandeja. Fez um quase ballet na volta. Sentou com uma expressão de falei forte. Falem vocês agora. Ordenou.

 

Vai lá saber por que – acabou de ordenar e sentar - a cadeira virou.

 

Virou e caiu. De costas. Com ela dentro. Colada nas costas da cadeira. Pernas não tão coladas assim. A saia confirmando a existência da lei da Gravidade. Uma nova maquillage inaugurava o rosto. Refrescado pela rápida colaboração do vinho. Um susto. Um grito. Um desacato.

 

Levantou-se com ajuda. Recolheu o mais exposto. Secou o rosto.

 

Quando riu – todos riram. E as respirações retomaram o ritmo correto.

 

Traição, traídos e traidores voltaram ao seu devido Lugar. Entre risos e piadinhas cada um revelou e disfarçou seu pudor. Houve uma inútil tentativa de falas e pequenas pontuações sobre gestos e atos.

 

Em meio ao ocorrido - ficou encerrada a temática. Mal solucionada pelas palavras. Mas muito bem explicada por um objeto. Procedia.

 

Muitas vezes uma súbita performance se faz  necessária. E elucidativa. Foi o que concluíram de mais imediato.

 

 


Julho 23 2009

 

Acordou com uma nova sensação. Não diria estranha por que não temera. Mas diferente.

 

Nem bem abriu os olhos e já entendia o dia que se iniciava. Enxergou o dia muito mais que o dia já a enxergava. Ainda não se tinham olhado frente a frente. Estavam seguindo nos subterfúgios da noite disfarçada. Uma troca de faltas por excessos. Ou ao contrário. O dia requeria calma. Para ser vivido. Mas vai lá saber por que – já sabia disso antes.   

 

O brilho entrava por baixo de uma porta. E pelas frestas da outra porta. Compreendeu. O sol se fazia forte.

 

Junto com o despertar um súbito pensar. Duas palavras. E tudo isso antes de levantar. Antes de por o primeiro pé no chão. Antes sequer de imaginar colocar o segundo pé no chão. Ate riu quando pensou nisso. É verdade.

 

Começo é colocar os dois pés no chão. Parece um chiste á toa. Mas não é.

 

Condescendência amorosa. Estas eram as duas palavras. Sob a luz da manhã.

 

Lembrou da avó da amiga. Ela sempre avisava.  O sol sempre cria a possibilidade da sombra, menina, o sol sempre cria a possibilidade da sombra.

 

Entendeu bem a avó.

 

Mas coragem. Pôs os dois pés no chão.

 

Se sentiu como uma caricatura de si mesma. Ali. Ao lado da cama. Olhando a fresta da luz e de pé. Até olhou para os pés. Em outros tempos voltaria para a cama e começaria tudo de novo. Agora não. Enfrentou. Lá se foi com seu pé ordenando e obedecendo. A caminhada.

 

Saiu do quarto.

 

O céu estava de um tom de azul quase artificial. Intenso. Lindo. Um leve ventinho frio ainda se despedia da madrugada. O sol brilhava no alto. Foi até a varanda. Fez um gesto casual. Os passarinhos na sacada – saíram.

 

Casualidade permite leituras bem particulares.

 

As duas palavras não escapavam. Firmes. Condescendência amorosa.

 

Vai lá saber por que desceu as escadas correndo. Olhou o mundo em volta. E deu inicio ao programado. Pratinhos. Talheres. Toalhas. Bandejas. Até incenso. Foi fazendo na sequencia. Para que escapasse o mínimo. E todos se sentissem privilegiados. Dentro do seu estilo. Dentro do seu festejo.

 

Tudo marcado para o final da tarde. Para uma múltipla celebração. Todos felizes.
Ele com o sucesso já invadindo as portas recém abertas. Uma consequência do trabalho ético e árduo.
Ele tinha sido promovido na semana. Uma consequência da dedicação e responsabilidade.
E ele estava com os limites orgânicos se restabelecendo. Uma consequência da persistência e confiança.

 

E todos com um fio condutor em comum. A vida. Quase como uma poesia.

 

Se sentiu como numa platéia. Participante entusiasmada deste mundo em organização. Até se viu aplaudindo e dando vivas.

 

Telefonou para ele. Houve um pequeno mal entendido. Acertou meio que às pressas.
Telefonou para o outro. Novo pequeno mal entendido. Emendou o mais rápido que pode.

 

Riu. Até riu mesmo. Já estava tomando proporções maiores. Melhor não falar com o terceiro. A esta altura já se sentia numa maratona de palavras. E erradas - lógico. Como se em saltos com vara. Fora do risco permitido. Desistiu.

 

Achou melhor cuidar das tarefas braçais. Com dedicação. Com parcimônia. Com sobriedade. E dentro do que elas representavam. Sem buscas pela intelectualidade. Sem esforços analíticos. Sem digressão filosófica. Assim ela me disse. Assim ele falou. Assim você se comportou. Nada disso. Não era o momento.

 

Encerradas as tarefas – sentou. Sob o sol. Não viu a própria sombra. Nem tampouco procurou. Recostou numa cadeira. Com total tranquilidade.

 

Achou dentro de si o que procurava fora. Concluiu. É algo sempre solicitado. Mas pouco disponibilizado. E vira um-sem-fim-de-queixumes. Afastou esta frase inteira. Apagou hífens. Retirou as ligações. Os plurais. Os infinitesimais.

 

Deixou – simplesmente - que o sol esquentasse a pele. Sorriu. E aguardou. Aguardou a chegada deles. Para a celebração.

 

Estava feliz. Muito feliz.

 

Com toda a condescendência amorosa o vento balançava - com suavidade - a toalhinha branca sobre a mesa posta.

 

 


Julho 21 2009

 

Acordava sempre muito cedo. Não tinha um só dia que não reclamasse.

 

Lembrava dos tempos da graduação. A única matéria que tivera problema. A aula se iniciava quase com o nascer do sol. Não dava muito certo. Se faltava – era porque não conseguia acordar. E quando ia - passava todo o horário da aula dormindo. O professor até ria. Quando estava de bom humor.

 

Mas nem sempre ele estava. De solidário bom humor. Perdeu. Fez uma recuperação. Que - por sorte dela - começava depois do dia já normal. Assistiu todas as aulas. Foi aprovada. Com as boas notas de sempre.

 

Enfim. Sempre fora desse jeito. Podia emendar noite com dia. Em tarefas ou prazeres. Mas nunca acordar antes do sono já vencido. Quando isso acontecia o sono é que saía vencedor. Assim explicava. E assim ria. De si e da explicação. Podia até faltar disposição matutina. Mas bom humor nunca faltou. Fato verídico e comprovado.

 

Mas parece que é desta forma que o mundo rege. Ou é regido. Na contramão do desejo. Ou da vontade. Ou da idéia. Não importa.

 

Após a tal graduação não faltaram motivos. Ou imposições. Ou talvez ainda ocasião. Parecia que tudo para ela só começava cedo. Cedíssimo.

 

Aceitou. Se é para ser – aceito. Não adianta ir contra. Fui vencida.

 

Pior ainda do que no tempo da graduação. Agora acordava antes do sol. Enquanto ele se espreguiçava - ela já estava de saída.

 

Mas não era tão resignada. Fingia. Mas não era. Reclamava. Muito. Fez mil invenções. Inventou susto oriental. Afundou despertador. Toques de submarino. Da mitologia à tecnologia não faltou ameaça. Ameaçava tanto que já nem sabia mais a ordem.  

 

Mas uma coisa não se podia dizer dela. Que atrasava. Nunca. Nem uma só vez. Não atrasava. Ao contrário. Até se antecipava. O amadurecimento tem lá suas vantagens. Não se luta contra o óbvio. E aprende-se que minutos não compensam horas. Às vezes ela se atrapalhava e dizia o contrário.

 

Mas cumpria o que tinha que ser cumprido. E recebia elogios. Muitos perguntavam se vinha daquele país onde a pontualidade tem nome e sobrenome. Faziam piadinhas e gracinhas. Com a pontualidade antecipada dela.  Não se aborrecia. Ria. E se surpreendiam. Quando revelava a origem. Aprendeu a se divertir com isso também. Eis algo que o despertador não tirou. O entusiasmo pelo riso. Isso era factual. De relação profissional a particular. Ou de afetiva e amorosa. Sempre era esse o comentário. Estava sempre bem disposta. E procedia.

 

Neste amanhecer foi especial.

 

Desceu as escadas. Ainda estava escuro. Reclamava de si para si. Sim. Não tinha ninguém saudável àquela hora acordado. Tinha que reclamar e responder. Ela com ela mesma. Como uma esquizofrenia matutina. 

 

De repente escutou o aviso de mensagem no celular. Conferiu. Era dela. De lá. Além mar. Mandava um recadinho. Não imaginava que ia ser lido naquela hora exata. Outro fuso. Outro horário. Mas em tempo real.

 

Entendeu pela primeira vez o significado emocional disso. De tempo real.

 

Não resistiu. Respondeu. Ela retornou. Surpresa. E ficaram de conversinhas. De combinações. De comparações. Uma de cá - no escuro do dia recém amanhecido. A outra de lá - no escuro do dia já alto e enevoado. As duas no escuro. Clareando as idéias com o feliz riso solto.

 

O pão queimou. Ficou igual às duas auroras. Num momento de concentração na resposta se viu colocando manteiga dentro da xícara de café.  Informava a sequencia de erros. E riam. E trocavam as novidades. Rapidamente. Não podia se atrasar. Ela daqui. Nem ela de lá. Cada uma compromissada com a própria rotina.

 

Depois de pães queimados e leites derramados - não choraram. Riram. Ela – prática –avisou. Vamos tocar o dia. Boa sorte no seu. Ela de cá respondeu. Sim. Muito boa sorte no seu também. E no silêncio da comunicação teclada - se entenderam. E se despediram.

 

Pela primeira vez em tanto tempo – não reclamou. Estava feliz com o despertar cedinho. Achou até que já estava acordando tarde.

 

Riu. Imaginou o que diria o tal professor se tivesse assistido esta cena.

 

O dia seria muito bom. Sem dúvida. E imitou às avessas – e em homenagem – o conterrâneo dela.

Tudo fica bem – se começa bem.

 

Acabou a arrumação e saiu feliz.

 


Julho 18 2009

 

Tomou uma decisão. Vou separar as fotos.

 

E entregar cada pacotinho ao seu dono. Aos donos das respectivas imagens. Poderiam –eles - contar a história delas. Ou recontar o que escutaram sobre a história deles. Teriam uma prova documental diante de relatos. E a cores.

 

O ao vivo ficaria por conta das falas. Dos textos acrescentados. Das invenções encobridoras das falhas de memória. Mas tinha certeza. Nada ficaria sem uma resposta. No mínimo um acréscimo fantasioso.

 

Lembrou da avó de uma amiga. Não existe relato verdadeiro se não somar a ele uma fantasia menina, se não somar a ele uma fantasia.

 

Sentou ao lado das gavetas. Decidida. E começou a seleção.

 

Do mesmo jeito que veio a idéia veio uma sensação nova. Não diria estranha porque tudo era familiar. Apenas o tempo fez um contorcionismo. Virava de ponta-cabeça. Esticava membros. Saltava olhos. Pulava arcos. Assim se sentia a cada foto. Ria. Se emocionava.

 

Até cantou uma musiquinha diante de uma das fotos. Se surpreendeu.

 

Aquela música estava tão dentro das gavetas quanto aquelas fotos. Incrível. O que uma foto trás junto com ela.

 

Diante de algumas outras escapou uma lágrima fugaz. Secou rapidamente.

 

Não estava ali para isso. Estava para organizar. Metodologizar. Assim denominou a atitude. Tomara a decisão de forma pragmática. Esvaziaria um espaço. Abriria oportunidade para novos tipos de ocupação. Dos tais espaços. E assim se auto-recriminou. Por lágrimas. Afinal nem havia motivos. Fotos são sinais de vida. De vida festejada. Por isso registrada.

 

Em meio às fotos lembrou-se dela.

 

Era uma fotógrafa especial. Uma amiga também especial. Diferenciada. Via cores extras no arco-íris. Vivia analisando fotos. Desvendando mistérios pelas posturas nas fotos. Analisando contextos familiares.

 

Não havia foto que ela não lesse de uma outra forma. Nunca em cima do que estava registrado. Se era foto de família ia logo avisando - este gosta mais deste do que daquele. Olha a inclinação da cabeça. Pende para o lado dele. Se era uma foto solitária ou diante de algum ponto turístico - também informava. Olha o jeito das mãos. Está um pouco decepcionado com o que viu. Ou, observe o riso. É tímido.

 

E assim ela ia analisando mais que vendo.

 

Sempre fora divertido ver fotos com ela ao lado. Se era um lugar mais formal, sentia um olharzinho discreto. Cúmplice. E já sabia. A análise estava a todo vapor. Mas respeitava o pudor alheio. Ou a cegueira alheia. Que cada um desvendasse suas fotos. Ou fotografasse seus mistérios. Quando ela o fazia – quando ela fotografava, mais se compadecia do que se divertia. Via sob a lente - a nudez da alma de cada um. E sofria pela imensa pobreza do humano. Pelas vezes que se cobria de panos - para ficar a nu. Ou que percorria fotografando o mundo – porque não sustentava fotografar a própria casa. E por aí seguia.

 

Interrompeu o pensamento para tomar mais uma decisão.

 

Metodologia nunca fora seu forte. Deixava que as coisas se amontoassem na ordem dita espontânea. Alguém uma vez sugeriu um termo nada sofisticado. Bagunça. Não se ofendeu. Sorriu. Procedia.

 

Entendia um pouco a vida assim. Sob o viés deste termo nada sofisticado. Ao menos assim parecia fazer com a sua própria. Riu de forma resignada.

 

Estivesse a amiga fotógrafa ali e lá se ia mais uma análise selvagem.

 

Tentou primeiro separar por fases. Depois desistiu. Achou melhor por lugares. Desistiu de novo. Talvez mais certo por tamanhos.  Não deu certo. Já estava até se irritando com a idéia. Ou com a forma de agir com a idéia.

Recusou a irritação. Aceitou a organização. Em parte.

 

Levantou. Pegou duas grandes sacolas. Amontoou as fotos. Colocou-as sem divisão. E sem ordenação alguma.  Dentro das sacolas. Considerou a mais sábia dentre as mais sábias das decisões.

 

Como se sentira assim. Tão poderosa. Ela organizando fotos que entregaria aos seus donos. Absurdo. Prepotência. Entregaria assim. Do jeito que estavam. Em sacolas. E que cada um organizasse e dividisse de acordo com sua intenção. Com a sua invenção. E acima de tudo com sua própria idéia de ordenação e posse.

 

Quando levantou que notou. Estava cantarolando ainda a tal música engavetada.

Sorriu tranquila.


Ficara com a parte que lhe cabia.

 

 


Julho 16 2009

E de repente, aqui sentada, me deu um estalo.

Estalo.

A palavra certa. Tão rápida que a conclusão veio. Fez até um barulhinho.
Passei a mão nele. Senti. Pensei. Eis aqui um verdadeiro amigo. Fiel. Estável. Incondicional.

Comecei a lembrar. Das incontáveis vezes que fiquei com ele. Inúmeras lembranças me ocorreram. E sei que ainda estou sendo injusta. Muito mais deve ter me feito de companhia.

Lembro quando chegou. Foi logo se integrando ao novo conjunto.
Incluía todo tipo de perspectiva.
Fez-se de belo e esnobou o espaço. Ficou imenso. Mas ficou em seu quinhão. E dali só era movido em raros e especiais momentos. De busca. Digamos assim.

Escutou muitos risos. Risos de festa. De alegria. Lembro de algumas festas. Tão ativamente participou. Embora passivo parecesse.
Em uma estava de roupa nova. Cheirinho de talco.
Todos falaram dele. E falaram de si e dos outros. Diante dele.

Escutei alguém recomendar: não derrame o vinho nele. Cuidado. E o recomendado se ajeitou. De forma mais elegante. Para que tal transtorno não acontecesse.

Numa outra estava tão bonito. Todo branco. Muitos preferiram ficar de frente. Não se aproximarem muito. Sempre alguém cuidando para que não houvesse acidentes. Escutou histórias. Em vários sotaques e idiomas. Teve até briga em Inglês. Tudo diante dele.

Silencioso cedeu o espaço. A cada um dos conflitantes.

O tempo passou.
Com os risos e as lágrimas alternadas.
Tempos de mais risos.
Tempos de mais lágrimas.

Durante anos e anos. Mudou de aspecto. Mudou de espaço.
Mas sempre ali. Disponível.

Se na noite o quarto não permitia riso - era direto para ele que se caminhava.
Se os excessos acabavam com a certeza do percurso - ele era o primeiro a ser encontrado.
Se o caso era apenas um pouco de silêncio e penumbra - só junto dele existia esse lugar.

Não havia situação que ele não estivesse envolvido.

Negócios foram feitos diante dele. Ficou encoberto por fumaça. Cheirou a nicotina. Aceitou mãos tensas sobre ele. Até um tapa escapou certa vez.

Foi o único que sempre se manteve calmo.

Escutou promessas de todo tipo. Escutou desculpas. Desenganos. Enganos.

Foi daqui pra lá. De lá pra cá. Houve um tempo que esnobou o espaço. Outro em que se viu pequeno diante dele.

Conheceu gente que ficou por longo tempo e depois partiu.
Gente que ficou por pouco tempo e depois partiu.
E gente que chegou e jurou não partir.

Viu gente pequena crescer. Serviu de amparo para as perninhas que tentavam se deslocar. Trôpegas.

Entre idas e vindas. Continuou escutando. Todo tipo de emoção.

Foi aqui. Sentada. No meio da noite. No silêncio.
Que se deu então o tal estalo.
O que já falei antes. Não sei. Como nunca percebi isso.

Um fiel amigo. Viva o sofá da sala.

 


Julho 16 2009

 

Os anos passaram mesmo.

 

Ela nem se dera conta. Termo exato. Não contara o tempo. Os dias. As mudanças das estações. Não deu importância. Nem ao calendário lunar. Só ao que somasse ou multiplicasse. Esta uma forma segura. Ou uma tentativa bizarra. De não angustiar - pelo que não tem. Olhando apenas - para o que tem. Estava se sentindo adequada. Aprendera algo. Aprendera a seguir com os dias. Para a frente.

 

Se escolhera disfarçar a falta - nada melhor que viver de somar. E lá se ia.

 

Somava roteiros. Descobertas. Novidades. Até nomes de ruas.

Mas não é bem assim. Dias também se contam para trás. Porque são particulares. E cada um tem seu próprio calendário. Seu gregoriano de plantão. Como uma emergência providencial.

 

Ao abrir da porta - teve uma sensação estranha. Como se tivesse estado desmemoriada. Ou em estado de esquecimento. Durante muito tempo. Naquele momento se deu conta. Do tempo.

 

Estava bem mais atrás. Quando ela deu a ordem de saída. Seguiu a fila. Ainda no mesmo estado. Caminhava lenta. Compassada. Com olhar de rotina. Sem alardes. Sem manifestações. Não deu para negar um detalhe. Mínimo. Um súbito frio que escolhera o estômago. Dela. Como um posseiro. Impulsivo. Aqui vou estar.

 

Ela desconsiderou. Deveria ser o cansaço.

 

Chegou à porta. Diante da escada. Entendeu uma frase banal. Da tal luz no fim do túnel. Nunca viu tanta similaridade. E entendeu o tal friozinho posseiro.

 

Primeiro o cheiro.

 

O cheiro de mar. De maresia. De berço. De sereia. De fartura. Respirou forte. Como para despertar um sentido até já esquecido.

 

Naquele momento importava respirar. Respirar. Como o primeiro dos atos. Como o primeiro dos instintos. Lembrou de tudo. De tantos. De todos. De teorias. Isso numa única inspiração.

 

Até fechou os olhos. Os sentidos exigem – muitas vezes – privilégios. Concedeu.

 

Deu mais um passo. Sentiu a luz. Uma luz forte. Mas calma. Encheu todo o espaço. Os olhos não demoraram a se acostumar. Mas demoraram a acreditar. Como tinham conseguido compreender.  A distância da luz. E por tanto tempo.

 

Descendo a escada sentiu o calor. Na pele. Nos cabelos. Como um abraço. O calor contornava o corpo como uma manobra de revitalização. Emoldurando, despertava. Como uma aura festiva. Assim sentia.

 

Pareceu escutar um bem vinda.

 

Cercada pelo cheiro. Pela luz. Pelo calor. Decodificado todos os sinais. Na emoção. No corpo. Concluiu. Estou aqui. Como se a memória só naquele momento estivesse despertado. E aberto as suas gavetinhas. Expondo fotos. Marcas. Traços. A própria história. Desde sempre.

 

Obedeceu. Agradeceu.

 

Foi seguindo o percurso estabelecido. De vez em quando até fechava os olhos para sentir mais forte o cheiro. Depois abria os olhos com muito cuidado.

 

Como se assim pudesse separar cor por cor. Com lentidão. Para que nada escapasse. Ficara tomada de egoísmo. Egoísmo pelo puro prazer de quem retorna. Não sabia se havia esquecido aquela intensidade das cores. Ou se havia se defendido – acinzentando a tal intensidade daquelas cores. Tantas vezes o que parece - não é o que parece.

 

É muito mais fácil viver o prisma inteiro que um único ângulo.

 

Escutou sotaques. Regionalismos. Palavras que nunca mais dissera. Comportamentos que nunca mais tivera.

 

Recostou no carro. A cabeça um pouco para trás. E assim ficou. O tempo que o percurso durou. Virando com vagar para mais um detalhe. Ou para saber das ausências. Das mudanças. Das descrenças.

 

Foi retomando seu registro. Entendendo a própria presença. Se incluindo no estilo. Se re-compondo. Poderia sentir. Dizer. Repetir. Escutar. Sou daqui.

 

Olhou para todos os lados. Para todos os espaços. E respirou - tranqüila.

 

Por um período - estava de volta. Apertou forte a mão dele na dela. Sorriu.

 

 

 


Julho 14 2009

Daqui dá para ver com clareza. O gestual dele. O aspecto excepcional. A tranqüilidade de alguma forma adquirida. A ocupação de alguma forma conquistada.

 

Ficava ele ali. Na janela. Por horas. Brincando de bolhinha de sabão. Um potinho. O arco. E as bolhinhas se fazendo, voando e se desfazendo. Umas - maiores.  Outras - menores.  Não tem hora. Não tem turno. De repente ele começa a sua possível tarefa. Dentro da impossível ordem.

 

Sopra com delicadeza, embora o corpo seja forte e pesado. A cada bolhinha para e observa. Inclina-se um pouco para frente. Como um observador do percurso. Segue com o olhar. Talvez esta seja sua única forma de se libertar.

 

Diante de todo um contexto aprisionado.

 

Quem sabe expressa sua imobilidade assim. Pela mobilidade das bolhas. Ou se faz identificado. Pela curta mobilidade. Iguais a ele – elas também têm o caminho limitado. Ou o tempo. Mas diferentes dele – elas podem sair e voar. Mesmo que depois desapareçam. Como fora de si – e conduzidas pelo vento - partir.

 

Não parece ser importante o tempo de vida. Das bolhinhas. Mas o tempo de fabricação. Assim se pode chamar. O tempo que começam a voar por determinação dele. Libera as bolhinhas. Dá uma espiadinha. Vê a saída delas. E já retoma a produção. E repete o gestual. Por horas. Calmo. Sereno.

 

Como deveria ser todo autor. Diante da própria produção.

 

Houve uma vez uma festa de Natal. Podia se escutar as vozes. Os barulhos. Observando bem podia até escutar o olhar dele. O olhar vibrava. Ansioso pelo presente. Mexia as mãos. O corpo dançava um para lá e para cá com ritmo compassado.

 

Entregaram.

 

Alguém veio. Abriu bem a janela. Ele acompanhou. Prepararam. E ligaram a máquina. Uma máquina de fazer bolhinhas. Assim. Prática. Ligava e elas saiam. Simples. E numerosas. Saiam aos montes. Muitas. De uma só vez. E voavam pela janela a fora. Com altivez. Independência. E com um barulho próprio. Uma mágica ao alcance de um aperto de um botão.

 

A princípio ele olhou. Parado. Nem ergueu as mãos. Nem acompanhou com o olhar.

 

As bolhinhas saíram pela janela e ele entrou para a sala. Assim. De imediato. Como um ballet sem música. Sem tempo de perdas. Mas carregado de perda de tempo. Com sincronicidade. Mas sem simultaneidade. Assim ficou diante da máquina. Que independia da vontade dele. Que substituía sua rotina por um aperto de botão. Não sabia como lidar. Parecia temeroso. Como se tivesse perdido o controle. Da sua vida. Da sua janela.

 

Não comandava mais. Havia uma validade na quantidade. E a ele agora não mais pertencia. Vivia sob controle. Agora perdera seu único comando.

 

Assim parecia expor. Com a saída da janela. Com o descaso com as bolhas soltas. Dispersas. Aos montes. De repente deu as costas para elas. E sumiu para dentro da casa.

 

A máquina, solitária, lá ficou por um tempo obedecendo ao botão.

 

Parou de brincar. A janela se fechou. Não mais aparecia.

 

Um dia a janela foi aberta. Ele veio feliz. Parecia feliz. Com o potinho. O arco.

 

Mas algo se modificara.

 

Antes já chegava libertando as bolhinhas. Desta vez - primeiro olhou. Em volta. Para cima. Para baixo. Para os lados. Até para dentro da casa. Segurava o potinho com um gesto protetor. O arco entre eles. Apertadinho na mão. Talvez buscasse a traição. Ou o descontrole. Parecia procurar pela ausência, muito mais que pela presença. Buscava uma certeza. Talvez tenha aprendido que até as certezas oscilam. E nem sempre estão do lado favorável.

 

Depois de todo esse cuidado colocou o potinho na murada. Acariciou o arco. Mergulhou no potinho. E sorriu. As bolhinhas saíram pelo mundo afora. De novo. Mas desta vez sob sua orientação. Sob sua guarda.

 

E manteve a produção de acordo com a própria vontade. Exibindo no rosto a expressão feliz de quem cria. Mesmo que depois perdesse o controle. Não importava.

 

A criação é mais importante que o prazo da entrega. Ou da durabilidade.

 

 


Julho 12 2009

Ela me telefonou. A noite mal se instalara. E ela agia como madrugada afora.

 

Passara a semana toda pensando o que fariam. Na sexta. Mil programações.

 

Tinham duas comemorações pessoais. Acreditou. Ele viria mais cedo. Para comemorarem.  Organizou o roteiro. Escolheu os cardápios. Organizou o vestuário. Seria uma noite festiva.

 

Fazia tempos que eles não tinham tantos motivos. Para festejo. Para celebração. Sim. Esta a palavra certa. Celebração. Decidiram por celebrar os bons acontecimentos da semana.

 

Quando me telefonou estava emocional. Passional. Parecia filme italiano. Podia ate vê-la gesticular.

 

Ri baixinho. Não queria provocar mais emoções fortes. Quando ela se desacreditava ela se descomprometia. Com o mundo. Com as etiquetas. Com as regras.

Parecia que entrava em narcose. Porque todo o jeitinho calmo e suave se transformava.  Em explosão.

 

Lembrei a minha avó. Ela dizia sempre. Cuidado com as pontuações, menina, cuidado com as pontuações. Nunca vi ninguém que se adaptasse tão bem ao tal aviso de alerta.

 

Falava sempre doce. Com vagar. Nas frases dela continham de tudo. Desde hífen até exclamações. Mas tudo muito suave. Compassado. Parecia uma harpa. Com toda a leveza musical. Como um dedilhar pelas cordas.

 

Até a hora que se desacreditava.  Ai sim. Nem toda bateria faria tanto efeito. Era um ressoar de múltiplas sonoridades. Simultâneas. Sincrônicas. Um outro tipo - de pontuação - surgia.

 

Uma amiga a tinha convidado. Teriam um encontro para um café. Um vinho. Qualquer líquido acessório. Cancelou. Cancelou. Ele avisou que viria cedo. Preferiu esperar por ele. E não fazer encontros com pressa.

 

E ficou sozinha em casa.

 

Nem acreditou. Depois daquela semana só de problemas. Tudo bem. Nem lembrava mais se tivera problemas. Mas isso não importava. Assim foi logo dizendo. Quando perguntei pelos problemas. Importava que ficara só. Numa noite de sexta.

Dormiria sozinha. Conversaria sozinha.

 

Já estava na fase da bateria. Esta é uma fase onde só produz sons. Não escuta sons. Mais ou menos assim.

 

Mas houve um segundo de silêncio. Um segundo bem fugaz. Por onde pude dizer uma palavrinha. Uma frase. Por que não deixa para reavaliar amanhã. Nada melhor que o dia seguinte. E ainda é cedo.

 

Não respondeu. Ou melhor, não deu tempo de responder. Acho. Porque de repente escutei um som estranho. Algo como um gritinho. Um risinho. Difícil decifrar sons ao telefone. O som seguinte foi um estalinho.

 

Ela voltou a falar com uma voz doce. Aquela de sempre. A pré-bateria. Ele voltara. Não atrasara muito. O trânsito que atrapalhou a pontualidade do relógio. Não a dele. Até contou isso rindo. Estava cheia de graça. Graça até demais.

 

Antes de desligar escutei a explicação. Dela para ele.

 

Foi ela que estava preocupada com você. Ainda me perguntou se eu não me desconfortava. Por você marcar e não vir. Ou por estar em festinhas com suas colegas de trabalho. Imagina. Logo você. Sempre cuidadoso. Afetuoso. Coisa de amiga. Eu estava apenas lhe esperando e lendo. Quando ela telefonou.

 

De novo o som seguinte foi um estalinho. E o telefone foi desligado.

 

Do lado de cá – ou de lá – pensei. Preciso comprar uma tuba.  Vamos ver onde a harpa ficará nesta orquestra.

 

 


Julho 10 2009

A frase veio com néon. Assim ficou. Penduradinha. Brilhando. Questionando sem pudor. Nem constrangimento. E com insistência.

 

Sim. Outros pensamentos vieram - mas ela não saia. A tal frase. Não respeitou ordem. Não aceitou um mais tarde. Muito menos um logo depois.

 

Até um desapareça foi ensaiado.

 

Nada resolveu. Ficou.

 

Parecia decidida a ter uma resposta. Ou uma conclusão. Alguma solução teria que ter. Mas dali não se retirava.

 

Ficara o dia todo. Desde o despertar. Até deve ter sido a causa do despertar. Foi começando meio sem brilho, meio enevoada. Formulada em sílabas separadas. Com o despertar completo parece que se incorporou. Encheu-se de força e poder. Sim. Muito poder. Só este excesso de poder para vencer as abstrações. Aliás, só um excesso de poder para desconsiderar constrangimentos.

 

Podia-se até recordar as palavras do mestre Francês. Ele dizia que não entendia. Como se sabia que o pensamento vinha de dentro. E não de fora.

 

Eles são assim. Só jogam o indecifrável. O mestre austríaco queria desnudar a alma feminina. O mestre francês queria desacreditar o pensamento.

 

Enfim. Nem mestre austríaco. Nem mestre francês. Nada afastou a tal frase. Continuou ali. Brilhando a sua pergunta. A interrogação parecia bem maior que a frase.

 

Lembrei a minha avó. Ela sempre repetia isso. Como um alerta. Não tem pergunta que a formulação seja maior que a interrogação, menina, que seja maior que a interrogação.  

 

Em determinados momentos a interrogação se destacava. Em outros a frase sobressaia. Mas olhando atentamente. Não havia uma frase com uma interrogação no final. Na realidade havia uma interrogação arrematando uma frase. Pode parecer igual. Mas não é.

 

Como se faz para des-impregnar a retina.

 

Esta a pergunta. Esta a interrogação.

 

Passa-se a vida toda impregnando. De imagens. De cores. De situações. Todo um novo conceito apreendido. E fixado na retina.

 

Começa-se por imagens. E por imagens se termina. Mais ou menos assim.  

 

Em meio a elas permeiam as letras. As cores. Os brilhos. As nuances. Os adereços. Mas as imagens sempre lá. Tudo o mais gira em volta delas. Das imagens. Nomes. Endereços. Até números de registro. Estilos. Sons.

 

Inclusive o da voz.  Quantas vezes se repetem. Posso até ver. Quando fala assim - sei bem o jeito. Até quem não pode ver. Vê pelo tato. E compõe a imagem. Sabe quem é pela imagem táctil. Mãos e retina se fundindo num só arquivo.

 

A imagem autoriza. Desautoriza. Repete. Há uma genética envolvida. Uma exacerbação. Um desafio. Não se lembra de mim. E a resposta sempre vem rápida. Sim. Mas você mudou tanto.

 

Há todo um referencial pela imagem. Ela vai acompanhando, na retina - as mudanças. Ou a retina vai gravando as mudanças – na imagem. Como um jogo de slides. Mas personificado. Para cada um – seu estojinho de slide.

 

Para cada um – a retina individual faz seu álbum.

 

Como se faz para des-impregnar a retina.

 

Se a imagem desapareceu. Como ensinar a retina a não mais procurar. Como se apaga um entalhe cinzelado. Como se treina ao contrário uma retina.

 

A pergunta ficou. E ficará.  Por um tempo. Como a busca da imagem.

 

Mas introjetará algum dia. Por certo. Assim se espera. Neste dia a frase apagará o neon. O poder se fará compreensão. E a interrogação se fará um ponto. Final.

 

Com mais tranqüilidade a retina aceitará. A resposta.

 

A impregnação é para sempre. Mas não para o cotidiano.

 

 


Julho 08 2009

 

Não pude deixar de lembrar o poeta. Aprendi. A entender os poetas.

 

Eles devem ser uma obra pessoal do Criador. Vêm em nosso auxílio em momentos que não adivinhamos. Com seus versinhos delicados. Com sua forma singela de escrever. Deixam ali. Escritas. Gravadas. Suas mensagens.

 

Nada demandam. E tanto oferecem. Entendem da dor. Do amor. Da saudade. Deixam seus recadinhos. Modestos. Para que possam ser utilizados nos momentos adequados.

 

E que cada um escolha o seu verso. Já que dos momentos - não se tem escolha.

 

Nunca amei tanto os poetas quanto hoje. Nunca me curvei com tanta deferência diante deles.

 

De repente do riso fez-se o pranto.  

 

E uma enorme tristeza veio. Ocupou – ou tentou ocupar - um espaço bem menor do que ela. Faltou corpo. Faltou alma. Para dar conta de tanta dor.

 

A notícia veio rápida. Ela se foi. Passava no momento errado. No lugar errado. E se foi. Assim.

 

Não parecia verdadeira. Não parecia possível. Parecia com nada.

 

Só a memória iniciou seu comando. Com a mesma rapidez. Fez-se dona da dor. Reconheceu e registrou a perda. De imediato. E comandou. Solitária.

 

É triste a perda da parceria das lembranças. Pode tudo ser recontado. Nunca mais, porém, partilhado. Ou compartilhado.

 

A história não se escreve com duas mãos. Ou com uma idéia. É escrita a partir de quatro mãos. E um povoamento de idéias. Se não - sobra história e falta documentação. Da possível ratificação. Falta o riso solto - eu também me lembro. Falta a lágrima solidária - eu também não esqueço. Falta até o simples diálogo - nós estávamos lá na época. Agora já não há mais com quem dividir. Ou duvidar. Ou esclarecer.

 

Assim as lembranças chegavam. Desordenadas. Fora de organograma e cronologia. E os versos dos poetas se interpondo. Como um trançado. Por onde a dor, se ramificando, também se amparava. Ou tentava se amparar.

 

Como recobrindo este muro tão rapidamente desnudado.

 

Veio à mente as palavras do escritor preferido. Ele - contras as intermitências. Do susto inadmissível pelas perdas. Talvez da complexidade de um luto. O susto teria que ser se não houvesse jamais a perda. Se viesse um aviso. Este aqui não irá.

 

Na época que li – pensei. Talvez numa briga egoísta e pretensiosa. Com um autor daquela dimensão. Ele escreve muito bem.  Mas entende nada de perda.

 

Sim. Pretensiosa.

 

Mas talvez tenha um adendo. A questão pode ser – também - outra.

 

Também. O saber desde sempre da futura perda não faz menor a vulnerabilidade. A nada. Talvez todo o saber aja ao contrário. Exista para isso. Para expor a vulnerabilidade. Quanto mais saber - mais vulnerabilidade. Como leitores de dicionários. Substituindo um por um dos mistérios - para multiplicar significados. E vice-versa.

 

Não o quando. Não o se. Mas o como. As tantas formas das perdas. Carregadas de mistérios. E mal completadas – já sobrecarregadas de significados.

 

Há um hiato. Entre o momento da partida e o momento da perda. Não é igual. São momentos registrados de formas diferentes. Antônimos.

 

A toda perda corresponde um excesso. De silêncios. Do que não foi dito. Do que não foi confirmado. Até de um tempo perdido. Uma angústia se somando à outra. Na individualidade da solidão. As desculpas. As culpas.

 

Como se simples operadores de registros todos fossem.

 

O que faltou dizer, se transforma em companhia. Em relatos.  

Como uma necessidade para que o luto possa se processar. E a manhã possa continuar.

 

E até mais, minha querida amiga.

 

 

publicado por Lêda Rezende às 22:45

Julho 08 2009

Acordou no horário habitual. Com a reclamação habitual.

Já. Nem vi o tempo passar. Nem vi o sono passar. Nem deu tempo de sonhar.

 

Isso é um absurdo. Um contra-senso.

 

Os sonhos já devem estar fazendo fila para poder sair. Vai ter sonho atropelado. Empurrado. Ou, quem sabe, caidinho fora da fila. Até os sonhos - sempre tem algum deles mais esperto. Outro mais lento. E vai vencer o mais sábio. Ou o mais amadurecido. O amadurecido observa mais tranqüilo. E sempre chega na hora acertada. Sonho jovem sempre é impetuoso.

 

Deve ser assim a formação do pesadelo. É apenas uma falta. De logística. De hierarquia. De ordem na saída. De respeito na fila. Enfim. Assim se constróem os pesadelos. Da falta de liberação organizada.

 

Mas assim fazia. Todos os dias. As mesmas queixas. Desta vez uma pequena diferença.

 

Resolveu dizer isso a ele. Talvez para dar vazão aos sonhos impossibilitados de sucederem. Resolveu formalizar verbalmente a queixa. E naquela hora. Tão cedo.

 

E formalizou. Ou melhor, tentou formalizar. Se assustou. Nada saiu da garganta. Ficou a princípio preocupada. Seria por conta do amontoado de sonhos. Alguma sufocação por excesso. Sonhos reunidos impedindo a realidade. Dava até para ser slogan.

 

Repetiu. Nada de novo. Simplesmente assim. A voz não saia. Não saia.

 

Tocou nos lábios. Precisava ter certeza de que se moviam. Sim. Moviam com segurança. Mas a voz não saia.

 

Ele dormia feliz e ausente de toda aquela mais nova alteração.

 

Acordara sem voz. Vai lá saber exatamente por que.

 

Lembrou. O dia tinha sido terrível.

 

Se somasse as horas de fala sem parar dariam quase sete horas. Explicara métodos. Avisara riscos. Complementara orientações. Recomendara prudência. Lembrou até de uma orientação filosófica. Disse a ela. Melhor relatar apenas o que fez e o que viu. Se externar opinião já virou pessoal. Lembre-se disso. Não esquecia o olhar dela. No início tão feroz. Olhar de salto alto. Depois tão temeroso. Olhar já de chinelinho. Enfim.

 

E ainda teve aquele telefonema. Tarde. Bem tarde. Ficou tensa. Com ela. Sabia dos perigos. Das causas e até dos efeitos. E se confirmasse. Como poderia ajudá-la. As dores da alma se somando às dores do corpo. Dela. Delas.

 

Lidou com idiossincrasias. Verossimilhanças. Teve de tudo. Só podia dar nisso.

 

Chegou de volta no final do dia. Cumpriu todo um ritual. Já estava até se acostumando. Era algo que detestava. Viver de véspera. Mas como o dia começava muito cedo não tinha opção. Ou o dia começaria mais cedo ainda. Fez o que tinha que ser feito. Organizou o dia seguinte.

 

Foi assim que adormeceu. Depois de um dia intenso. E um ritual cumprido.

 

Quase um cochilo. Foi nisso que pensou quando acordou. E recompôs toda a

véspera.

 

Riu. Na véspera reclamava. De viver de véspera. Agora reclamava. De viver do dia anterior.

 

Não deve ter sido à toa. Que acordara sem voz. Tentou novamente falar com ele. Desistiu. A voz não saia. Assunto encerrado.

 

Saiu ela - então. De corpo inteiro. Ou quase inteiro. Pensou. Se a voz emudece – o corpo cala. Mas não tinha certeza disso. Nem do contrário. Concluiu. Sem voz e sem sonho – a vida fica mais complicada. Riu. 

 

Seguiu os tais trilhos. Sem bondade e sem voz. Sem sonho. Mas com sono.

 

Enfim algo tinha. Não estava esvaziada de tudo. Tinha sono. Muito sono.

 

Com o passar do dia a voz deu algumas notas de presença. Tímida. Mas audível. O sono se foi.

 

Na volta para casa riu. Eis um dia diferente. Não dá para reclamar pelo menos de uma coisa. Monotonia. Isso jamais.

 

Torceu por muitos sonhos. Nesta noite.

 

 


Julho 07 2009

 

Decisões são da ordem da auto imposição. Assim fez. Nem bem tomou a decisão e já pôs mãos à obra.

 

Termo bem adequado. Parecia uma obra. Uma construção.

 

Já acordou pensando. Vou arrumar os livros. Nem sabia explicar por que a decisão. Detestava arrumação. E por um motivo simples. Bem simples. Detestava ver a desarrumação que uma arrumação provocava.

 

Alguém havia lhe dito. O por que desta reação. Lembrava, certamente, a desarrumação interna. Como um espelho. Por isso se angustiava.

 

Na época até ficou atenta. Agora decidiu deixar a interpretação de fora. Ao menos naquele momento. Mal dava conta da idéia. Imagina da etiologia da idéia.

 

Riu e prosseguiu na decisão. Cedeu a este primeiro pensamento do despertar. Se tinha um motivo – descobriria.

 

Começou pela estante da frente. Alguma ordem tinha que ter. Para enfrentar a desordem. Escolheu a ordem decorativa, digamos assim.

 

Auxiliada por um paninho, álcool e óleo para couro – lá se foi. Se sentiu uma restauradora daquele famoso Museu. Não faltou nem a máscara descartável. Afinal. Nem só de restauração vivem os alergistas. E vale mais uma vez o contrário. Em parte.

 

Uma idéia realmente de mosteiro. Estilo auto flagelação.

 

Parecia ter tido um começo. Em algum momento começou. Mas confirmava nunca ter fim. Em algum momento assim pensou. Sim. A cada livro retirado para ser adequadamente catalogado – uma nova fileira tinha que ser remanejada.

 

E quando remanejava e dava por encerrado - descobria um volume perdido. Que pertencia justamente – à prateleira que já tinha encerrado. Foram muitas idas e vindas. Sobe e desce. Desvira e vira.

 

Já mais calma resolveu – vai lá saber também por que - abrir os livros.

 

Viu que todos – ou quase todos - tinham datas. E local onde os comprara.

 

Alguns até com dia e hora. E a estação do ano. Até riu. Nem lembrava mais - assim fazia.

 

E assim fez por muito tempo. A cada livro comprado registrava. Os dados do dia da compra. Até o boletim meteorológico. Riu de verdade. Mas não deixou de achar muito boa a idéia. Congratulou a si mesma. Em um deles viu que tinha escrito. Primavera sem flores e com muita chuva. Viu o ano. Será que fora mesmo. Ou seria ela que estava se sentindo assim. Deveria ter anotado melhor. Em um outro estava lá. Dia de sol, final da tarde - a livraria estava vazia. Novamente não sabia se era a sensação dela com ela mesma.

 

De repente caiu um papel. De dentro de um outro volume desgarrado. Amareladinho. O papel. Meio amassadinho. Ou melhor, enrugadinho. O tempo não poupa nem os papeis, pensou.

 

Lembrou daquele poeta. Ele falava isso num poema. De um papel amarelado encontrado num livro. Mas que rasgara sem abrir e ler. Não queria mexer com o passado. Mais ou menos assim, pelo que recordava da poesia.

 

Fez diferente. Abriu. E leu.

 

Era um bilhetinho dela. Avisando que tinha adorado a temporada que tinha passado lá. Que fora muito bem acolhida. E que a adorava muito. Que se sentiu fazendo parte real da família. E que estava com saudades.

 

Quase chorou. Incrível. Ela agora estava casada com ele. E fazia realmente parte da família. E escreveu esse bilhetinho ainda tão criança.

 

Foi em meio a tudo isso que teve uma luz. E que luz. Tirou até a tal máscara. Melhor espirrar que sufocar. Quando a luz vem é preciso se estar exposta. Ficou até de pé.

 

Estantes. Uma real autobiografia. Ou uma prova autobiográfica. Os próprios livros. Estes que se compram e guardam em alguma prateleira. Os lidos e até os não lidos.  Porque são resultado de uma escolha. Denunciam a evolução. A formação do pensamento. De época em época. O crescimento emocional. Não importa o estilo. Importa esta composição.

 

Pelas datas relembrou lugares. Pessoas. Estados de espírito. Movimentos. Ideologias. Filosofias. Entendeu as que ficaram. Compreendeu as que se foram. Assimilou as que se construíram. Avaliou as que sucumbiram.

 

Olhou para os livros como para si mesma. Passou a mão de leve pelas capas. Leu com carinho seus registros. Foi assim organizando - com súbita tranquilidade - toda a estante.

 

Entendeu o próprio pensamento.

 

Ali. Sentada. Diante da tal estante da frente. E de frente para a estante. Ali viu sua vida. Suas buscas. Seus achados e perdidos. E deu um riso particular. Para esta sua idéia ao despertar. Do despertar.

 

Procedia.

 

 


Julho 06 2009

Fiquei olhando para ele. Sentado próximo a mim. Quase em minha frente. Quase. Falando. Por horas.

 

Vi quando chegou. Foi pontual. Na hora agendada – estava lá. Era o que parecia. Estar lá. Deveria conviver com aquele grupo há muito tempo.

 

Havia uma certa desenvoltura no caminhar entre eles. E todos o conheciam. Mas poucos se dirigiam a ele. Ou poucos ofereciam um espaço a ele. Ele cumprimentava efusivo. Exagerado - até poderia se dizer. Recebia de volta um riso social. Formal e polido. Mais ou menos assim.

 

Não sentou. Circulava entre o ambiente. Os passos fortes e rápidos. Mais fortes e rápidos que a situação solicitava. Carregando, sobre os sapatos, o verniz escuro da ansiedade.

 

A postura lembrava a de uma emergência. Como se tivesse vivendo um prazo a expirar. Passava de um canto a outro. Da porta à janela. Da janela à porta. Seu corpo parecia saído de uma dança flamenca. Esguio – mas exausto.

 

Esta a idéia que sugeria. Girava sobre si mesmo. Olhava para os lados. Para cima. Para baixo. Dava uma idéia de agitação. Muito mais interna que externa. A externa apenas coreografava a interna.

 

O olhar seguia o ritmo dos passos. Da dança. Cansado. Mas curioso. Olhar ávido. Ávido por retorno. Ávido por espaço. Ávido – talvez muito mais - por espelho. Mas era um olhar ambíguo. Como os passos. A busca parecia já vir com a certeza. Parecia conformado. Como se soubesse desde sempre o acolhimento que teria.

 

Comecei a entender. Atuava para si mesmo.

 

Ainda tinha o riso. Vez ou outra escapulia. Um riso alto. Frenético. Mas parecia ter o fim determinado. Como se o riso não tivesse destinatário. Era apenas uma obrigação do remetente – para o remetente. Os lábios continham o riso com a mesma força e rapidez dos passos.

 

Por fim escolheu uma mesa. Fazia dos objetos - íntimos companheiros. Acariciava a caneta. Dobrava e desdobrava o guardanapo. Percorria os dedos pelo copo de cima a baixo. Passava de leve os dedos pela toalha sobre a mesa. Assim - também - se amparava. Muito mais que nos passos - alegóricos em sua rapidez. Ou no olhar - míope de si mesmo. Menos ainda no riso aleatório.

 

E tão rápido quanto a escolha - começou a falar. Começou a expor.

 

Sentou-se diante deles. Ofereceu-se como um totem. Desfilou tabus.

 

Lembrei o mestre austríaco. Teria se encantado. Ou se desiludido de uma vez. Vai lá saber. São muitas as nuances da interpretação. Cabem – sempre - todos os tipos e gêneros.

 

Falava a idéia e contrapunha – sozinho - a idéia adversária. Fez um diálogo monologado. Ou um monólogo dialogado. Diante de todos. Discutiu. Concordou. Discordou. Recitou. Foi enfático em alguns momentos. Depois eufêmico por poucos instantes. Em seguida alheio. E repetia – quase matematicamente - esta sequência.

 

Sugeriu grifes. Citou filósofos. Redesenhou telas. Criticou conceitos. Exortou preconceitos. Ofereceu banquetes. Em nome da audiência. Fez da retórica uma dialética. E vice-versa. Desafiou paradoxos. A dança parecia não mais ter fim.

 

Alguém tentou um aparte. Ia discordar. Começou a fala com a palavra não.

 

Incauto. Ou inocente. Não se desafia um totem. Corre-se o risco imediato de ser imolado.

 

E assim foi. Não acabou de registrar a primeira nota e a regência se fez violenta. Alterou o tom de voz. A salada quase saiu do espaço que a continha. Uma taça balançou. O guardanapo encolheu.  

 

A vítima se recolheu. Se acautelou.

 

Notei que a mulher que o acompanhava apertou-lhe o braço. Num sinal de alerta. Sempre atentas. As mulheres. Não deve ser à toa que a preservação da espécie gira em volta delas.

 

Olhei para ele mais uma vez. Desta vez de forma bem mais disfarçada. Temi por outra imolação.

 

Diante da fala. Dos gestos. Dos objetos acariciados. Da luz do sol que vinha da janela. Diante de tanta citação. De tanta teoria. Não me lembro. Jamais. De ter visto alguém mais triste e solitário.

 

E o imitei. Concordei comigo mesma. Igual a ele. E desta forma me fiz mais próxima. Mesmo silenciosa. Tentei diminuir a solidão dele. Ao menos diante de mim para mim. Novamente igual a ele.

 

Conclui. Melhor mudar de mesa. Levantei e ri. Desta vez de forma bem menos disfarçada.

 

Ele me olhou - não devolveu o riso. O almoço acabou. Sai pensando. Se a solidão tem culpa. Ou desculpa.

 

 


Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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