Blog de Lêda Rezende

Maio 23 2009

Não vou dizer que foi um susto. Susto agora tem uma nova conotação. Pelo menos para mim. É sempre bom. Ou prenúncio de coisa boa. Mas enfim. Poderia dizer que foi um mau momento. Aconteceu no segundo exato. Eu caminhava e ela falou. Uma sincronicidade.

 

Estava subindo a ladeira. Caminhando. Calmamente. Para ir cuidar daquele comum pecado capital. Afinal a festa estava quase na hora. E eu estava quase na hora da festa. Algo por aí. Talvez um excesso de sincronicidades. 

 

Escutei um tom irritado. Vi um braço masculino parado de lado de fora. Do carro. O carro estacionado sob a sombra de uma árvore. Talvez uma busca cuidadosa do invisível. Nem bem pensei isso e escutei.  Ela falou bem alto.

 

Não parecia preocupada com a sombra. Nem com a árvore. Muito menos com o invisível. Gritou de dentro do carro.  Se eu soubesse. Se eu soubesse que você não ia largar dela. Eu não teria nem começado. Falou assim. Com o fôlego semi-interrompido.

 

Ele nada respondeu.  Aumentou o volume do som do carro. E a música se fez maior. Não sei se da dor dela. Mas por certo do constrangimento dele. Ou do temor de ambos.

 

Estavam impostos muito mais que expostos.

 

Talvez ela tivesse perdido a cautela. Ou dispensado a prudência. Ou ele dito meias palavras. Ou meios sentidos. Ou tudo isso em vice-versa. Inclusive a posse da fala e do silêncio. Nunca se sabe.

 

Ultimamente tenho me dado conta das metades. Sempre assim.  Metade exposto - metade oculto. Esconde o rosto – expõe a voz. Sombras meio rabiscam – meio apagam. Metade culpa – metade prazer. Ou quem sabe, metade larga – metade fica. Metade aliança – metade promessa. Ou metade queixa – metade silêncio.

 

Subi a ladeira.  Lembrando a minha avó. Ela sempre falou. Silêncio é opção, menina, silêncio é opção.

 

Antes de virar a esquina olhei para trás. Sei que não se deve olhar para trás. Teve gente que até pedra virou. Por causa disso. Mas não consegui. Enfim. Um pecado sempre puxa outro. Até ri quando pensei isso. Não me contive. Olhei.  O braço dele já não mais aparecia. Estava para dentro da janela do carro. Desta vez o braço dela estava para fora do carro. Gesticulava com força. Como uma dança. Solitário. O braço. Subindo e descendo. Os dedos apontando. Negando. Afirmando. Pelo espaço pequeno da janela dançava toda uma angústia. Uma coreografia do desalento. Por um instante ficou meio caído. Por sobre a porta. Para depois reiniciar a dança. Talvez de um saber mal conduzido. Ou mal creditado. Ou bem exigido. Vai lá saber.  A mão parecia escrever o texto no vento. Sob a sombra da árvore.

 

Entrei. Fui cumprir o objetivo.

 

Na festa sentamos perto do cortejo. Os sinos tocaram. A porta abriu. Ela entrou. Feliz. Rindo. Caminhava com delicadeza. De acordo com a música.

 

Mas o riso era mais forte. Que a flauta. Que os violinos. O riso dela tinha toda uma música própria.

 

Encerrou a cerimônia com uma frase. Que se beijem agora. Pela primeira vez depois da celebração. Em público.

 

Estavam expostos muito mais que impostos.

 

Depois do tal beijo público, rindo, ela olhou em volta. Ergueu o bouquet. Como se ergue uma taça. Mas com muita suavidade. Como sinal de vitória. De conquista. Ele sorriu surpreso do gesto. Mas acompanhou. Ergueu o braço dele também.

 

Lembrei da moça da sombra. Da dança solitária e forte da mão. Do gesto riscando o vento. A mão dele recolhida. Sem movimento.

 

Não pude deixar de recordar a frase do mestre austríaco. O que não se revela pela fala, se denuncia pelo gesto. Há toda uma leitura possível.

 

Também pela alegoria das mãos - as dores e os amores podem sempre ser lidos.

 

 


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