Blog de Lêda Rezende

Maio 06 2009

Nem bem abri a porta e ela já foi logo entrando. Mais rápido ainda foram as lágrimas. Não falava. Só chorava. Com as mãos no rosto. Sentei ao lado. Não sabia o que dizer. Não sabia os motivos. São tão contraditórios os caminhos das lágrimas. Continuou chorando. Só toquei-lhe o ombro. Ela pôs as duas mãos no rosto. Como uma criança desamparada  

 

Decidi ir até a cozinha. E lhe entreguei um copo com água. Na hora foi o que me ocorreu. Assim. Num gesto automático.

 

Desta vez contrariei um pouco o meu amigo indiano. Ele sempre dizia. Se não sabe o que fazer – faça nada.

 

Mesmo não sabendo o que fazer, optei pelo copo com água. Um dia explicarei isso a ele. Quem sabe ele abre esta nova alternativa.

 

Ela bebeu. Quase que de uma vez só.  Assim. Com avidez. Pôs as duas mãos no copo. Como uma adolescente resgatada.

 

Foi um verdadeiro milagre. Parou de chorar. Conseguimos até rir. Ou melhor, eu consegui. Falei. Se era sede, não precisava chorar. Devia ter pedido. Já teria sido resolvido. Esboçou o que se poderia chamar de sorriso. Mas não foi adiante. Me desculpei.  Pelo gracejo inoportuno. Nada respondeu.

 

Começou a contar. O motivo. Muito além da sede. Embora não deixasse de ser também uma espécie de sede.

 

Ele estava mudando. Ela compartilhava. Cooperava. Solidarizava. E todos esses qualificativos. Que sempre se medalha em situações como esta. Como condecorações. Como se tudo não passasse de uma batalha. Interminável.

 

Assim parecia entender a parceria. Neste momento quase o choro voltou. Mas, se conteve. Muitas vezes as palavras não cedem lugar. E lá se vão saindo. Do jeito que podem. Impedindo outras saídas.

 

Ele não a convidara para a nova cidade. Ia se mudar sem ela. Sem  ela. Como isso podia acontecer. Não compreendia. Ela sempre avisara que também iria. Junto. E ele não a convidara. E já estava tão perto do dia. Da mudança dele. Ela nada podia fazer.Para alterar a mudança. Quase ri. Porque ela quase riu. Mas repetiu. Como isso pode acontecer.

 

Levantou. Caminhou. Parecia desatenta ao ambiente. Mas esbarrou em nada. Pôs as duas mãos nos bolsos. Como uma cega já treinada.

 

Repeti a minha mais nova sabedoria. Mesmo sem entender. Ofereci mais água.

 

Mas uma vez o efeito se repetiu. Cheguei a pensar que poderia ser o copo. Parecia um copo tão simples. Olhei para ele até com mais respeito. Vai ver era ele. O operador dos milagres. Conclui. Da próxima vez vou trocar de copo. Ou trocar de atitude.   

 

Sentei. Olhei para o copo – vazio. Em cima da mesinha. Tentei coordenar. Atos e fatos. Gestos e palavras. Nada parecia combinar. Ou vai ver estava tudo bem combinado. Eu que não conseguia entender. Talvez fosse um daqueles episódios de numeração de chances. Aliás, desconheço conta mais complicada. Não tem Aritmética que responda. Ou corresponda. Às vezes, a primeira chance já é a última. Outras vezes tem a terceira chance para depois possibilitar a segunda. Outras vezes, ainda, é no esgotar que a contagem recomeça. Vai lá saber.

 

Chance é da ordem do possível.

 

Seqüenciar é que é da ordem do impossível.

 

De repente o telefone dela tocou. Era ele. Convidava para almoçar. Juntos. Os dois. Num lugar que ela gostava. Ela sorriu. Levantou. Se recompôs. Ajeitou os cabelos. Agradeceu. Quando o elevador chegou, olhou para trás e sorriu. Segurou a porta com uma das mãos. Como uma senhora sofisticada.

  

Resolvi telefonar para o meu amigo indiano. Como uma ocidental desorientada.  

  

 


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