Blog de Lêda Rezende

Abril 08 2009

Desisti de evitar sustos. Nada resolve. Susto é parte integrante da vida. Só não toma quem já não faz mais parte dela. Ou o faz em outro nível. Mas nunca soube de algum relato. Se lá também se toma susto. Enfim. Susto é vida. Nada mais a acrescentar. Diriam os pragmáticos.

 

Fiquei assustada com a Palavra. Assim. Sem mais nem menos. Descobri o quanto a Palavra assusta. A congelada. A pretenciosa. A despretenciosa. A que tem entonação. Esta principalmente. Porque a entonação real é de quem escuta. De quem lê. Jamais de quem fala. Ou de quem escreve. Quem fala ou escreve está sempre do outro lado. Não sei qual. Mas de um outro lado.

 

Agora me lembrei dele. Tinha razão. Nada de colocar exclamação em poesia. Isso o outro quem faz. Correto. Corretíssimo. Quem escreve o faz à mercê. De quem lê. Isso faz da Palavra um objeto duplo. De desejo e de temor.  De quem gosta e de quem não gosta. Pode-se dar qualquer entonação. Pode-se até sentir proprietário da tal entonação. Mas nada. É coisa de locação. É dono só pela metade. Pela emissão.  A posse é realmente do outro. Pela omissão.

 

Há um poder em uma Palavra e em sua entonação. No ouvido alheio. Na estrutura alheia. Nas mágoas alheias. Pode dar em sim. Pode dar em não.  Pode até justificar um nunca pensei. Nem acreditei. Um apavoramento - estou pasma. Um extremo - estou saindo. Um chorado - adeus. Um aliviado - nunca mais. Um sorridente – adorei. Toda uma situação nova pode ser construída e reconstruída. E até muitos divãs preenchidos. De entonações. Se sobrepondo. Cada um jurando. Temendo. Se desculpando. Acusando.  Até sofrendo. Mas afirmando. O erro é do outro. A Palavra foi dita assim. E defender em causa própria. Não existe isso nas Palavras. Não existe causa própria.

 

Falam. Gritam. Num festival de entonações. Ninguém mais sabe quem falou.  Ou quem gritou. Nem por que. E acabam por desviar a atenção. Do objeto inicial. Como se a vida também corresse desta forma. Num estilo comissários-passageiros. No ar. Todos sempre tentando tirar um cinto da segurança. Para que possam correr atrás da Palavra sem segurança. Procede. É pela Palavra que surge a insegurança. Mas é nela que todos se seguram. Para se defender. Paradoxal e cruel.

 

Assim é a Língua. Feita para construir. Para compartilhar. Mas sempre presa naquela praga. Da torre mítica.

 

Nada a fazer. Com a Palavra mal soada. Ouvidos são – sempre -  egóicos.

 

Chorar não dá ritmo. Rir não dá bemol. Desconsiderar sim, pode dar em orquestra. Cada um e seu tom. Usando o seu instrumento da forma aprendida. Ensinada. Seguindo a sequência. Mas vai sempre acontecer um desafino. Um destoado. Mesmo que muito se ensaie. Nada poupa a Palavra dita. Não tem batuta que a oriente nas partituras da emoção. Nem dó de peito. Nem peito com dó. Cada um vai ter seu mestre. Sua maestria. Sua singularidade. Depositário das suas queixas. Das suas dores. Dos seus preconceitos. Das suas lembranças.

 

Lembro da minha avó. Não havia um dia que não repetisse. Pensa mais e fala menos, menina, pensa mais e fala menos. Sábia. Porque não há saída.

 

 A Palavra fica ali. Na ilusão de cada um. Do que foi claro - explícito. Do que restou dúvida – implícito.  Como se algo pudesse ser evitado. Se não hoje, se não amanhã. Dentro da complexa realização do que se diz. No até que a morte separe. Ou no que disse está dito. No eu falei primeiro. O que não faltam são frases falso-elucidativas. Palavra de honra.  Escreva o que digo.

 

Sem esquecer os mais crédulos. Avisam com voz segura. Entonação de força. Assino embaixo do que falou.

 

Nesta roda de letras se diferenciam homens e animais. Na natureza. Um tem a Palavra. Outro tem o instinto. Um a buscar “insatisfazer” as demandas. O outro a atender as necessidades. E cada um girando em volta da sobrevivência. Com ou sem Palavras. Como num grito de vôo com provérbios.

 

A Palavra sob Palavra. Como um pudor às avessas. E às pressas. Arriscada. Desafiada. Tentada. Com toda uma ética envolvida e constantemente burlada. Com gramática e sintaxe. Acentos e fórmulas. Por tudo isso – e para tudo isso - sempre surpreendente. Cercada de sustos e incoerências.

 

 


Abril 08 2009

Estava muito feliz. A viagem fora planejada detalhe por detalhe. Afinal, viagem que não é detalhada não é viagem de prazer. É tarefa. E o que ela menos queria era isso. Tarefas. Queria férias. E lazer. Com uma pitadinha de cultura. Nada de correria. Nada de olhar para a direita. Para a esquerda. Passou. Não viu. Perdeu. Agora é tarde. Quem sabe na próxima. Nada disso. Teria tempo para olhar para o lado que quisesse. Sem seguir ordens. Já bastavam as da rotina.

 

Entrou no avião.  Tinha escolhido esta companhia aérea para fazer já parte do estrangeiro. Nada de companhia nacional. Melhor já ir logo se sentindo em estilo velho continente. Direto para a cidade do seu mini-roteiro. A Cidade Luz. Concentrou-se. Respirou fundo. A viagem era tudo que ela queria. Nada poderia tirar a paz e serenidade que estava sentindo.

 

Enquanto o avião não decolava pegou uma revista. Sempre viajava com uma revista de palavras cruzadas. Tinha esse hábito. Viajava nas letras e nos quadradinhos. Para se sentir mais solta na imaginação. Assim explicava.

 

Esticou as pernas. Dentro do que poderia se chamar de esticar. Naquele exíguo espaço. Tinha outra mania. Melhor gastar em terra que no ar. Enfim todos a bordo. Portas fechadas. Comissários de bordo passando com calma. Olhando os assentos. Sorrisos cordiais leves. Sutis como o sotaque da cidade luz.  Cidade Luz.

 

Fechou os olhos. Descansou a revista no colo. Sorriu para si mesma.

Durou pouco esta etapa. Do sorriso calmo.

 

Primeiro ela deu um pulo. Depois um grito. Algo grudou em seu longo cabelo solto. E grudou forte. Sentiu também na pele do pescoço. Uma moça estava no assento do lado. Solidária, já foi fazendo dueto. Deu um estridente e longo grito. De repente um coral. As pessoas de trás gritaram. As da frente gritaram. Todos gritavam e pediam socorro dentro do avião. Algumas crianças choravam alto.  Senhoras pediam socorro. Pediam para sair. Pediam para abrir a porta. O avião ainda estava em solo.  As comissárias que já estavam em posição de decolagem tiraram os cintos às pressas.

 

Mas o algo ainda estava grudado nos cabelos dela. Parecia que tinha asas.

 

Porque pulava e embaraçava. E quanto mais pulava mais ela gritava. A moça do assento do lado pálida. Gritando. Tentava desatar o cinto. Nervosa, não conseguia. Lascou a unha. Gritou mais ainda. Enfim um comissário conseguiu chegar perto. Da autora do grito. Porque a esta altura ninguém mais sabia a origem. E o corredor estava com muitos de pé. Pedindo para sair. Outros rezando. Sempre tem alguém que reza. Não sei se por todos. Ou por si.

 

Um grito masculino. Destaca-se. Forte. Decidido. Ele gritou. É minha. Fui eu quem trouxe. Não a machuquem.    

 

Os comissários gritaram. Sentem todos. Outros responderam gritando. Saiam vocês da frente. Queremos descer. Veio co-piloto. Piloto. Ergue-se o homem do grito. Caminha por entre as pessoas no minúsculo corredor. Vai – decidido - com as mãos em direção ao pescoço dela. Uns gritaram. Está armado. Terrorista. Alguns se abaixaram. Poderia ter tiroteio. Mas ele não titubeou. Foi com as mãos nos cabelos dela. E agarrou. Com carinho. Por entre os cabelos. Embaraçada. Desesperada. Uma codorna. Uma codorna. Que ele levava escondido numa caixinha. Abrira para ver se estava bem acomodada. Não deveria estar.

 

A cena seguinte constava de um senhor acompanhado de um policial saindo do avião. Abraçado a uma semi-nua codorna. Dentro do avião os comissários repetindo o sutil sorriso.  As crianças recebendo brinquedinhos. Os pais doses de alguma bebida. Um refinamento com sotaque. Como se nada tivesse acontecido.

 

Ela quis pedir uma água. Não tinha voz. Na confusão rasgara a revistinha. Os cabelos em pé com a revoada. Entre penas e fios de cabelo ela lembrou um provérbio. Antigo. Algo como um na mão. Dois voando. Não lembrava direito. Começou a rir. Não parava de rir.

 

As pessoas reclamaram. Olharam feio para ela. Talvez um jeito de não serem olhados feio. Afinal todos gritaram. Pensou. Mas só ela era apontada. Enfim. Não importa. Importa a Cidade Luz. Mesmo assim fez a viagem toda de olhos bem abertos.  Os cabelos cobertos com um lenço.

 

E um risinho aqui e ali em meio a alguma turbulência que disfarçasse.

 

 


Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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