Blog de Lêda Rezende

Abril 30 2009

Começou a contar de repente. Tão de repente quanto a lembrança veio. Pelo menos assim conclui. Como dizia a minha avó. Jamais perca a chance de escutar as lembranças, menina, jamais perca a chance.

 

Lembrança é coisa séria. E muito mais séria se da infância. Porque é uma lembrança constituída. Construída. Esclarecida. E, principalmente, não compromissada. Assim são as lembranças da infância. Não nos deixa dúvida. E nos deixa em dívida. Com a nossa memória. Com os nossos prazeres. Que depois até se multiplicam. Ou podem se multiplicar. Mas nunca igual como na infância. Com aquela sensação plena de prazer. Que toda a infância envolve. Seja de que forma for. Não tem preço. Nem taxa cambial. Muito menos selo de made in. Tem que ver com entrega. Com aceitação. Com riso. Estes sim. Os indicadores do afeto. Como um mercado de afeto sem nota fiscal. Mas com o aval do olhar.

 

E ele contou. Quando se sentiu familiado. Assim mesmo. Familiado. Que nada tem que ver com familiarizado. Estava certo. Familiado é integrado. Juntado. Compartilhado. Familiado diz muito mais. Mesmo que não se fale assim. Não importa. Sente-se assim. E explica-se bem melhor. Pela primeira vez estava entre tios e primos. Entendi.

 

Lembrava da voz dela. Melhor dizendo. Lembrava das palavras dela .Porque do rosto esquecera. Perfeito.

 

A voz dela orientava. A olharem para o céu. Lá veriam uma barba branca esvoaçada. Uma mão esticada segurando uma cordinha. Do trenó. E muita cor. No meio da noite. Que estava já chegando a hora. Lembrou de várias cabecinhas viradas para cima. Como devem ser os bons sonhos. Lembrou que olhou. Nem precisou se esforçar muito. Porque logo viu. E feliz riu. Era verdade. Exatamente como a voz descrevia. Viu tudo isso. Viu até barulho.

 

Viu o vento na barba. Viu que os presentes meio que se batiam uns nos outros. Muitas caixas. Mal cabiam naquele espaço. Mas cabiam. E nem caíam. Escutou os sinos. Escutou risos. E muitas cores. Muito brilho. Uma luz toda especial. Em cima dos presentes. Das fitas e da barba.

 

Alguém os mandou dormir. Para que pela manhã estivesse já tudo arrumado.  Obedeceram. Obedeceu. Foi dormir pensando no céu. No vento. Nas cores. Na barba. Dormiu em meio a esses quadros. A essas imagens. Mágicas.

 

Quando acordou pela manhã teve que segurar o rosto. Com as duas mãos.

 

Em volta da enorme árvore estava uma montanha maior ainda. De presentes. Muitas caixas coloridas. Sentiu-se de novo familiado.  Ele vira o percurso. Enxergara no céu. Sabia como tinham chegado ali. E como fora difícil com o vento que fazia.

 

E eles ali. Descabeladinhos. Descalços. Com uma pressa que jamais sentira de novo pela vida a fora. Com tamanha urgência e ansiedade. Era preciso abrir logo. E cada um tinha um nome. Era preciso ver seu nome. Alguém tinha que ler seu nome no pacotinho. Para tomar posse como destinatário.

 

Engraçado como isso depois se torna comum. E sem brilho. Ou sem aquele brilho.

 

Não lembrava a comida. Não lembrava o depois. Lembrava do seu presentinho. Uma imensa carruagem. Com lona. Com cavalinhos. Com rodinhas que giravam. Olhou encantado. E cada um deles abriu o que era seu. Em nome e - por conseqüência - em direito. Passaram o dia brincando. De vez em quando ele olhava para o céu. Queria poder agradecer. Mas não via o dono da barba.

Achou que nunca mais o veria. Depois daquela noite.

 

Em meio ao relato da lembrança riu. Riu mesmo. Não devia ser uma montanha. De presentes. Não devia ser enorme. A árvore. Nem devia ser tão grande. A carruagem.

 

E fez um gestual imaginário. Um muito obrigado. A quem não teve a idéia - de fotografar.

 

A criatividade na descrição de uma lembrança dá muito mais realidade do que uma foto. Uma foto apenas expõe uma cena. Congelada. Nada mais que isso. Não revela a dimensão. Do que se vive na hora. Da foto.

 

E ele, que vivia em volta de papéis, pela primeira vez ficou feliz com a falta de documentação histórica.

 

Riu. Deu um salto da poltrona. Assim. Sem mais nem por que. Olhou atentamente para o céu. Teve uma súbita impressão. De ver um sorriso cúmplice. Dirigindo-se a ele. E meio encoberto. Por uma barba branca.

 

Tranquilo, sentou de volta na poltrona. E com uma suave sensação - de agradecimento cumprido.

 

 


Abril 28 2009

Estava assustada. Com a conclusão a que chegara. Cada coisa que acontece. Cada surpresa. E as surpresas só chegam de forma tortuosa. Pode-se mesmo dizer assim. Forma tortuosa. Nunca soube de alguma surpresa linear.

 

Sempre tem que fazer com o que surpreendido dê lá seu pulo. E que pulo. Tem gente que até torce pé. Joelho. Quebra louça. Freia carro na hora errada. Cada um com sua surpresa. E tudo depende do que está a se fazer na hora. Que a surpresa chega.

 

Com ela não foi diferente. Estava trabalhando. No estilo nada como um dia após o outro. Mais rotineiro impossível. Trabalhar. Atender. Tocar o dia como dizem os mais práticos. Assim. Com seguimento em agenda.

 

E foi diante desse cenário nada emocionante que se deu a tal surpresa. Deu um pulo tão grande da cadeira que até derrubou um vasinho de flores. Foi assim. Começou pela falta. De luz. E clareou todo o ambiente. Como podia não ter notado. Desde a primeira surdez. Desde a primeira amnésia. Ai riu.

 

Amnésia serve para isso. Para ocultar. Mesmo o que nem sempre deveria ser ocultado.  Ou poderia.

 

Ela avisara. Chega de nome antigo. Vamos mudar para o nome atual. Para o que pareceu tão desejado. Foi o que pareceu na época. Vamos acreditar que aquela vontade procedia. Senão fica parecendo que não procedia. Que foi coisa impensada. Coisa de imaturidade. Sem propósito definido. E por isso virou faz-de-conta-que-não-houve. Nada disso. E retomou a decisão.

 

Não sabia se tinha retomado. Nem se era decisão. Só sabia que tinha que ser assumido. Fez o que ela não fez.  Leu o documento. E fez o orientado. Pelo documento. E atualizou o nome dela. Numa conta de luz. Simples.

Era sempre tipo qualquer dia. E os dias foram passando. Num dia esquecia. Em outro não lembrava. Parece a mesma coisa. Mas não é. Entre o não lembrar e o esquecer corre um fio. Um fio que circula e embaralha os atos. Mais ou menos isso que concluiu.

 

Em meio a uma surpresa, as idéias correm aos atropelos.

 

Mas assumiu. Pelo menos diante de si mesma. Acatou. Resolveu. E depois leu. O novo nome impresso. Gostou. Foi o que compreendeu quando leu. O próprio nome.

 

Daí em diante foi um tal de troca e aviso. Uma alteração atrás da outra. De atos conseqüentes. Atualização de documentos. Cancelamentos de outros. Renovação de mais alguns. Foi tão grande a tal iluminação mental e ambiental que acabou em salão. Salão de beleza. Foi cortar o cabelo. Mudou a cor habitual das unhas. Comprou roupa nova. Refez até o cartão de visitas. Esse um dos maiores impactos. Como pode. Ficar tantos anos se apresentando com um nome que tinha pedido para retirar. Mas se auto-desculpou. É mesmo difícil. Concluir que se está por sua própria conta e autoria. Depois de tanta tutela que se passa. Podia dizer que estava começando a se entender. Com ela mesma. E depois de tantos anos. E se parabenizou.

 

A última pequena surpresa foi a conclusão. Das surpresas. Fora preciso o empurrão dela. Que nem participara do evento anterior. Da época em que solicitara a tal retirada do nome. Nome.

 

Parece simples. Parece que é só mudar. Parece que é habitual. Parece que é apenas seguir uma lei. Um protocolo. Uma decisão judicial. Tudo isso é verdade. Mas um nome ou a retirada dele é um processo. Não orientado por diretrizes. Mas por uma outra Lei. A Lei do emocional. Do aceitável. Do ego. Ai cabe até vinganças e pequenos ódios. Ou pequenas revanches.

 

Tudo isso pensou. Tudo isso concluiu. E olhou mais uma vez para o novo cartão de visitas. Para as unhas com uma nova cor. Passou a mão pelos cabelos.  Desta vez feliz. Se sentindo mais.

 

E seguiu - desligando algumas luzes.

E acendendo outras.

 


Abril 27 2009

Estava trabalhando. Agenda cheia. Em meio a todo o tumulto dos atendimentos recebeu um telefonema de casa. A dedicada auxiliar avisava que tinha um homem nada delicado dentro da casa. E que estava lá com uma finalidade inadiável. Ia cortar a luz. Isso. Cortar a luz.

 

Ela pediu três vezes que repetisse a frase. A história. A fala do homem. Então estava escutando bem. Mas por que. Por que não tinha sido paga há dois meses. Assim. Motivo simples. Ela quase pulou da cadeira. Não entendeu. Não podia ser. Devia ser algum equívoco. Usava a modernidade Bancária para isso. Há anos.

 

A dedicada e sempre prestativa auxiliar explicou. Vai ver que foi porque solicitei para ser mudado o nome do titular. Na conta de luz. Afinal já está divorciada há oito anos. Já está mais que na hora de aceitar o nome de divorciada. E ajudei nisso. Pedi para mudar para o seu nome de divorciada. Fiz isso com a melhor das intenções. Até comentei com a senhora. Deve ter esquecido.

 

Sim. Não lembrava. Concluiu. Com isso foi tirado da modernidade do Banco. Explicado. Agora só precisava ser resolvido. Banco não se interessa por questões de ordem emocional. Ou por decisões adequadas feitas de forma inadequada. Quanto mais por falhas de escuta ou de memória. É tudo feito com muita clareza. Quase riu. Justo agora estava na iminência do escuro.

 

Iria ao Banco rapidamente pagar. Pediu para falar isso para o homem. Um homem implacável. Não aceitou aquele célebre hoje não. Por favor. E na sexta feira. Às três da tarde. Pode ficar tranqüilo. Será resolvido logo. O senhor não pode fazer isso. Devo. Respondeu assim. E ainda falou isso rindo.

 

Depois da atitude dela, ele tomaria a dele. Deu um até breve. Deixou um número para contato quando estivesse com o débito em dia. Assim poderia pedir a re-ligação. Virou-se. Saiu.

 

Foi uma correria. Do local de trabalho e pelo telefone pediu o código de barra. Nervosa só anotava errado. Desistiu. Pediu que enviasse pelo computador. Com a pressa em resolver tropeçou.  Arrancou o fio da tomada do computador de vez da parede. Não conseguiu mais fazer funcionar a rede. Desistiu. Pediu para enviar a conta pelo fax do vizinho. Que se dispôs de imediato a ajudar. Mas lamentou em seguida. Estava sem papel de fax.

 

Tinha esquecido de comprar.

 

Nesse intervalo os filhos ligaram. Estavam apavorados. O que fariam sem luz. Um queria jogar. O outro tinha um trabalho da escola. Queriam aquecer a comida. Queriam água gelada. Queriam banho quente. Tudo a depender a luz.  E ela no trabalho.

 

Cancelou a agenda e foi resolver à moda antiga. Com a conta em mãos e na frente do caixa.

 

Pagou. Tentou relatar o acontecido. Mas a mocinha do caixa em nada se interessou. Fez ar de burocrata entediada. Confirmou o pagamento e dirigiu o olhar já ao próximo. Que estava atrás dela. Neste momento ela compreendeu. Algo que nunca se dera conta. Até riu do pensamento. Conta fora a palavra mais citada em questão de minutos. Mas sim. Se dera conta. Burocracia, Conta e Banco não têm questões. Só motivos. Até se acalmou. Com a nova filosofia recém criada. Mesmo no escuro.

 

Voltou para casa. Telefonou para o número deixado pelo homem que fez o corte. Informaram que seria solucionado de imediato. A esta altura a casa era uma verdadeira capela. Vela para todo lado. E avisos de cuidado com a vela a se repetir.  E todos a pedirem banho quente e água gelada.

 

Insistiu na ligação telefônica. Desta vez teve mais uma surpresa. Ninguém sabia da primeira ligação. Esbravejou. Gritou. Perdeu a calma. A classe. A compostura. Descobriu que perder a timidez no escuro é muito mais fácil. E aproveitou então da situação. Foi tanto que falou que do outro lado pediram calma. Respondeu com palavras nada publicáveis. Avisaram que toda ligação telefônica era gravada. Respondeu em alto e bom som. Ainda bem.

 

Eles desistiram da tal água gelada. Do banho quente. Sábios. E bons ouvintes. Ou prudentes. Ainda tinham um bom apego à vida. Escutaram o que ela falara com quem atendeu na Companhia de Energia Elétrica. A forma que ela falara. Optaram por ficar em silêncio. Sob a luz de velas. Bem caladinhos e sentadinhos no sofá. Aguardando apenas.

 

Resolveu. Iriam todos a um restaurante. Jantariam por lá e na volta já estariam de luz acesa.

 

Era noite de temporal. Muita chuva. Trovoadas e relâmpagos. Faltou luz no restaurante. Em meio à escolha do jantar. E antes de pedirem a água gelada.

 

No escuro todos só escutavam as risadas. Deles.

 

 


Abril 25 2009

Enfim estava lá. E com eles. Amava aquela cidade. Até faziam piadinhas com ela. Se estivesse triste.  Entregassem-lhe uma passagem para lá. Riria em segundos. Se estivesse concentrada. Bastaria alguém dizer as iniciais do nome da cidade. Ela logo se virava para escutar. E ela não negava. Sua relação com aquela cidade era realmente assim. Passional. Lúdica. E sempre acrescentava para horror dos menos avisados. E Ecológica. E se divertia com a surpresa nos olhares e gestos que este comentário causava.

 

A programação era intensa. Música. Ballet. Teatro. Levara as roupas adequadas. Sapatos adequados. Economizara no espaço. Da mala. Apenas um sapato de festa. Achou suficiente.

 

Deram voltas em lojas e caminhadas no Parque. Sacolas se amontoavam. Voltaram cedo para o hotel. O Hotel era muito elegante. Numa região privilegiada. E perto de tudo que gostava. Descansaram um pouco. 

Foi se arrumar. Aquela noite era a noite da Música. Cuidou da maquillage. Perfume. Cabelos. Estava encerrada a tarefa com a imagem. Por último o sapato. O tal único de festa. Já o havia posto, desde que chegara da viagem, no armário.

 

Daí se iniciou um teatro particular. Cômico e trágico. E quase em iguais proporções.

 

O sapato sumira. Assim. Revira daqui. Procura dali. Abaixa-se aqui. Estica-se dali. Não estava mais lá. Ainda pensou em fazer piadinhas. Vai ver gosta mais de música do que eu. E já foi na frente.

 

Eles, solidários, telefonaram para a Segurança. Subiu um senhor alto. Forte. Com uma prancheta nas mãos. Caneta. Ar sério. Terno preto. Um fiozinho saia do ouvido e entrava no bolso. Do paletó. Explicaram o ocorrido.

 

O senhor alto escutou e depois começou com as perguntas. Eles todos se controlaram para não rir. Com as especulações que fazia o tal senhor. Riso e choro são expressões. Nada têm a ver com Idioma. Ele entenderia e poderia não ajudar. E o tempo passava. Não iam perder a Música por sapato nem risos.

 

A senhora viu alguém estranho no corredor hoje. Esta pergunta foi difícil. Difícil conter o riso. Apenas respondeu. Todos aqui são estranhos. Estamos num hotel. E ainda em outro país. Ele desconsiderou.
E partiu para a outra pergunta. A senhora recebeu algum pedido de resgate. Ela olhou bem para ele. Desta vez riu. Muito. Todos riram. Também desconsiderou o riso e repetiu a pergunta.
Ele insistiu. Quando a senhora o viu pela última vez. Continuou. Olhava para a prancheta. Não olhava para eles. Por sorte de todos.
Perguntou pelo valor de custo. Escutou três valores diferentes. E muitos risos encobrindo as falas.

Fez mais algumas perguntas dentro do mesmo padrão das anteriores. E sempre desconsiderando as respostas. Apenas seguia a sequência do que deveria estar escrito no manual. Não importava sobre o que se tratasse.

Informou – o segurança - que informaria à Seguradora do hotel que tinha sido informado do fato. Mandou que assinasse o documento que continhas as perguntas.  Em três semanas tudo estaria resolvido.

 

Nada mais restava a fazer. Ele se foi. O segurança. Com prancheta. Caneta. E fio no ouvido.

 

Ocorrências como aquela são universais. Protocolo é protocolo. Foram estas as únicas conclusões filosóficas que conseguiram chegar. Não existem linhas dividindo a renda per capita. Não existe barreira de Idioma. É a máxima semelhança possível. Não deve ter sido à toa a punição pela construção daquela torre. Todos iguais abaixo do céu.

 

Olhou para o armário. Um sapato com Design Coitado devolveu o olhar. O tempo passava. Todos prontos. Ela ali.

Aceitou a oferta vinda do armário. Colocou o sapato. E saíram. Rindo. Muito.

 

Já no teatro ela notou o primeiro olhar. Para os pés. Custou a crer. Pensou que passaria despercebida. Qual nada. Não teve quem passasse e não olhasse. Já estava até se sentindo paranóica.

 

Mas não deu importância. Só se sentiu uma funcionária apressada do Exército da Salvação. E fez expressão de benevolência. Com até positivação gestual de cabeça. Para quem a olhasse dos pés ao rosto.

 

Aproveitaram a noite. E a música maravilhosa. Naquele cenário maravilhoso.

 

Ela só lamentou ter ido sem uma sineta.  Na próxima.


Abril 22 2009

Aproveitou o dia de folga. Ele teria que trabalhar. Ficaria sem compromissos. Nem horários. Nem programas conjuntos. Ela então decidiu.

 

Foi por em prática o que já planejara.

 

Ia viajar para lá. Pela primeira vez. Entraria o ano seguinte em alto estilo. Rindo e se divertindo. E com o frio avisado e prometido nada mais adequado. Pensou. E lá se foi. Comprar o complemento procedente.

Ficava no andar de cima. Os hemisférios têm lá suas diferenças. E nada mais combinado que o andar de cima. Para os que se dirigiam para a linha de cima. Até riu do próprio pensamento. Ultimamente estava se sentindo assim. Criativa e leve.

 

Subiu. Escolheu. Com calma e severa observação. Dos detalhes. Não queria sustos quando lá chegasse. Sempre detestou sustos. Seja qual for. Por isso sempre programava tudo em detalhes. Era precavida. Prudente.

 

Experimentou a muitas. E mais outras. Por fim se decidiu. Pela primeira. E desceu as escadas. Olhou mais alguns lançamentos. Deixou a bolsa na cadeira e foi ver mais novidades rapidamente. O espaço estava cheio. Não sabia se todas iriam para outro hemisfério. Mas seja lá onde fossem, iam a caráter. A rigor. Porque as sacolas estavam lotadas. E as filas enormes.

 

Enfim. Enfrentou a fila. Sem reclamação. Estava satisfeita com a escolha. E toda fila um dia acaba. Chegou a vez dela.

 

Foi pagar. Estranhou o zíper aberto. Da bolsa. Mas desconsiderou. Pôs a mão para pegar a carteira. Não. Gritou. Não. Assim. Em alto e bom som.

 

Não podia pagar. Sumira a carteira. Gritou alto com o susto. Todos se viraram para ela. Não havia saída. Não havia carteira. Reclamou. Veio gerente. Diretora. Administradora. Vendedora. Todas assustadas. Veio segurança. Nada podia ser feito. Com o espaço lotado tudo era possível.

 

Ligou para ele. Contou chorando. Ele veio em auxílio. Imediatamente. Sabia como ela ficava angustiada. Com estas situações.  Veio carinhoso. Preocupado. Solidário.

 

E daí se iniciou  a sequência.  De cancelamentos. Disponibilizaram o telefone. Tudo cancelado. Em poucos minutos ela já estava fora do mercado financeiro.  E o mercado financeiro fora dela. Assim pensou. Numa tentativa de um chiste consigo mesma. Mas não riu.

 

Os vendedores tentaram acalmar. Constrangidos. Delicados. Optaram por um enorme desconto na compra. Mão no ombro. Alisadinhas no cabelo. Pedidos fervorosos de desculpas. Promessa de mais cuidado com o ambiente.

 

Ela só chorava. Imaginando. Tinha tanto o que fazer. Antes da viagem. E uma semana vivendo em bloqueio. Complicado. Neste mundo moderno bloquear é igual a aprisionar. Fica-se de pés e mãos atados. Já se viu assim. Por uma semana. Consolaram. São apenas cinco dias. Corajosa. A moça que veio dar este consolo.
Se olhar queimasse ela teria já um bronzeamento instantâneo. E gratuito. Sim - porque pago é que não podia ser. Ela estava bloqueada.

 

Ele se solidarizou. Foram juntos para casa.  E juntos tentaram entrar em casa. A porta emperrou. Não abria toda. Só uma parte pequena. Que não permitia que eles entrassem. Pensou. Deveria ter lido a minha conjunção astral hoje. Já mais irritada empurrou ela mesma a porta com força. Com mais força. A porta abriu de vez. Olhou para ver o que impedia a abertura.

 

Atrás da porta, meio presa e meio esmagada, estava a carteira. A carteira. A car-tei-ra.

 

Sentou no sofá chorou e riu. Não necessariamente nesta ordem. Mas sincronicamente.

 

Ele nada falou. Vai ver ficou bloqueado.

 

publicado por Lêda Rezende às 22:30

Abril 21 2009

Desta vez a ligação foi diferente. Nada de alegria na voz. Muito menos de comemoração. Não se festejou. Nem se falou em macarrão no desjejum. Hoje a dieta era fria. Com sabor de nada. Talvez acrescentado o amargo do fruto. Já tão proibido.

 

Parecia aflita. Aflita de realidade. É sempre difícil este tipo de aflição. Sobrecarrega. E não deixa espaços. Por isso não se consegue dissimular. Nem com a fantasia. Ficar na realidade por muito tempo tira o fôlego. Causa compressão nos músculos. Provoca uma dor que não se sabe onde. De tão pesada e difusa.

 

Descobrira uma verdade. Segundo ela. Concluíra a verdade. Do impedimento. Não era geografia. Não era paternidade. Não era sequer solidariedade.

 

Tinha uma atitude explícita. Estava com ódio de si mesma. Por que não entendera isso antes. Justo ela. Que convivia tão bem com os escondidinhos da alma. Com as entrelinhas dos discursos. Vivia disso. Vivia para isso. Para entender o que ninguém explicava. E explicava o que ninguém compreendia.

 

E agora estava confusa. Sem compreender. Nem a ela. Nem ao outro. Por que se não se entendia, como iria entender o outro. Era cada vez mais proibitivo. O tal testemunho. O tal julgamento.

Por um tempo se enganou. Jurou ter se equivocado. Tanto afirmou que quase acreditou. Mas podia lhe faltar tudo. Menos aquela dose certa de lucidez. Mesmo que na hora errada.

 

Chorou.

 

É preciso sempre estar atento. Ao que o outro exige. Nem sempre a proposta é de parceria. Parceria envolve a dois. No mínimo. E parceria é assim. Quando se vê já está estabelecida. Assim. No silêncio. Como dizia aquele poeta alemão. Onde uma palavra jamais pisou.  Sem discussão. Até sem nomeação. Parceria é só atitude. As palavras são moldura. Efeitos decorativos. Por isso prescindíveis. Ele descartou. Obstaculizou. Assim ela falou. Entre lágrimas e retórica. Ou entre lágrimas retóricas. Muitas vezes esta é a mais importante função da lágrima. Função retórica. Funciona bem para desavisados. Ele utilizou com grandeza este recurso. E na hora ela acreditou. Mais por necessidade do que por ingenuidade. Naquele momento se duvidasse perderia o prumo. Achou prudente acreditar. E se não podia sofrer junto com ele, ao menos sofria ao lado dele. Forma triste de parceria. Isso ela compreendeu. Parceria solitária.

 

Ele confirmou. Nada de ímpetos. Nada de mudanças bruscas. Deixaria assim. Voltaria para onde tinha saído. E torcia para que nada lá tivesse mudado.

 

Foi o que descobriu. Ele só tinha um único compromisso. E de exclusividade. Com ele mesmo. Só. Assim. Claro e destacado. Se estava bom, prosseguia. Se não estava, descartava. Se oscilava, partia. Mas tudo dentro de um acordo tácito. Nada que precisasse da aprovação do outro. Aprovação do outro já significava parceria. E isso ele indeferia. Tal um documento. Sem emoção.

 

Lembrei de uma orientação da minha avó. Quando estiver difícil consolar, sorria com delicadeza, menina, sempre sorria com delicadeza.

 

Sorri. Sorrimos. Depois rimos. De tudo. Do acordo. Do desacordo. Do engano. Do eu-bem-que-falei. Do champagne estourado em silêncio. Do perfume interditado. Da negação. Da contemplação. Não faltou ação. A distância de nada impediu. E ele foi sumindo. Nas palavras. Na retórica. Nas lágrimas. E quando o sorriso finalmente venceu, ele desapareceu. Ele e o compromisso solitário.

 

Ela ficou com as lembranças. E fez delas suas parceiras. Junto com o sorriso. Por um tempo seriam companheiras. Depois já não se sabe. 

 

 

 


Abril 18 2009

Passara o dia no quarto. Com a porta fechada. Entregue aos seus pensamentos. Suas lembranças. Suas lágrimas. Decidiu aproveitar. Já que o pensar, ao menos, é livre. E deu liberdade total. Aos seus pensamentos. Não tinha ainda aprendido. Sobre a possibilidade dos riscos diante deste tipo de liberdade.

Mas acatou. Recordou. Até da feira. Lembrou dela de novo. Da amiga que viajara. Iam as duas. Todos os domingos pela manhã. Comer pastel de feira. E prometer toda semana. Que não iam mais comer. Porque fazia mal a saúde. Ainda bem que nunca conseguiram cumprir. A promessa. Porque hoje não o faziam mais. Uma além mar. Outra além serra.

 

Muitas vezes é bom avaliar, com muita cautela, as restrições. Ou a validade efetiva das restrições. Talvez melhor apenas prosseguir. Nunca se sabe quando pode começar a provação. Em meio à privação. Nem sempre é uma questão solitária de escolha. Pode acontecer à revelia. Por um saber nem sempre tão sabido. Nem sempre tão ocultado. Assim. Sem propósito. Sem fantasia.   

 

Agora ela estava bem longe dos pasteis do domingo.

 

Tinha o carrinho. Comprara um carrinho de feira. Todos riram. E uma roupa especial para ir à feira do domingo. Adorava quando estava frio. O céu de inverno lindo. Azul turquesa. E o frio para contrastar. Que delicia.

 

Colocava a roupa especial de feira. Pegava o carrinho. Descia a ladeira da casa. Com ar feliz. Andar alegre. Pisar leve. Se sentindo dona de alguma coisa que não sabia definir. Devia ser da própria vida. Que enfeitava com o carrinho e a roupa. Encontravam-se na esquina da casa dela. Já desciam rindo e falando. Sob a orquestra das rodinhas do carrinho na calçada. Pura musicalidade.

 

Sempre gostara do frio. Não sabia explicar por que. Mas tinha uma sensação especial. Uma sensação de proteção. Gostava de sair de casa no frio. Talvez fosse pelas roupas. Pelos casacos. Pelas meias.

 

A roupa defende a pele. Devia ser isso. Na noite o peso das cobertas também defende. Da noite.

 

Tinha também a avenida. Adorava passear naquela avenida. Devia ser porque não enxergava o final. Como um horizonte perdido. Em meio ao asfalto. Aos carros. Muitas vezes inventava motivos. Só para ir até lá. Subia a tal ladeira. A mesma que descia para a feira. Até riu da lembrança. No final ficava mesmo era na ladeira. A subir e descer. Nunca se vê o fato no momento do fato. Achava isso incrível. Lembrava dos destinos.  Mas esquecia do acesso. Até se surpreendeu com este mais novo pensamento. 

 

Naquele momento percebeu. Triste. Tudo parecia tão longe. Começou a se arrepender. Da liberdade que dera aos pensamentos. Estava confusa. Indecisa.

Na tentativa de se atingir, pode-se acabar distante de si mesmos.

Foi presa a estes pensamentos soltos que, de repente, deu um pulo.E com os olhos bem arregalados. Pasma seria o termo certo. Devia estar assim a expressão. Quase caiu com o pulo que deu. Riu. Não faltaria mais nada.

Cair quando começou a enxergar. Deve ser por isso que tanto caía. Vivia de pé engessado. Nem sabia mais quantas vezes torcera o pé. Brincava que era algum mau passo. Que tinha dado. Ou que daria. Depois concluiu que não. Na época até concordara. Depois não. Nunca conseguira dar um passo. Quanto mais um mau passo.

 

Para dar um mau passo é preciso muita sabedoria. Muito mais que para um bom passo. Isso já aprendera. E passo é uma questão muito mais estrutural. Que natural.

Mas vivia com o pé no gesso. Devia ser uma forma de dar passo nenhum. Garantia da desculpa. Da imobilidade. Até da impossibilidade. Sempre essa dificuldade. Por toda a vida.

Com mania de distância. Ou com desculpa de distância. Distância sempre está dentro de cada um. Nos olhos de cada um. Construída. Como um forte. Na distância - a perda do tempo.

 

Mas agora comemorava o pulo. O pulo. Pele aquecida. Olhos abertos. Não. Olhos esbugalhados. Até com arrepios. Não tinha visto. Não tinha enxergado. Ou tinha. Não sabia. Os olhos se acalmaram. A pele se acalmou. Riu calma. Baixinho. Sorriu melhor dizendo.

 

Na porta. Naquela porta. Bem em frente. Enfrente. Ao alcance.

Enxergou. Sorriu de novo. Compreendeu.

Diante dela - uma maçaneta. Uma maçaneta. Assim. Simples.


Levantou e saiu.

 


Abril 16 2009

Não dava para acreditar. Aliás. Dava para acreditar. Não dava era para compreender. Minha avó sempre me disse isso. Fique atenta no que acredita e não compreende, menina, fique atenta. Às vezes penso que escutei pouco a minha avó. Vai ver por isso encontro mais problemas. Que soluções.

 

O lugar era adequado. A cafeteria uma delicadeza. Isso sem falar naquele burburinho. Vozes sussurradas fazem mais efeito que gritadas. Todos ali sussurravam. Dando seu estilo musical nas entonações. Nos pequenos silêncios. Como uma partitura. Numa sequência sem maestro. Mas com cadência. Assim era o ambiente. Uma quase orquestra. De sons. E tons. Até de sotaques. Uma exposição cautelosa das idéias. Em pianíssimo. Em alegretto. Até cabia um allegro ma non troppo.

 

O olhar veio antes. Era um olhar lúdico. O corpo todo veio depois. Mas tinha uma sintonia com o olhar. Deveria ser mesmo um lugar que gostava. Que frequentava. Ou que tentava frequentar. Com o olhar percorria os lugares. E buscava o seu. Vago. Uma mesa. Uma cadeira. Um assento. Onde pudesse abrigá-los. Corpo e olhar. E o riso. Ria como se para alguém. Conclui.

 

Deveria ser o alguém interior. Uma daquelas comemorações festivas. Entre ego e superego. Ou entre ego e alter ego. Vai lá saber.

 

Algo de repente ficou errado. Nesse momento o olhar mudou. Já não era mais lúdico. Era um olhar envelhecido. Ele veio na direção dela. Com ar de desagrado. Gesticulando para ela. Com desaprovação. O corpo em sintonia com o olhar. Desagradável. O dedo substituiu a fala e apontou faltas. Muitas faltas. Faltava lugar. Faltava tempo. Faltava espaço. Parecia que apenas sobrava espera. Desconforto. E dedos. Ele gesticulava. Ela observava.

 

Parecia hesitante, mas atenta. Por segundos retirava o olhar dele e olhava o espaço. O ambiente. Ele insistiu.O olhar dela mudou. Era agora um olhar resignado.

 

Ele foi à frente. Deu as costas. Ela o seguiu. Iam sair. Fiquei pensando no porque da concessão. Nas mil razões das concessões. Durou pouco meu pensamento. Não cheguei nem na segunda razão. Até respirei aliviada. Vi que ela voltou. Voltou. Quase dei um pulinho da cadeira. Que teria acontecido. E com ela um novo olhar. Olhar de decisão. Ia ficar. Quase aplaudi. Me contive. Ele ainda ficou por um instante de pé. Diante dela.

 

Reprovou. Apontou. Resmungou. Acatou.

 

Enquanto ela sentava, ele foi buscar o café. Estava irritado. Expressão de tédio, como ela diria se o estivesse vendo. Pensei. Este deverá ser o café mais caro do planeta. Mas ela deve saber o que faz. E se tudo tem um preço, que seja pago antecipado. Acompanhado de uma parcela de prazer. Procede. E vai ver sempre tem uma forma de evitar juros.

 

Era alta. Magra. Elegante. Porte ereto. Gestual delicado. Fugia ao comum. Tinha cabelos brancos. Não tingidos. Longos. Presos com uma fivela sofisticada. Uma roupa despojada e adequada. Já sentada, sorriu. Para quem estava em volta. Me incluí. Elogiei a decisão. Fez um olhar de surpresa. Não se imaginava observada. Agradeceu. Com singeleza. Com tranqüilidade.

 

Ele vinha em direção dela. Segurando a bandeja. Tentando equilibrar irritação, aceitação, cobrança futura, café e bolinhos. Não devia ser fácil. A expressão estava insegura.  Desta vez ela o recebeu com um outro olhar. Olhar de irreverência.

 

Sabe-se lá porque perguntei se era escritora. Nem sei de onde tirei esta idéia. Mas perguntei. Ela respondeu. Com serenidade. Com uma voz firme. Não. Sou atriz. Devo ter feito uma coletânea de todos os olhares dela. Em mim. Ao mesmo tempo. Pelo jeito que ela me olhou. Sorri. E parabenizei. Com entusiasmo.

 

Lembrei da minha avó. Agora sim. Acreditei e compreendi. E o contrário também vale.

 

 


Abril 14 2009

Morava de frente para o mar. Via o mar de todos os ângulos. Acompanhava as cores. A força. O brilho. Durante muitos anos justificou assim o seu estilo.

 

Alegava que nascera de frente para o mar. Isso a fazia se sentir privilegiada.

 

E desculpada. Porque deveria ter contribuído. Afinal maré muda a cada turno. E ela mudava quase assim. Nesta frequência. Justificava. Todos sempre riram da explicação. Mas nunca discordaram. Vai lá saber o que a geografia é capaz de fazer. Com a vida de uma pessoa.

 

E acrescentava. Com total tranqüilidade. Se tivesse nascido de frente para o lago teria sido diferente. Seria calma. Serena. Teria conduta expectante.

Como diziam onde trabalhava. Conduta expectante. Achava lindo. Sabia que não combinava com ela. Mas achava lindo. Suave. Esse tipo de fato. Ou de ato. Deve ser diferente quem nasce de frente para um lago. Sempre parado. Até que alguém ali jogasse uma pedrinha Dependia da pedrinha. E do outro. Que jogasse. Um lago tem margem. Tem limite de movimento. Não faltava filosofia. Ou explicação geográfica.  

 

Mas nem tudo na vida é lembrança. Geografia. Ou filosofia. A memória fica de espreita. Lá um dia se revela. E desvela. Descobriu isso. E ficou pasma.

 

Passou um dia de turismo com um amigo. Um amigo querido que viera de longe. Tinham apenas este dia juntos. Algo como uma escala. Ele aproveitou para revê-la. Na tarde decidiram passear pela cidade. O amigo tinha esta mania. Pontos turísticos. Não iria contrariar o visitante. E foi com ele. Falando e dirigindo. Apontando e nomeando. Foram muitos os pontos visitados. Da cidade.

 

De repente decidiu mostrar a ele – ao amigo – o bairro onde nascera. Morara ali por muitos anos. Mudara-se para o bairro atual quase adolescente. Nunca havia feito isso antes. Desta vez seguiu a intuição. E foi. Apontar este outro pedacinho da sua história. Pelo viés da arquitetura. Entrou no bairro. Na rua. Parou em frente ao prédio. Foi fazendo voltas. Entrando com cuidado. As lembranças devem ser revistas como muita delicadeza. Não se pode rever assim. De súbito. De súbito pode sugerir descaso. E descaso com o passado pode causar riscos. Ele achou lindo. Ela sorriu. Com calma. E com o olhar quase de criança. Como se fosse reincorporando a infância ao caminhar pela rua. Por isso tem mesmo que se ir com calma. Quando se decide visitar a origem. Porque a vida dá uma giradinha. De leve, mas para trás.

 

Enfim. Lá estava. Olhou o prédio. A janela do quarto dela. E sabe-se lá porque olhou para o outro lado. Como se estivesse procurando a vista que via da janela. A paisagem da infância. Pobre amigo. O susto foi em dois idiomas. Estrangeiro ele era. E estranha ela ficou parecendo. Com o grito espantado que deu. Gritou e segurou a boca. Prendeu até o fôlego. Deve ter mudado de cor. Porque o amigo estrangeiro pegou o celular de imediato.

 

Pareceu a ela que discou apenas três números. Segurou a mão dele. Cortou a ligação. Voltou a respirar. Esforçou-se para explicar a ele. Também em dois idiomas alternados. O motivo do susto. Ele nada entendia. Assim pareceu a ela. Tudo ficara muito confuso de repente.

 

Diante da janela do quarto onde nascera – e morara - até a adolescência estava, nada mais nada menos, que um enorme lago. Um lago. Cercado de margem. Margem com grama verdinha. Mas um lago. Como pode esquecer. Não entendia. Pensou até no mestre austríaco. Ele deveria ter a resposta. Mas ela não tinha. Ficou olhando para o lago. Lembrou então das vezes que ficara na janela. Curiosa. Para aquela imensidão. Aquele excesso de água.  Gente sempre em volta. A água ali. Parada. Escura. E ela da janela. Parada. Olhando. Com seu olhar de criança. Que tentava entender o mundo em volta.

 

Não tinha mais sua explicação favorita. Nascera de frente para o lago.

 

Lembrou de novo do mestre austríaco. Pensou. Refletiu. Tinha que descobrir uma alternativa. Para ela mesma. Muito mais que para os outros. Por fim decidiu. Sentiu-se aliviada. Até explicada. Segura de si de novo. Vai ver era a pedrinha. Sim. Ela deveria ser a tal pedrinha. A que fazia as ondinhas. No tal lago. A que punha a calma em movimento. Riu.

 

Continuou – agora satisfeita - o turismo com o amigo estrangeiro. Ele mal olhava para a paisagem. Vai ver temia tirar os olhos de cima dela. E mais um susto acontecer. Estava suficiente já de sustos para uma escala. Pareceu mais atento. À hora do vôo de volta. 

 

 

 

publicado por Lêda Rezende às 23:51

Abril 13 2009

Foram alguns dias de preparação. O casamento era importante. E havia sido convidada para ser madrinha. Ficara surpresa. Mas feliz. Muito feliz. 

 

Queria ir à altura. Do evento. Sem falar na sedução. Queria ir bela. Para que ele a visse - bela. E especial. Não sabia ainda. Estas coisas não servem.

 

Quando planejadas. Mas enfim. Nem tudo mesmo se sabe antes. De nada adianta a cultura. Os idiomas. Os estudos filosóficos. Aprendizado é coisa para depois. Solitário. Sempre. Processo retardado.

 

Escolhera uma estilista. Achou essencial. Uma mulher sempre entende destas situações. Decidida, foi até ela. Explicou o local. A função. A importância. A sedução. A temperatura.  A estilista olhou para ela. De cima a baixo. Depois de baixo a cima. Certo. Dos lados também. Lados devem ser algo fundamental para uma estilista. Porque foi onde mais demorou. Com o olhar. Séria. Refletindo. Ao menos parecia refletir. Porque ficou algum tempo em silêncio. Diante de um lápis e um croquis. Tentou até dar uma espiadinha. No desenho. Mas a estilista não se interessou. Em mostrar.

 

Depois saiu da frente dela. Subiu por uma escada. Demorou um pouco.

 

Talvez o suficiente. Para uma inspiração pertinente. De repente apareceu.

 

Desceu por uma outra escada. Ela até ficou tonta. Que interessante. Mas devia fazer parte da reflexão. Vai ver ela entendia nada. De reflexão. E de estilista. Muito menos de escadas. Mas ela voltou. Com um tecido. Uma cor. Achou indicado para ela. Sugeriu o modelo. Algo discreto. Mas carregado de mistério. Assim falou. A estilista.

 

Ela acolheu a idéia. O jeito era esse. Confiar na estilista. Das duas escadas. Confiou.

 

O casamento era em outra cidade. E lá a temperatura era oscilante. Por isso a estilista escolhera um modelo adaptável. Quase riu quando ela disse isso.

 

Lembrou de um carro. De um edredom. Só lembrou bobagem. Concluiu. Devia estar tensa. Isso só acontecia quando estava tensa. Não sorriu. Só escutou. E aceitou mais uma vez. Um modelo adaptável.

 

O modelo adaptável ficara bonito. Sentiu-se bonita. E acima de tudo adaptada. Agradeceu à estilista. Mas primeiro agradeceu a si própria. Tivera uma idéia excelente. Elegante. Mas sem falar no gasto. Este sim. Não merecia agradecimento algum. Era nada elegante.  Consolou-se. Lembrou do francês existencialista. Ele falava isso. Sobre uma verdadeira dama. Jamais saberia o preço das coisas. Relaxou. Ele devia saber o que falava. Esperava que a gerente do Banco concordasse. Ou no mínimo gostasse dele. Enfim. Isso ficaria para depois. Junto com o aprendizado.  

 

Arrumou malas. Arrumou bolsinha de maquillage. Arrumou sapato. Bolsa. Acessórios. Arrumou tudo.

 

Descobriu que muitas vezes o ato I sempre é mais belo. Que o ato II. Ou que a finalização.

 

Estava linda. Estava adequada. Mas não deu certo. Nada de sedução. Só de obrigação.  Nada de risos. Só sorrisos. Educados. Corteses.

 

A festa acabou tarde. Pensou na ambigüidade. Do acabou tarde.

 

Mantivera-se discreta. Elegante - até repetiria. Enfim. Nada a fazer. Fatos são fatos. Nada os modifica. No meio da noite acordou. Olhou o vestido no cabide. Inútil. Reto. Descarnado. Chorou. Pela presença das costas. Pela ausência das mãos. Chorou pelo calor da lágrima. Que descia calma. Disfarçada. Lenta. Chorou para saber que era. Que existia. Mesmo que pela lágrima.

 

Pela manhã levantou. Estava estranha. Não sabia bem o que era. Esta inspiração súbita. A angústia estava em alto padrão. Até riu. Do alto padrão. Adaptável e alto padrão. Aprendera algo com a estilista.

 

Procurou um jeito de expor. A sensação estranha. Mas de forma silenciosa. Discreta. Encontrou. Escreveu num papel qualquer que estava sobre a mesinha. Era a primeira vez que escrevia algo assim.

 

Algum tempo depois mostrou a um amigo. O escrito. Ele ficou surpreso. Achou lindo. Perguntou pelo autor. O nome. Respondeu tímida. Acho que estou com um encosto. Riram muito. Ele disse. Então cuida para este encosto não sair. Ele é muito bom.

 

Guardou a poesia. Vendeu o vestido num brechó.  

 

 

publicado por Lêda Rezende às 21:38

Abril 12 2009

Tomara uma decisão. Foram muitos dias pensando. Refazendo. Advogando. Em causa própria. Em causa alheia. Em causa financeira. Em causa estética. Não faltaram causas. Nem contras. Muito menos a favor. E isso durou dias. Até que concluiu. Ia fazer. Ia mudar. Desta vez seria diferente.

 

Estava se sentindo corajosa. Até arriscaria a se dizer segura. Coisa que definitivamente não era. Sentia-se uma farsa. Mas não uma farsa qualquer. Uma bem elaborada. Porque todos acreditavam o contrário. Do que ela realmente era. Assim são os verdadeiros falsários. Pensou num chiste consigo mesma. Vendem a cópia só para os olhos de quem acredita ver o original. O importante é o olhar do outro. E olhar acaba sempre confundindo. São tantas as idéias. Mas enfim. Depois da filosofia veio a atitude. Até levantou. Fez o que se deve fazer após uma decisão. Ficar de pé. Dá muito mais nobreza. Impõe muito mais grandeza. Assim, ao menos, concluiu. De pé.

 

O dia estava bonito. Tinha aquele céu azul turquesa do inverno. Uma temperatura insegura. Tudo bem. Nada é perfeito. Mas antes assim que um dia de calor. Tem nada pior que tomar uma decisão acalorada. Riu de novo.

 

Sentiu que estava de ótimo humor. Agora era só agir. Nem acreditava que estava tão disposta. Já acordara com esta idéia colada no cérebro. E ela era assim. Quando inventava uma coisa, nada a demovia. Mas nunca sobre este aspecto. Esta fora a primeira vez. Assim. De forma tão peremptória.

 

Avisara que já estava de saída. Falou do propósito. Todos riram. Não acreditaram. Olhou surpresa. Não entendeu. Como uma coisa tão simples permitia dúvidas. Tantas e tantas pessoas faziam isso. Milhares. Num dia. Num mês. Pela vida toda.  Até porque era sempre temporário. Passado um tempo podia ter a decisão vencida. Mas sabia que a culpa era dela. Não sabia se culpa era o termo exato. Mas depois de tantas causas apresentadas culpa não haveria de faltar. Afinal ela não mudava muito. O estilo. Mas desconsiderou os comentários. Confirmou o que falou. Recebeu de volta risos - também confirmados. Incrédulos. Todos. Deixou os risos de lado. E foi cuidar de agendar. Conseguiu um horário. Não se identificou. Estava já cansada de risos.

 

Arrumou-se. Ergueu os ombros. Passou a mão na bolsa. Deu um beijo no filho pequeno. De dez meses. Avisou que demoraria pouco. Saiu feliz.

Sentou-se. Todos já a conheciam. Avisou o que queria. Também riram. Um mais distante achou que escutara errado. Chegou perto dela e pediu para repetir. Ela disse em alto e bom som.

 

Corte. O mais curto que puder. Quero mudar.

 

Não faltaram gracinhas. Alguém sugeriu avisar ao marido. Outro gritou de lá se queria que chamasse uma ambulância com UTI. Perguntaram sobre oxigênio. Estrogênio. Serotonina. Adrenalina. Teve de tudo. Acabou quase em festa. E todos rindo. Ela continuou. Decidida. E corte logo. Não tenho a tarde toda.

 

A decisão pode parecer banal – mas nem sempre é. Mexer com a imagem é perigoso. Certos os que queriam até chamar o marido. Foram os longos fios caindo e ela perdendo a voz. Quando acabou estava rouca. Não dava uma palavra. Mas respirava bem. Dispensaram a ambulância.

 

Olhou-se no espelho. Gostou do que viu. Só não pode falar mais porque a voz não deve ter gostado. Sumira. Junto com os longos fios. Mas agradeceu com sinais e saiu.

 

Voltou para casa. Sem voz. Sem cabelos longos. Foi dar um beijo no filho. O de dez meses. Ele chorou. Deve ter desconhecido a antes conhecida. Mas ele fora o único corajoso. O único que se expressara. Com sinceridade. Vivas sempre à sincera coragem das crianças. Os outros todos se espantaram. Mas, sábios – ou temerosos - elogiaram. Sempre é uma linha difícil esta. A que fica entre a sabedoria e a covardia.

 

Resolveu tomar uma ducha. Viu que sobrava mão e shampoo. Lembrou daquela Lady loura e seu cavalo. Mudou rápido o pensamento. As costas até se arrepiaram pelo contato direto com a água. Nunca antes isso tinha acontecido. Pelo menos desde que se lembrava. Sempre fora assim. De cabelos muito longos. Mas isso era passado. Passado. Repetiu. E quase soletrou para acreditar.

 

Olhou primeiro para a moldura do espelho. Depois para a imagem do pescoço exposto. Em seguida olhou para os céus. Prometera não se arrepender. E estava firme na promessa. Mas arriscou uma observação. Será que teria uma solução. Será que era verdade. Que o tempo voava. Quem sabe tem alguma Santa de plantão. E compreende. E ajuda. Nesta questão do tempo.

 

Torceu que sim. Mas, além da conversa rouca com a Santa, nunca falou isso para ninguém.

 

 


Abril 10 2009

Quando o despertador tocou foi como um chamado sobrenatural. Aquilo não deveria ser comigo.  Mas era.

 

Jurei. Fiz promessa. Nunca mais durmo tão tarde. Em véspera de trabalho. Em dia chamado útil. Nunca mais. Mas descobri. Não adianta. Promessa não transforma. Não dá crédito imediato.

 

Resmunguei. Que injustiça. Sossegadinha. Em meu edredom. Em total acordo com aquele deus que nos tira do dia. Nos acolhe na noite. Permite fantasias, criações. Qual uma tela de cubismo. Distorcidas. Mas com uma lógica particular. Podendo se fazer o que quiser. Entender como quiser.

Analisar como quiser. Até negar. Relatar. Aumentar. Muitas vezes esquecer. Uma quase perfeição. Um deus até mais da liberdade. Esta sim. Sua maior função. Libertar. Só não sei mais do que. Por agora só queria duas liberdades. Alternativas. Ou me libertava do sono. Ou do trabalho. Cruel.

 

Libertou de nada.

 

Ainda tive aquela idéia. De colocar o toque de um sonar. Para me despertar. Um sonar.  A princípio me irritou. Depois - entendi. Até me elogiei. Não fora mesmo uma má idéia. Afinal, quando a gente desliga do dia, ou da noite é o que parece. Que estamos dentro de um submarino. Silenciosos. Deslizando.

 

Para um mundo onde as cores e os vínculos são absolutamente particulares. Acredito que sejam estes os únicos momentos de verdadeira privacidade em toda a vida.

 

Depois do primeiro toque do sonar decidi me organizar. Primeiro lembrando onde estava. Depois meu nome. Em sequência tentando entender pernas. Braços. Cabeça. Cabelo. Localizando. Nomeando. E me juntando. Para poder me levantar. Acho que isso faz parte não só da rotina do amanhecer. Mas ainda tinha um agravante. Pior. Muito pior. Horário de verão. Verão.

 

Não sei qual. Porque acordo e ainda está escuro. E sempre chovendo.  Deve ser uma piadinha.  Algo tipo depois verão. Só depois. Porque agora vejo nada.  

 

Mas sai do meu submarino. Não importa em que fase estava. Em que profundidade estava. Estava na hora de emergir. Foi o que o sonar ordenou.

Momento de abrir os olhos e fazer uma troca. Sair da fantasia. Entrar na realidade. Tudo bem que não precisava fazer o mesmo com o vizinho. O de dois andares abaixo. Tal o pulo que dei. Mas enfim. Nem tudo é perfeito no mundo dos submarinos. Ou no mundo da emersão.

 

No automático se foram arrumação e desjejum. Sai. Entrei no famoso trilho. Não sei se ainda da bondade. Mas acredito que um verdadeiro comboio. Como diriam os portugueses.

 

De repente me senti alucinando. Que estranho. Eu parecia estar acordada. A paisagem parecia ocidente-terceiro-mundo. O idioma era o corriqueiro. Mas algo estava estranho. Só tinham japoneses. Todos eram japoneses. Arrisquei, sabe-se lá porque, me olhar num reflexo do vidro. Quase perdi o fôlego. Eu também era uma japonesa. Eu. Que acordara com espírito helênico. Dentro de um submarino. Tinha me transformado numa japonesa.

 

Olhei de novo. Desta vez com mais cuidado e apuro. Não eram japoneses. Era a dificuldade de todos. De abrir os olhos. Semi cerrados. Este o termo exato. Todos pareciam orientais. Todos sonolentos com seu meio olhar. E eu compondo o quadro pseudo-oriental.  Quase ri.

 

Uma hora depois cheguei lá. Ai sim. Acordei. Nada mais de bobagem de submarinos. De deus acolhedor. A cura do olhar japonês veio rápida e certeira. Já foram me avisando. Que estava lotado. Que tinham cometido um erro. Que tinha mais gente que o previsto. Que eu tinha que atender.

 

Para não complicar a pobre da mocinha que agendara errado. Se eu queria um chá. Se eu estava com meu material. Que uma outra se demitira. Que não estavam concordando. Com tanto trabalho. E que aquela ali só chorava.

A outra lá só corria. Muitos já reclamavam. E tão cedo. E ninguém tinha sido pesado. Nem medido. Nem contado. Que não tinha cafezinho. A cafeteira estava quebrada. E ninguém sabia quem quebrara. Os gráficos tinham sumido. Teve quem falasse que parecia que tinham comido. E ainda mais. Comido com farinha. Os gráficos.

 

Sentei. Arrumei o meu material. Lembrei do amanhecer. Fazendo promessas. Tentando negociações com divindade. Filosofando com um sonar. Viajando no Expresso do Oriente. Dissertando sobre dia útil. Reclamando do horário. Do verão.

 

Pensei. No milésimo de segundo que me foi permitido um pensamentozinho particular. Pensei. Nada como um dia após o outro. Amanhã tem mais. Vai ver por isso inventaram o pesadelo. Para sacudir o tal deus acolhedor-libertador. Que ele me aguarde. Fantasia não tem limite.

 

publicado por Lêda Rezende às 22:11

Abril 09 2009

Nunca mais brinco. Prometo. Vou até emitir um documento. Nunca mais brinco com a palavra Susto. Vou até mandar para um reconhecimento de assinatura. Em duas vias. E emoldurar.

 

Feriado. E na segunda-feira. Presente divino. Certo. Do prefeito. Para mim agora um semi-deus. De repente eis um feriado prolongado. E saber que na segunda ainda é domingo. Que maravilha. Tanto tempo que não folgo na segunda.  

 

Sol durante o final de semana. Piscina. Estilo férias no terraço. Sim. Vamos fazer então o churrasco. No sábado. No final do dia. Nós seis. Ainda bem que somos. Nada de título de livro. Vamos aproveitar. E nada de preocupação. Na segunda-feira ela dará o jeito certo.

 

Que delícia. Sim. Só ele sabe fazer um churrasco assim. Só ele. Sim. Todos concordamos. Que churrasco maravilhoso.

 

Cuidado. Não se preocupe. Copos quebram mesmo. Sim. Caiu escada abaixo e espatifou bem embaixo da escada. Vou só pegar os pedaços maiores. Não tem importância alguma. Fica tranqüila. Hoje é só festa. Na segunda-feira ela dará o jeito certo.

 

Sensacional a idéia dele. Mas trouxe inteira. E nunca sei o que fazer com ela inteira. Em geral só compro a cauda. Mas não tem problema. Sim. É só colocar para ferver. Aferventar como se diz lá de onde vim. Duas panelas grandes. Temperos picados. Que cheiro maravilhoso. Cuidado para não se queimar. Deixa aí mesmo. Na segunda-feira ela dará o jeito certo.

 

Não acredito. Outro copo. Mas tudo bem. Certo. Empurra então para debaixo da cama. Sim. Melhor mesmo tirar o tapete. Vamos colocar na varanda. Assim não tem risco de alguém se cortar.  Sim. Fica tranquilo. Na segunda-feira ela dará o jeito certo.

 

Tão bom dormir na hora que se quer. Especialmente no domingo. E sem preocupações com o dia seguinte. Tomei até uma taça de vinho. E domingo à noite. Coisa raríssima. Viva meu feriadão. Se eu não gostasse desse prefeito agora mudaria de idéia. Meu prefeito preferido. Ainda bem. Vivas para o prefeito.

 

Mas não coloquei o despertador. Que será que houve. Esta hora. Não é o despertador. É o celular. Encontrei. Sim. Eu mesma. O que aconteceu.

 

Certo. Está doente e vai para o hospital. Agora. Hoje. Desejo melhoras.

 

Obrigada. Não se preocupe. Saúde e doença não dão aviso prévio. Certo.

 

Certo. Repeti isso para mim. Trinta vezes. No mínimo. Certo. Certo. Olhei em volta. Olhei até para o calendário. Era realmente segunda-feira. Do feriado. Feriadão. Que maravilha. Sai do quarto. E já continuei de pé. Nada de cair de costas. Com Sustos. Este Susto foi mega campeão. Mas o amor pela vida falou mais alto. Gritou, melhor dizendo. Tinha muito vidrinho pelo chão. Podia me cortar. E de acordo com a queda cortar até a língua. O que poderia parecer merecido.

 

Tomei uma decisão. Filosófica. Começar de cima para baixo. De baixo para cima seria uma espécie de contramão. Consegui rir. Sozinha. Contramão era a palavra exata. Lembrei do prefeito. Que dera o feriado. Feriadão. Ele que cruzasse meu caminho agora. Ia ver a mão e a contra mão. Ia ver bem de perto.

 

Muito bem. Deixa conferir. Vassouras. Apanhador. Baldinho. Paninhos. Saquinhos de lixinho. Acho melhor assim. Falar no diminutivo. Para que fique mais suave. Leve. Afinal são pequenas tarefas.  Pequenas. Novamente repeti para mim. Trinta vezes. No meu feriado. Feriadão. Este não consigo - falar no diminutivo.

 

Melhor guardar o biquíni. Não vai dar tempo mesmo. Mas tudo bem. Sol envelhece. Quem sabe é uma ajudinha divina. Melhor deletar este segundo pensamento. Sobre a ajudinha divina. Ele às vezes se Aborrece. E fica Vingativo. Chega já de problemas. Por hoje.

 

Mesmo querida. É o que você sugere. Que faça uma massagem. Logo depois que colocar tudo no Lugar. Tão delicadinha. Agora me exigi um diminutivo. Poderia ser perigoso. Às vezes uma palavrinha se modifica. Assim. À toa. E vira uma palavra maior. Obrigada pela idéia. Uma massagenzinha.

 

Sim. Estou quase acabando. Me chamou de exagerada. Achou que exagerei. Não fazia mal do jeito que estava. Que simpático. Poderia ficar assim a semana toda. Que solidário. Sim. Vou desligar. Posso não conseguir um diminutivo adequado agora. Deixa pra lá.

 

Então você acha que foi isso. Ela colocou uma câmera escondida. E viu da casa dela. Daí faltou hoje. Hilário. Não fosse a minha pressa e ficaria aqui. Rindo ao telefone. Por horas. Com você. Muito criativo. Depois a gente organiza a criatividade.

 

Já é tão tarde. Mas não faz mal. Acabou. Acabei. Acabamos. Acabaram. Comigo. Acho que caiu meu oxigênio cerebral. Tirando aquela escorregadinha que dei com o paninho. E uma leve torcidinha no pé. Tudo ficou prontinho como num passe de mágica.

 

Viva o diminutivo.  Apaga o feriadão. Palmas para os caquinhos de vidro. Saudações para a massagista. Acenos para a câmera oculta. Quanto ao prefeito – melhor esquecer.  Nada de qualificar o prefeito.

 

Amanhã – felizmente – já é dia de Trabalho. Repeti isso trinta vezes. No mínimo.

 

 


Abril 08 2009

Desisti de evitar sustos. Nada resolve. Susto é parte integrante da vida. Só não toma quem já não faz mais parte dela. Ou o faz em outro nível. Mas nunca soube de algum relato. Se lá também se toma susto. Enfim. Susto é vida. Nada mais a acrescentar. Diriam os pragmáticos.

 

Fiquei assustada com a Palavra. Assim. Sem mais nem menos. Descobri o quanto a Palavra assusta. A congelada. A pretenciosa. A despretenciosa. A que tem entonação. Esta principalmente. Porque a entonação real é de quem escuta. De quem lê. Jamais de quem fala. Ou de quem escreve. Quem fala ou escreve está sempre do outro lado. Não sei qual. Mas de um outro lado.

 

Agora me lembrei dele. Tinha razão. Nada de colocar exclamação em poesia. Isso o outro quem faz. Correto. Corretíssimo. Quem escreve o faz à mercê. De quem lê. Isso faz da Palavra um objeto duplo. De desejo e de temor.  De quem gosta e de quem não gosta. Pode-se dar qualquer entonação. Pode-se até sentir proprietário da tal entonação. Mas nada. É coisa de locação. É dono só pela metade. Pela emissão.  A posse é realmente do outro. Pela omissão.

 

Há um poder em uma Palavra e em sua entonação. No ouvido alheio. Na estrutura alheia. Nas mágoas alheias. Pode dar em sim. Pode dar em não.  Pode até justificar um nunca pensei. Nem acreditei. Um apavoramento - estou pasma. Um extremo - estou saindo. Um chorado - adeus. Um aliviado - nunca mais. Um sorridente – adorei. Toda uma situação nova pode ser construída e reconstruída. E até muitos divãs preenchidos. De entonações. Se sobrepondo. Cada um jurando. Temendo. Se desculpando. Acusando.  Até sofrendo. Mas afirmando. O erro é do outro. A Palavra foi dita assim. E defender em causa própria. Não existe isso nas Palavras. Não existe causa própria.

 

Falam. Gritam. Num festival de entonações. Ninguém mais sabe quem falou.  Ou quem gritou. Nem por que. E acabam por desviar a atenção. Do objeto inicial. Como se a vida também corresse desta forma. Num estilo comissários-passageiros. No ar. Todos sempre tentando tirar um cinto da segurança. Para que possam correr atrás da Palavra sem segurança. Procede. É pela Palavra que surge a insegurança. Mas é nela que todos se seguram. Para se defender. Paradoxal e cruel.

 

Assim é a Língua. Feita para construir. Para compartilhar. Mas sempre presa naquela praga. Da torre mítica.

 

Nada a fazer. Com a Palavra mal soada. Ouvidos são – sempre -  egóicos.

 

Chorar não dá ritmo. Rir não dá bemol. Desconsiderar sim, pode dar em orquestra. Cada um e seu tom. Usando o seu instrumento da forma aprendida. Ensinada. Seguindo a sequência. Mas vai sempre acontecer um desafino. Um destoado. Mesmo que muito se ensaie. Nada poupa a Palavra dita. Não tem batuta que a oriente nas partituras da emoção. Nem dó de peito. Nem peito com dó. Cada um vai ter seu mestre. Sua maestria. Sua singularidade. Depositário das suas queixas. Das suas dores. Dos seus preconceitos. Das suas lembranças.

 

Lembro da minha avó. Não havia um dia que não repetisse. Pensa mais e fala menos, menina, pensa mais e fala menos. Sábia. Porque não há saída.

 

 A Palavra fica ali. Na ilusão de cada um. Do que foi claro - explícito. Do que restou dúvida – implícito.  Como se algo pudesse ser evitado. Se não hoje, se não amanhã. Dentro da complexa realização do que se diz. No até que a morte separe. Ou no que disse está dito. No eu falei primeiro. O que não faltam são frases falso-elucidativas. Palavra de honra.  Escreva o que digo.

 

Sem esquecer os mais crédulos. Avisam com voz segura. Entonação de força. Assino embaixo do que falou.

 

Nesta roda de letras se diferenciam homens e animais. Na natureza. Um tem a Palavra. Outro tem o instinto. Um a buscar “insatisfazer” as demandas. O outro a atender as necessidades. E cada um girando em volta da sobrevivência. Com ou sem Palavras. Como num grito de vôo com provérbios.

 

A Palavra sob Palavra. Como um pudor às avessas. E às pressas. Arriscada. Desafiada. Tentada. Com toda uma ética envolvida e constantemente burlada. Com gramática e sintaxe. Acentos e fórmulas. Por tudo isso – e para tudo isso - sempre surpreendente. Cercada de sustos e incoerências.

 

 


Abril 08 2009

Estava muito feliz. A viagem fora planejada detalhe por detalhe. Afinal, viagem que não é detalhada não é viagem de prazer. É tarefa. E o que ela menos queria era isso. Tarefas. Queria férias. E lazer. Com uma pitadinha de cultura. Nada de correria. Nada de olhar para a direita. Para a esquerda. Passou. Não viu. Perdeu. Agora é tarde. Quem sabe na próxima. Nada disso. Teria tempo para olhar para o lado que quisesse. Sem seguir ordens. Já bastavam as da rotina.

 

Entrou no avião.  Tinha escolhido esta companhia aérea para fazer já parte do estrangeiro. Nada de companhia nacional. Melhor já ir logo se sentindo em estilo velho continente. Direto para a cidade do seu mini-roteiro. A Cidade Luz. Concentrou-se. Respirou fundo. A viagem era tudo que ela queria. Nada poderia tirar a paz e serenidade que estava sentindo.

 

Enquanto o avião não decolava pegou uma revista. Sempre viajava com uma revista de palavras cruzadas. Tinha esse hábito. Viajava nas letras e nos quadradinhos. Para se sentir mais solta na imaginação. Assim explicava.

 

Esticou as pernas. Dentro do que poderia se chamar de esticar. Naquele exíguo espaço. Tinha outra mania. Melhor gastar em terra que no ar. Enfim todos a bordo. Portas fechadas. Comissários de bordo passando com calma. Olhando os assentos. Sorrisos cordiais leves. Sutis como o sotaque da cidade luz.  Cidade Luz.

 

Fechou os olhos. Descansou a revista no colo. Sorriu para si mesma.

Durou pouco esta etapa. Do sorriso calmo.

 

Primeiro ela deu um pulo. Depois um grito. Algo grudou em seu longo cabelo solto. E grudou forte. Sentiu também na pele do pescoço. Uma moça estava no assento do lado. Solidária, já foi fazendo dueto. Deu um estridente e longo grito. De repente um coral. As pessoas de trás gritaram. As da frente gritaram. Todos gritavam e pediam socorro dentro do avião. Algumas crianças choravam alto.  Senhoras pediam socorro. Pediam para sair. Pediam para abrir a porta. O avião ainda estava em solo.  As comissárias que já estavam em posição de decolagem tiraram os cintos às pressas.

 

Mas o algo ainda estava grudado nos cabelos dela. Parecia que tinha asas.

 

Porque pulava e embaraçava. E quanto mais pulava mais ela gritava. A moça do assento do lado pálida. Gritando. Tentava desatar o cinto. Nervosa, não conseguia. Lascou a unha. Gritou mais ainda. Enfim um comissário conseguiu chegar perto. Da autora do grito. Porque a esta altura ninguém mais sabia a origem. E o corredor estava com muitos de pé. Pedindo para sair. Outros rezando. Sempre tem alguém que reza. Não sei se por todos. Ou por si.

 

Um grito masculino. Destaca-se. Forte. Decidido. Ele gritou. É minha. Fui eu quem trouxe. Não a machuquem.    

 

Os comissários gritaram. Sentem todos. Outros responderam gritando. Saiam vocês da frente. Queremos descer. Veio co-piloto. Piloto. Ergue-se o homem do grito. Caminha por entre as pessoas no minúsculo corredor. Vai – decidido - com as mãos em direção ao pescoço dela. Uns gritaram. Está armado. Terrorista. Alguns se abaixaram. Poderia ter tiroteio. Mas ele não titubeou. Foi com as mãos nos cabelos dela. E agarrou. Com carinho. Por entre os cabelos. Embaraçada. Desesperada. Uma codorna. Uma codorna. Que ele levava escondido numa caixinha. Abrira para ver se estava bem acomodada. Não deveria estar.

 

A cena seguinte constava de um senhor acompanhado de um policial saindo do avião. Abraçado a uma semi-nua codorna. Dentro do avião os comissários repetindo o sutil sorriso.  As crianças recebendo brinquedinhos. Os pais doses de alguma bebida. Um refinamento com sotaque. Como se nada tivesse acontecido.

 

Ela quis pedir uma água. Não tinha voz. Na confusão rasgara a revistinha. Os cabelos em pé com a revoada. Entre penas e fios de cabelo ela lembrou um provérbio. Antigo. Algo como um na mão. Dois voando. Não lembrava direito. Começou a rir. Não parava de rir.

 

As pessoas reclamaram. Olharam feio para ela. Talvez um jeito de não serem olhados feio. Afinal todos gritaram. Pensou. Mas só ela era apontada. Enfim. Não importa. Importa a Cidade Luz. Mesmo assim fez a viagem toda de olhos bem abertos.  Os cabelos cobertos com um lenço.

 

E um risinho aqui e ali em meio a alguma turbulência que disfarçasse.

 

 


Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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