Blog de Lêda Rezende

Março 31 2009

Parecia um acesso súbito de confusão mental. Daqueles que se desconhece quase o próprio nome. Ou onde se mora. Ou o que realmente se faz. Mas me contive. Contei até nos dedos. Não para fazer contas. Mas para confirmar que tinha dedos. Depois abri minha bolsa e conferi. Sim. Eu mesma. Dados de residência conferem com o referenciado. Endereço de trabalho idem.

 

Um projeto. Para que se aprenda. Que se declare saudável. Com toda a idéia de renovação. E atenção. Ao menos a idéia. A utilização real sempre é incógnita.

 

Surgiu um atalho.  Sob a forma de um convite. Necessário um remanejamento. Não de função. Não de métodos. Mas de área. Uma outra área. Com maior abrangência e necessidade. Disponibilizam-se vagas. Para voluntários.

 

Lembrei daquele filme. O professor sugeria que se subisse na mesa. Quando se considerasse o visto já reconhecido. Para que se abrisse um novo ângulo. Concordei. É uma forma de sempre rever o mundo. E ter a certeza. De que ele não está pousado nas costas de um elefante. Ultimamente estou mais atenta a dúvidas e certezas. Ou a talvez.

 

No caminho a paisagem foi mudando. A urbanidade se desfazia de forma natural. De prédios a casas. De pontes a córregos. De jardins a árvores. De parque a mata. De motordicas  ao retirante. Uma passagem.  De impressionismo a natureza morta. Às vezes na literalidade. Outras no ritmo da poesia bucólica. Gradual. Mas não muito lenta. Nada por aqui é lento.

 

Quase nada. Ou muito pouco. Deixa pra lá. Vai ver que tudo é lento. Até aí tudo bem. Não tem lugar no mundo que não passe por esta transição. De paragens. Nem sei se o termo existe. Mas me parece bem adequado. Um exagero ali. Outro reduto acolá. Tudo bem. Paisagem e Vida se confundem. Sempre.  

 

Foi nesse pensar filosófico que precisei contar os dedos. Eu que já estava orgulhosa de mim mesma. Não tomava mais susto. Tive uma recaída. Uma baita recaída. Afinal são muitos anos de residência fixa. Neste pedaço de metrópole. Citada sempre pelas dimensões e avanços. Pela sofisticação. Exagero até nos problemas. Mas nunca a este extremo. Este foi surpresa.

 

O local estava fechado. Aguardando o toque da campainha.  Aguardei. Encostada a um portão lateral. Parada em frente a este tal portão. Bem ali. Diante de tanta abrangência sem necessidade que senti. A tal confusão mental.

 

Ao meu lado. Meu. O portão se abriu. O que eu aguardava encostadinha. Que a campainha do outro fosse escutada. O do lado. Eu tão calma. Com minhas teorias de paragens. Quando de repente abre este portão. Acoplado a um muro alto. E saem de lá uns quarenta. Não. Acho que uns sessenta. Vai lá. Talvez uns cem. Tudo bem. Uns vinte. Bodes. Cabras. Com guizo.

 

Passeando e sonorizando o passeio. Como um dia no parque. Não tive jeito. Tentei gritar. Duas coisas podem ter acontecido. Porque ninguém me notou. Ou a voz não saiu. Ou os guizos abafaram a voz. Sem terceira opção. Mas não parou aí. Olhei para o que seria um morrinho. Por trás de uma casa vizinha. E lá estava tranqüila. Feliz. Recebendo a brisa. Gozando do simples prazer da existência. Uma vaca. De frente para dois cavalos. Assim. Sem mais nem menos. Com toda a naturalidade. Aliás, um resumo completo de naturalidade.

 

Pensei em nunca mais comer camarão abafadinho. Devia ser isso. O almoço de ontem. De tão divino causou alucinações. Ou desistir de replicar questões de pontos. Ou fazer reza Benta. Vai ver foi castigo. Decidi conferir se era eu mesma. Que estava ali. Que estava em cima da mesa. Quero dizer, do carro. Do porta-malas. Em cima do porta-malas do carro. Que por sorte não sei de quem, não consegui abrir. E que tremia. O carro. Depois concordei. Eu tremia. Sacudia. Entre os calmos bodes. E cabras. E guizos. E o olhar plácido, ruminante. Da vaca. Sim. Tudo confirmava. Era eu mesma. E, importante - acordada.

 

Enfim superado o primeiro choque. O segundo. E o terceiro. Comemorei. O portão esperado abriu. Uma mocinha apareceu. Eu em cima do porta-malas do carro. Nada falei. Ela só me olhou. Me pareceu tranquila em relação ao movimento, digamos assim. Talvez intranquila em relação a mim. Me identifiquei. Entrei. Todos me aguardavam para dar continuidade. Ao proposto.

 

Viva a urbanidade. A mesa. A visão ampla. O local abrangente. Agora sei. O mundo não está apoiado nas costas de um elefante. Ainda bem. Era só o que me faltava. Um elefante.

 

Por segurança contei os dedos de novo.

 

publicado por Lêda Rezende às 02:12

Março 29 2009

De repente lá estava a Vida emboscando os métodos.

 

Lembro o dia da chegada deles. De cada um em especial. Vai ver por que foi nesta época. Agora são dias de festejos. Tempo de festejos. A cada ano se renova a emoção. Eles sempre riem de mim. Por que a cada ano aviso que esta sim, é uma data especial. Pelos anos vividos. E eles sempre respondem. Que falo isso todo ano. É verdade.

 

Mas falo porque realmente acho. Que cada etapa vivida, seja de calendário, seja de emoção, é sempre única. Eis algo que não se pode repetir. Quando chega se bate palmas. No dia seguinte já acabou. E é seguir para aguardar a próxima. Que será, de novo, única.  

 

Chorei pelos dois. E dizem que só se chora pelo primeiro. Que a emoção é mais precipitada. Pela descoberta.  Pela iniciação. Sei lá mais o que dizem. Não conheço nada mais cantado. Em prosa e verso. Esculpido.  Pintado. Redesenhado. Referendado. Poderia aqui fazer um novo tratado.

 

Nem sei quantos já vi representados. De forma eterna. De forma prosaica. Dos sacros aos profanos. Do clássico ao cubismo. Sempre a busca pela representação perfeita. De um afeto. De uma nova função. Muitas vezes de uma esperança. Sobram estilos. Sobram cores. Sobram frases. Mas falta sempre a verdadeira exposição. Acho que afeto é assim. Uma força de expressão.  Eufemismo persistente diante do que realmente se sente.

 

De nada serve tanta informação prévia.  Experiência alheia. Teorias antigas. Modernas. Técnicas. Nada. Só no momento em que se instala é que cada uma vai poder sentir. E vai repetir. A constante busca da palavra perfeita. Da expressão perfeita. Para definir.

 

Avisei que não conseguia falar. Que estava perdendo a voz. Todos riram.

 

E ele disse em tom irônico. Que nunca tinha visto alguém falar tanto. E avisar que estava sem voz. Tudo isso antes. Imediatamente à tremedeira. Às tremedeiras, melhor dizendo. Porque tudo que aconteceu na primeira vez, aconteceu na segunda. Mesmo que com um hiato de alguns anos. Parecia reapresentação. Tudo igual. Mais uma vez. Tremi nas duas vezes.

 

Incontrolável. Tremia tanto. Sacudia todo o corpo deitado. Todos em volta riam. Todos eram amigos. Mas não compreendiam. Lembro de um detalhe especial. Por causa da tremedeira.  Seguraram meu queixo. E espantados comentavam.  Nunca souberam de alguém que precisasse ter o queixo segurado.  Neste tipo de situação. Para que a finalidade fosse cumprida.  Precisei. Seguraram com força. Bendigo até hoje esse ato de generosidade. Não me restaria um só dos necessários a uma boa mastigação.

 

Mandavam parar. Mandavam acalmar. As ordens vinham aos montes e de todos os lados. Mandaram até pensar em outra coisa. Nesta hora quase ri. Como. Como poderia pensar em outra coisa. Que coisa seria essa. Que boa idéia tiveram. Em segurar meu queixo. Assim pude transparecer educada. Que sorte. A deles. Pensamento não sai em legendas. Como nos desenhos animados. 

 

Como disse certa vez, o corpo não obedece a ordens. Pelo menos as de fora. Quando decide se comandar nada mais o impede.  E o meu estava se comandando do jeito que achava que devia. Tremer também é forma de expressão. É festejo. Hoje sei disso. Na época não sabia.

 

Só tremia.  Nunca mais tremi assim na vida. Só essas duas vezes.

 

Quando chegaram, cada um na sua época, o corpo parou de tremer. Chorei nas duas vezes. No início só falava e avisava que não tinha voz. No depois não conseguia falar. Como se a voz não tivesse mais importância alguma.  Por um instante me fiz silêncio.

 

O silêncio era diferente dos que já tinha vivido. Inegável.  Era silêncio povoado. De emoções mistas. E individuais. Não conseguia dividir com ninguém o que sentia. O que estava começando saber.  A conhecer. A aprender.

 

Me fiz colo. Me fiz olhar. E me desfiz e me refiz em sorrisos. Até hoje.

 

Não posso esquecer o poetinha que nos advertia deste – para sempre - logo depois. Dos pedidos fervorosos de salvação. Do choro de desespero por qualquer ameaça de sofrimento. Da solicitação eterna de proteção divina. Terrena. Angelical. Não há santo em descanso no depois. Nem bem se encerra um apelo e já vem muitos mais em seguida.

 

Agora se completam tantos anos. Nos festejos têm tantas vozes. Muitos se agregaram. Outros se foram. Somos mais que antes e menos que antes - ao mesmo tempo. Há lugares vazios nas fotos e lugares preenchidos na memória. Risos novos e lágrimas velhas. O inverso também procede.

 

Mas a magia da vida se faz valer. E faz valer a Vida. Continuando.
Ano após ano. A cada ano.


Março 28 2009

Ela estava curiosa. Queria saber da festa. Do casamento na roça. Dos novos amigos conquistados. Dos velhos amigos referendados. Ela era a própria interrogação. Até brinquei. Que torcia para só deixar exclamações. No lugar das interrogações. Nas respostas. E nenhuma reticência. Para que ela se satisfizesse. Mesmo estando tão longe.

 

Esta coisa de além-mar sempre é problemático.  Isso aprendi faz tempo.

 

O que impede a rotina é distante. O que impede o impulso é distante.  O que tem que ser planejado demonstra a distância.

 

E assim ela está. Distante. Não sei se já sentiu isso. Se já aceitou. O planejamento. Ela é sempre muito reservada. Em seus temores. E até em suas ansiedades. Aguarda os acontecimentos. Aliás, assim a definiria. O estilo aparente dela. Só o aparente. O de dentro ninguém sabe. Muitas vezes nem o próprio dono. Pode-se ser senhor de si. Mas é muito mais complicado ser dono de si. Minha avó sempre me disse. Aparência é igual a dúvida, menina, igual a dúvida.

 

 Muitas vezes penso que só eu sou ansiosa. No mundo. Porque todos sempre me parecem tão resignados. Diria até amadurecidos. Só eu sofro de mania de surpresa. Mas lembrei – agora - do poeta português. Falou que só ele apanhou na vida. Os amigos todos só se deram bem. Pode ser engraçado. E por isso mesmo verdadeiro. Assim são as aparências. E muitos dos auto-relatos. Vai ver por isso não há julgamento definitivo. Dever ser isso que significa a palavra instância.

 

Mas hoje falamos. Usamos das modernidades. Para isso estamos neste século. Para usufruir o que ele apresenta de melhor. As modernidades nas comunicações. E celebramos a evolução. Cedo para uma. Já tarde para outra. O relógio não obedece a novidades. Mantém seus fusos intactos.

 

Podem inventar o que quiserem. O tempo real é domínio do relógio.

 

Estava tão séria. Senti pela impressão digital. Também tenho meus critérios evolutivos. Não são só corporativistas que o detêm. Perguntei. Pela seriedade. Contou. Com direito a dois pontos e hífen.

 

Saíra ontem. Para um jantar. Arrumara-se. Escolhera com detalhes. Tudo que iria acrescentar. À sua imagem. Tudo em estilo outonal. Olhou-se no espelho. Gostou do que viu. Segurou a própria bolsa. E desceu as escadas.

 

Sempre faz isso. Despreza o elevador. Acha que ele só serve para elevar flacidez. Dos músculos. E recusa-se a compactuar com ele. O elevador. E lá se foi. Tudo ia muito bem. Até que chegou na escada que dá acesso a uma calçada. Como de hábito também desprezou o corrimão. Artefatos desnecessários. Seguia este conselho de uma parente sofisticada. Uma mulher desce as escadas sem olhar os degraus. Como aquela atriz magrinha dos filmes antigos. Observe se algum dia ela desceu uma escadaria olhando para os pés. Nunca. Só olhando em frente. Vai lá saber os truques negativos da memória. Foi relembrar disso justo naquele momento. Obedeceu.

 

Repetiu. Desceu olhando em frente. Segura apenas em sua bolsa.

 

Outono. As árvores se desfolhando. O céu cinza escurecendo para a noite. Muitas folhas pelo chão. Pelos degraus. Linda cena. Como uma tela de francês impressionista. Se não fosse - de novo - a intervenção da realidade.

 

Cruel realidade sazonal. Olhando para as árvores. Pisou nas folhas. Escorregou. Nas folhas. Que aceleraram a descida. Desceu os degraus numa posição nada convencional. Nada em combinação com a proposta. E se viu na calçada. Rasgara a saia. Machucara o braço de leve. A musculatura reforçada pelo não uso do elevador sofrera menos com o impacto. É certo que caiu. Mas me acrescentou. Lentamente. Muito lentamente. Nada de alvoroço em quedas. Isso nunca.

 

E fiquei pasma com a continuação do relato. As meias. As meias não rasgaram. Nada daquele comentário desolado de fio puxado. Em meio a tudo isso. Diante do outono. Diante dos galhos desfolhados. Poupara a meia fina de seda.  

 

Lembrou da parente sofisticada. Também pela impressão digital pude sentir. O olhar fino e irado pelo pensamento. Da orientação da parente. Mas se recuperou. Levantou-se também lentamente. Não por imposição de elegância. Desta vez a dor fez esta aparência prevalecer. Não gemeu. Não chorou. Conferiu as meias. Continuava segura na bolsa. Ajeitou os cabelos e continuou.

 

Foi ao jantar assim mesmo. Com o pequeno rasgo na saia. Mas com as meias perfeitas. Alguns apontaram. E perguntaram.  Outros nem notaram. E se anteciparam.  Só ela ria. Com um certo disfarce. E muito esforço. Para destravar o olhar fininho da lembrança da parente sofisticada.

 

Na manhã do dia seguinte a musculatura dolorida a despertou para o dia. E para as interrogações. Olhou a saia no cabide. Com seu pedacinho também sofrido. Olhou para as meias. Sorriu. Conferiu os dedinhos das mãos. Intactos. A conversa poderia se estabelecer. Com fuso ou sem fuso. Com rasgo ou sem rasgo. De folhas a flores. De outono a primavera.  

 

Uma lady!

 

 


Março 27 2009

E lá estavam todos. Conforme o demandado. Conforme o combinado. Para a noite festiva. Como um brinde de Martini impresso. Sem esquecer as azeitonas. Genial.

 

Quando cheguei já o vi. Sorridente. Bonito. Alegre. O vermelho da gravata em compasso com a alegria pelo encontro. Parecia cansado. Mas atento. E feliz. Para todos sorria. Um sorriso acolhedor. Além do exclusivo profissional. Competente em ambos.

 

Todos foram aos poucos se agrupando. Um temporal havia brindado o trânsito pouco antes. Mas os convidados foram chegando. Juntos. Separados. Daqui. Dali. De lá. Felizes. Todos se sentindo dentro do intitulado no convite.

 

Rimos muito. As três. Com um espaço tão maravilhoso. Uma vista panorâmica de arrepiar. E iniciamos a noite bem ali. Justamente ali. Nada elegante. Mas, repensando. Apropriado.  Sim. Sempre se pode dar mais um retoque. Um treino. Rimos por conta disso. Diante do espelho. Falando ao mesmo tempo. As três. Mas com total compreensão do falado. Individual e coletivo.

 

Nos reunimos a eles. Comidas e bebidas adequadas no lugar adequado. Mais uma vez. E os risos. Principalmente os risos. Este é o meu som preferido. Risos em burburinhos. Aqui e ali. Isso sem falar nos olhares. Estes sim. Denunciavam bem os motivos. Por todos estarem ali. Com ou sem temporal.

 

Olhar é muito mais pragmático do que riso.

 

Ele veio de lá. Foi apresentado. Se apresentou. Parecia surpreso, constrangido e disposto. Tudo ao mesmo tempo. Todos se conheciam por escrito, digamos assim. Difícil falar com a letra. Afinal, letra não tem tom de voz. Não tem sotaque. Não tem mímica. Muito menos coletividade.

 

Na letra o exercício da solidão ganha sempre o primeiro prêmio.

 

É nessas horas que entendo os escritores. Poetas. Até os Pintores. O silêncio. Mas foi nesse Lugar. Com letra maiúscula que a letra expôs sua face. Mostrando suas imagens. As emoções já haviam sido demonstradas. Naquele outro mundo paralelo onde todos nós acabamos por nos identificar. Simbolicamente. Esta noite foi diferente. Foi a noite do corporalmente. Inclusive corporativamente. Procede.

 

Depois das apresentações já fui logo agradecendo. Pelo Lugar que me deu. Pelos Campos.  Nos dois mundos. E informo. Surgiu uma nova malinha. A de sorrisos. Lembrei da minha avó. Sempre me ensinou. Os sorrisos vão e voltam, menina, vão e voltam.  

 

Todos se apresentaram a ele se reportando às citações anônimas. Onde cada um estava num escrito. Desconheço apresentação mais verdadeira. Cada um se expondo e se impondo. Via um texto. Seu Lugar no texto. Eles também. Ele ainda ajudando com a bolsa.

 

De repente ele mesmo, o meu querido e gentil amigo da bolsa, resolve me dar mais notícias. Sobre novos lançamentos. Não achou suficiente o susto do escritor lusitano. Agora mais esse. O fato limitante. Dos pobres mortais nos quais me incluo. Como se não bastasse cada vez que visito os escritos dele.

 

Sempre me sinto na Idade Média. Na velha e boa Idade Média que tanto quis ter vivido. Ele faz isso com malvada sabedoria. Ver as fotos e ler o texto que ele escreve já me coloca no túnel do tempo. Seriam aqueles lá carros. Ou seria este objeto que fica em minha garagem. Difícil. Só não vou dizer que esta é uma das outras linhas difíceis de demarcação porque esta não é. A linha é bancariamente visível. E a Ilha é bem conhecida.

 

Depois outro susto. Então era ela. A autora de tantos testes. Do alto da sua delicadeza se revelou. Muito riso. A bolsa quase caiu do ombro dele. com o pulo que eu dei. E naquele mesmo espaço que eu também circulava. Com escritos técnicos. De sim e de não. Ela com o “se” e eu com os “sim e não”. 

 

Vai ver foi por isso. Nunca soubemos uma da outra. E circulávamos com nossas letrinhas com tanta tranqüilidade. Numa exposição de idéias e de “se”. Não esqueço os testes dos “se”. Se você é ciumenta. Se você é ansiosa. Se você é tímida. Se você tem baixa auto-estima. Nem lembro mais. Lembro que tentei responder alguns. Eu era tantos “se” positivos que desisti.  Me vi sem cura. E até bendizendo a psicóloga do passado. Como ele me disse dia desses. Mesmo sendo tão jovem. Já tem tanta sabedoria. Não é que as pessoas não mudam. As pessoas não aprendem. Ele está certo. Melhor ler sobre os novos automodelitos!  E acreditar que essa coisa de teste pode ser maravilhosa. Para uns. A mim nunca beneficia. Rimos com a descoberta.

 

Notei que uma das participantes do Lugar estava sozinha. Sem jeito. Tensa. Imaginei o quanto é complicado estar num lugar e não estar ao mesmo tempo. Sim. Porque percebi que ela só queria fugir. Mas tinha que ficar. Igual letra de samba canção. Um lenço vermelho no pescoço parecia uma corda.

 

Por onde de vez em quando ela repetia o mesmo gesto. Esticava. Acho que vou aconselhar aos menos avisados. Em situações de desconforto. Deixem os lenços em casa. Já que têm que levar os pescoços. Ri. Mas fui até ela.

 

Convidei para se integrar. Agradeceu. Percebi que sentiu uma pontinha de alívio. Um amparo. Não é possível. Inacreditável. Ela. A mocinha do lenço vermelho. A responsável oculta pelo espaço dos testes do “se” e dos escritos técnicos. Conclusão quase copiando o paradoxo do grego. Todos os mundos são pequenos.

 

E assim foi a noite. Do Martini digitalizado à possibilidade real de risos, sustos e surpresas. Acho que na dose igual. Com o passar das horas foi se esvaziando. Cada um buscando seu norte. Solidários. Isolados.

 

Ele me abraçou. Falou em tom suave para mim. Disse que estava muito feliz. Pela noite. Por mim. Pelas conquistas. Em terrenos tão desconhecidos. Pela coragem na exposição. Foi o que falou. E repetiu.

 

Quando saímos, ofereceu-se para levá-lo até o local indicado. Ele que viera de tão longe. Chovia e estava frio. Viajaria no dia seguinte. De volta para lá.

Acredito que teve algum excesso de bagagem. Uma de mão. As imagens de cada um. As outras três mais pesadas deve ter despachado. Uma de exclamações. Outra de sorrisos. E a maior de todas. Esta sim. Pagou caro pelo excesso. Da amizade conquistada.

 

Mas acho que vale! Tomara que ele concorde! Com este excesso! 

 


Março 26 2009

Decidimos ir juntas. As três.  Ao mesmo espaço.

 

Assim poderíamos falar e trocar opiniões. E sugestões. Imagens sempre são objetos de inseguras opiniões. E cuidadosas sugestões. Por uma palavrinha mal colocada, ou mal sonorizada, pode-se provocar enormes desastres.   

 

Mas fomos lá. As três. Ela viera de muito longe só para este acontecimento. Era realmente um acontecimento.

 

O lugar era muito lindo. Uma delicada mocinha nos servia a bebida adequada ao ambiente todo o tempo.Se tivéssemos concordado todas as vezes que ela vinha nos oferecer, iríamos acabar mesmo era dormindo. Com todos ou sem nenhum dos acréscimos escolhidos.

 

Começaram as mudanças. Pinta. Corta. Prende. Enfeita. Acrescenta. Esconde. Nos indicaram o outro andar. Para complementar. Neste andar outra delicada mocinha e um delicado mocinho se incumbiam dos últimos retoques. Ele foi logo avisando. O delicado mocinho. Nada de ficar piscando os olhos. Isso só atrapalha. Gente fina não pisca o olho nestas situações. Fica até catatônica. Mas não pisca. Um movimento em falso - e tudo poderá estar perdido.

 

Antes de chegar a minha vez escutei o que o delicado mocinho falava. Para uma sofisticada senhora. Conversavam sobre as distâncias. Ela tinha voltado de bem longe, de uma viagem de quarenta dias - há dois dias. Trouxera-lhe os famosos doces, de lá, de presente. Ele nos informou. Orgulhoso pela competência. Ao menos assim me pareceu. Logo que ela saiu. Quando na cidade, nunca lavava o rosto em casa. Só neste lugar. E sob os cuidados dele. Trocava a cada dois dias. Os artefatos, digamos assim.

 

Fiquei imaginado o quão relativo e elástico é o significado da palavra prazer. Considero, como um deles, aquela coisa simples da água escorrendo do cabelo aos pés. Assim, sem pretensão. Desde a invenção do chuveiro. Eu a achei admirável. A senhora das longas viagens. Mas não a invejei.

 

Chegada a minha vez, esforcei-me muito para ficar catatônica. Lembrei da minha avó. Vivia me repetindo. Fica parada uma vez só, menina, fica parada uma vez só. Foi difícil. Mas consegui. Ganhei um meio elogio. Dito à meia voz. Sem muita convicção. Mas aceitei. Até agradeci. À minha avó. Não ao delicado mocinho.

 

Enfim encerrada esta tarefa-escrava-da-vaidade.

 

Estávamos as três lindamente irreconhecíveis. Assim nos diziam. E eu até dei uma confirmadinha no espelho. Num passar rápido de olhos. Gostei do que vi. Mas nem insisti. Numa outra olhadinha. Naquela altura do tempo não dava mais para discordar de nada. Entendi em segundos a frase que se diz. Em cima da hora. Entendi na hora que ele ligou. E falou assustado. Ainda. Ainda estão aí.

 

Quase me confundi com a senhora do-rosto-não-lavado-na-residência. Parecia que estávamos fora há já aos tais quarenta dias. Pedi calma. Mais a mim que a ele. E retornamos. As três.

 

Não dava para acreditar. Em meio à caminhada de volta. Isso não poderia ter acontecido. Depois de tanto esforço. E dizem que Ele lhe deu a chave do Paraíso. Não pode ter sido. Ou vai ver deu um cochilo. Não se tem tanta coragem assim em desagradar mulheres. Mesmo lá de cima. Pois é verdade. Caiu de súbito a maior chuva. Chuva de verdade. Como nos livros. E a chuva nada respeita. Nem às ordens do delicado mocinho. Mas não dava mais para fazer reflexões sobre meteorologia.

 

Nos enfiamos sob a marquise de um prédio. As três. Assustadas. Temerosas. Com medo de água. Nesta hora entendi a senhora das viagens longas. Certa ela. Não se pode mesmo sentir prazer em gotas caindo de cima. Entendi. Com certeza ela nunca brigaria com o portador da chave celestial. Ao menos não por isso.

 

Pedimos a eles que viessem nos buscar. Estavam juntos. Nos aguardando. Ele tentando acalmá-lo. É perto. Sabemos disso. Apenas uma quadra. Mas com a chuva não dá. Para continuar caminhando. Vieram. Nem sei quem se assustou mais. Porque ele deu um grito de horror. A esta hora. E vocês ainda estão assim. E nós de cá. Outro grito. E como poderíamos estar a esta hora. Só assim.

 

Subimos no apartamento. Correria total. Nem toda maratona. Nem estréia de peça em teatro italiano. Nem cerimônia grega. Veste daqui. Tira dali. Calça daqui. Prende dali. Concorda. Discorda. Reage. Briga com o Criador. Blasfema. Pede perdão.

 

Finalmente prontos. Saímos. Já na porta do elevador escutamos algo que parecia um grito. Até hoje ainda não sei ao certo. O que foi aquilo. Um grito. Um trovão. Uma donzela de ópera. Voltamos alvoroçados. Sei que com o susto a gata pulou em cima do sofá. De branca ficou transparente. Esquecemos dela. Dentro do apartamento. Trancada. Toda pronta. E ia ficar lá. Esquecida na correria. Voltamos todos.

 

Em segundos  foi elaborado um Novo Tratado sobre Culpa e Perdão. Em letra maiúscula. Agora sim. A ordem do delicado mocinho quase se cumprira. Catatônicos. Todos.

 

Recuperamos o susto. Ela a voz. Nós os tímpanos. A gata a cor. Descemos. Entramos no carro. Alguém sugeriu um desmaio na cerimônia. Porque não tinha almoçado. E nada comera até aquela hora. A tão ansiada hora.O freio se fez tão rápido que todos foram em direção ao vidro.

 

Ele desceu. Comprou balinhas. E entregou. Ordenou que comesse logo. Não queria desmaios.

 

Mais confusão. Um brinco se perdera. Todos mergulhados no carro procurando. Nada. Nova ordem. Esquece o brinco. Quase esquecia até das orelhas. Com a rigidez do decreto. Assim pareceu na hora. Um decreto.

 

Enfim. Chegamos. Com ar de paisagem. De paisagem pós-sedação. Todos lentos. Sorrisos educados. Cumprimentos formais. Como se o mundo tivesse sido criado naquele momento.

 

Uma senhora, que me pareceu das Forças Armadas, organizava o cerimonial. Era loura. Pensamento rápido e inoportuno. Algo ela notou. Porque disse meu nome. E me mandou ficar atenta. Em determinado momento, enquanto ela dava as orientações ditas protocolares, até ele arriscou mudar por um segundo de lugar. Escutou de imediato. Volte já para o seu lugar. Sàbiamente obedeceu.

 

Ela entrou linda. Tranqüila. Ele, belo, a aguardava no percurso.  Nós estávamos todos ali. Enfileirados. Tranqüilos. Emocionados. Assistindo.

 

Sim. Sim. Por toda a vida. Na saúde. Na doença. Na alegria. Na tristeza.

 

Sem um brinco. Sem desmaios. Nos lugares certos. Com laços - de todas as formas - unindo.

 

Coitada da gata. Até hoje se recusa a ficar na sala quando escuta barulho de saltos altos.

 

 


Março 25 2009

Quando escutou o nome, entrou.


Chegou sério. Assustado, imagino. É realmente temeroso ir sozinho.  Desconheço quem chegue tranqüilo. Diante da suspeita possibilidade de dor em lugares específicos como este. Segurava uma ficha dentro de um envelope plástico com seus dados pessoais. Formal. Receoso. Diria até reservado - dentro do que a sua idade permitia. Seu gestual era limitado. Como se a contenção exterior lhe ajudasse na interior. Vi que se esforçava para fazer ou dizer nada que pudesse ser entendido como errado. Me pareceu, logo depois que se ajeitou na cadeirinha, muito mais cuidadoso que formal. Mas enfim. Esta também é outra daquelas linhas de difícil separação. Entregou-me, responsável, o envelope.


Tentava arrumar pernas e braços. Numa cadeirinha que o cabia com folga. Perguntou pela real possibilidade de dor. Neguei. Interessou-se, então, pelos objetos sobre a mesa. Nomeados e qualificados, acalmou-se. Mas não sem antes dar uma olhada ampla pela sala. Olhou os outros da idade dele que estavam ali – quase - na mesma situação que ele. Todos estavam acompanhados. Viu que ninguém chorava. Deve ter aprendido. Precaução nunca é demais. Pareceu mais confiante. Deu um meio sorriso.


Se ninguém chorava ele também não precisaria temer. Na igualdade sentiu-se amparado. Pela coletividade sentiu-se, talvez, menos ameaçado. Puxou a cadeirinha para mais perto. A esta altura já mais adequado à sua idade. Começou a fazer pequenas investigações, com as mãos, em papéis e materiais expostos.


Perguntei pelos responsáveis diretos. Uma senhora o acompanhava. Preferia, sabe-se lá porque, ficar nem muito perto, nem muito longe. Se necessário, se solicitada efetivamente, se aproximaria mais. Apontei uma outra cadeira, convidei a se sentar também. Recusou. Estava bem. Preferia ficar de pé. Tinha pressa. Gostaria que tudo acabasse logo. Tinha muito a fazer fora dali. Explicou. Sem pudor. Nem meia voz. O pai está detido. A mãe se foi há quase seis meses. Mora comigo. Sou parente. Afastada. Tenho outros a quem cuidar. Ele me dá muita ocupação. Tem um problema. E não tem ninguém para resolver. Mas não tive jeito. Tive que assumir. Ele não tinha mais ninguém. Que eu saiba. Contou sem olhar para ele. Sem tocá-lo. Falou sem recatos. Como um brechó de sentimentos. Gastos. Rotos. Amontoados. Cada um que descobrisse o melhor que ainda pudesse ser usado. E o pegasse para si. Ficou silencioso. Acho que sabia disso.


Contou-me ele mesmo a sua história. Afirmou orgulhoso. Sou um menino de seis anos. Sei fazer muitas coisas, sozinho. Foi uma vez visitar o pai na detenção.  A mãe ainda morava com ele. Não tinha ido viajar. Viajara mas ele sabia que ela ia voltar. Conforme avisou. Quis conhecer o lugar onde o pai estava. E que de lá não podia ainda sair. Ainda. Repetiu. Escutei. Atenta. Contou-me os motivos. Em nenhum momento baixou os olhos. Falava diante de mim.


Foi fazer uma brincadeira. Subiu no beliche de cima. Fez de conta que estava numa escorregadeira. Num parque. A escada escorregou antes dele. Caiu. A acompanhante arrematou a história. Como se fosse uma roupa velha do tal brechó. Perdeu a visão do olho esquerdo nesta hora.


Ele foi logo me dizendo que seria por pouco tempo. Faria um transplante. De córnea.  Alguém, que não precisava mais, ia dar um olho para ele. Avisaram que não doía. E que quando abrisse os olhos enxergaria pelos dois. Ao mesmo tempo. Mesmo que tapasse um. Ou outro. Enxergaria. Passou os dedos no olho ferido. Como uma demonstração.


De repente deu um pulo da cadeirinha. Ficou tão sério que até me assustei. Não sabia o que acontecera. Perguntou pela data. Pelo dia da semana. Conferiu os dados. Confirmou uma outra data. E dia. Pareceu relaxar. Informou feliz. O pai será liberado na próxima semana. Disse data e dia.


Fazia previsões neste todo-futuro. Iria esperá-lo em casa. De vez em quando conferia. Virava em direção à senhora que o acompanhava à distância. Tinha planos. Mas tinha uma dúvida. Que mais parecia um receio de impedimento. Não sabia onde o pai iria dormir. Tinham muitos na casa. Acalmou-se na mesma rapidez que se preocupara. Tinha já a solução. Dormiria na cama dele. Simples. Resolvido. O pai nunca mais o deixaria. Iriam morar juntos numa casa só deles.


Neste momento a acompanhante se aproximou.  Desdenhou da confiança. Falou das vezes repetidas que já fora detido. Justificou a decisão da mãe. Usou adjetivos nada elogiosos. Para o pai. Falou de abandono. De mentiras. De deveres não cumpridos. Do que sobrecarregara a ela. De tudo que desqualificava. O pai. A situação. Só não percebeu que desqualificou a ela também. Na queixa se incluía sem perdão. Nem observou o jeito que ele se virara para vê-la melhor. Esta foi a única vez que ele se moveu para olhá-la. Com a mesma falta de pudor e recato que ela. Olhou de frente. Como num ajuste de visão. Quem sabe em busca da visão correta. Uma espera. Uma cumplicidade. Difícil decifrar. Deve ter enxergado pelos dois olhos. Pensei. Este olhar que ela nem se interessou. Nem percebeu. Ele não esquecerá. Nem depois do transplante. Em seguida ele ficou de costas para ela. Como se longe dali já estivesse.


Interrompi as palavras dela. Não por ela. Mas por ele. Pelo pai. Pelo dia ansiado. Pelos planos. Pela cama já dividida. Pela solidão apaziguada. Pelo amparo antecipado.


Impossível se saber exatamente quem ajuda a quem. Quem favorece a quem. Idade não é garantia. Sexo não é definição. Privacidade não é abuso. Destino não é criação. Estatuto nem sempre é lei. O contrário também vale. Tentei dizer isso a ela. Mas a vi se afastar com indiferença.


Ele continuou sentado aguardando. Quando acabamos o proposto ele se levantou.


Quando ia sair, sorriu. A senhora se retirou na frente dele. Ele atrás dela. Seguindo. Mas fazendo também seu caminho.


Já na porta, virou-se de repente. Para mim. E me fez uma recomendação. Não esqueça. Repetiu o dia e a data que o pai sairia de lá para a casa deles. E sorriu ao afirmar. Prefiro esperar em casa. Mas se eu for buscar, vou ficar do lado de fora. Não vou entrar lá. Para não cair de novo. Sorriu, acenou e se foi.


Não pude deixar de lembrar o mestre austríaco. O estudioso francês. O filósofo alemão. Havia veracidade, maturidade e sabedoria nestas palavras.


E ditas de forma, por isso mesmo, tão simples e ingênua. 


 


Março 24 2009

 

Perguntou de onde eu viera. Esclarecida a minha procedência se sentiu mais à vontade. Foi o que me pareceu na hora. Porque desatou a falar. O que deveria ser uma conversa - com limites dirigidos - se transformou num monólogo estilo vôo livre.

  

A mulher observava. Calada. Fiquei com uma dúvida. Se ela estava carinhosamente atenta. Ou entediadamente dispersa. Esta separação é bem difícil em alguns casos. E este era um deles. Mas ela ficou ao lado. Do lado. Olhando para ele. Esta também é uma forma de afeto.   

 

Informou ser tenso e agitado. Desde pequeno.  Rimos. Muito. De onde ele viera todos são conhecidos como tranqüilos e descansados. Explicou. Tinha uma explicação plena de sabedoria. Escutei. Até deixei os aparelhos de lado para escutá-lo.  

 

Começou pelo sol. O sol sempre cruel e pontual. O inverso também é válido. Nunca faltava. Nem um dia do ano. Vinha cedo e só saia depois de deixar o chão fervente. Dia após dia. Todo o tempo entre o sol e a noite.

 

Veio entender o que eram estações do ano quando de lá saiu e para cá veio. Achou a coisa mais linda do mundo. As mudanças na cidade de acordo com a época do ano.  

 

Pela primeira vez na vida se interessou em comprar roupas. O primeiro casaco de frio. Não reclamou. Festejou. Parecia coisa do outro mundo.  Nem conseguia dormir olhando-o pendurado na frente da cama. Adorou. Tremia de frio - mas comemorava os arrepios. Como uma festa no corpo. Sorriu quando falou isso. 

 

A mãe grávida, dele - trabalhava na roça.  

 

Ele nascera diante de uma cisterna. Diante de um balde caído no chão. Diante da pouca água derramada. Entre gemidos e correria. A força da mãe para conseguir a água provocara-lhe o nascimento. Antecipado.  

 

Foi nesse cenário que veio ele ao mundo. A um mundo pleno de calor. De ambas as formas. Nunca entendeu. Como sobreviveu. Principalmente depois que viu a filha nascer. Envolta em tantos cuidados.  Num ambiente especial. Só para nascimentos. Achou surpreendente. Os dois nascimentos. O dele. E o dela.

 

Mas retomou o enunciado inicial. O por que de ser agitado e tenso. Eis a razão. Enfim justificava. Desde o primeiro olhar viu correria. Estava explicado o fato e assim entendido. Lembrei do livro do alemão. 

 

Ele fora o primeiro que viera para cá. Ainda adolescente. Mal sabia onde estava. Tinha medo. Mas enfrentava. Numa noite, sabe-se lá porque, tomou uma decisão. A segurança das pessoas iria ser a sua função. Assim fez. E até hoje faz. Lá se vão trinta e sete anos desde o dia da cisterna. E vinte de proteção desde o dia da decisão.  

 

Contou, com uma ponta de vaidade à mostra, um elogio. Num dia de condecoração. Ficou feliz porque o elogio englobava todos da sua região de nascimento. Foi elogiado e citado como um entre tantos que de lá vinham que honravam a profissão. Muito mais que orgulho por si, sentiu orgulho por um povo. O seu povo. Homenageado num discurso de condecoração. Ficou radiante. Quase igual ao primeiro dia de frio. O corpo tremeu. Pelos muitos que nascem diante da cisterna. Por outros tantos que nascem na solidão de um roçado. Mais ainda pelos que nascem e nem suportam esta solidão. E se vão. Sem nada por aqui verem. Nem a beleza das estações do ano.  

 

Os demais irmãos vieram depois dele. Todos hoje graduados. Nível universitário. Falou com satisfação. De um dever cumprido. Acolhera a todos. Com muita dificuldade conseguiu protegê-los. Descobriu, assustado, que muito mais fácil se protege um estranho que um parente. Riu. Não perguntei por que.  

 

Deixei que falasse. Diante de mim. Da mulher com olhar duvidoso. E da filha que nunca saberia o que era uma cisterna.  

 

Muito longe de ser nostálgico. Ele era feliz. É feliz. Sente-se em acordo com sua vida. Aprendi com ele que esta é a verdadeira sensação de felicidade. Estar em acordo. Com a vida. 

 

A mulher riu de repente. Falou que eu não deveria estar compreendendo nada.  Onde já se viu. Falar assim. Ir contando sobre cisternas e baldes. Mas notei algo interessante. Ela - mesmo reclamando - repetia a história. Recontava.

  

Saíram os três. Depois de risos e abraços. Gracejos sobre a origem. Congratulações pelo elogio.  

 

Fechei a porta. Sentei. Olhei pela janela. O dia estava frio. Muito frio. Céu cinza. Uma garoinha deixava o chão mais brilhante que molhado. Lembrei do compositor das estações do ano. Da delícia do som que sai dos violinos. Das mudanças nos acordes com as mudanças das estações. Sempre o escutei. Sempre gostei.  Mas acho que nunca o compreendi completamente. 

 

Compreendi hoje. Entre baldes e cisternas.

  

 


Março 23 2009

Lembrei dela. Melhor dizendo. Lembro muito dela. Todo o tempo. Passei anos da minha infância escutando os conselhos dela. A alguns obedeci. A outros desobedeci. Pela vida a fora. Conselho é assim. Vem vida a dentro e fica – muitas vezes – vida a fora.

 

Um dia, vai lá saber o porque, criou um culpado para os erros no mundo. Era culpado por fatos gerais e particulares, Tudo era culpa do Sputnik.

 

Acho que até hoje ainda é. Culpa do Sputnik. Ela estava certa. E nem sabia como estava. As buscas acabam em mudanças fora do procurado. Nem sempre o encontrado é o adequado ao pesquisado. Acho que ela entendia bem isso. Entendia das utilidades e inutilidades. Das buscas úteis e dos encontros inúteis. Do prudente e do infinito. Da generosidade e da facilidade. Da dificuldade e da conveniência.Entendia de antônimos como nunca mais conheci alguém em toda a minha vida. Só não compreendia os sinônimos. Estes sempre a amedrontavam.

 

Não sofria com as mudanças.  Rebelava-se.Tentava se adaptar ao modo dela. Mesmo que às avessas. Lembro do telefone. Brigava com o telefone. Achava que soava alto. Que assustava muito mais que informava. Que demandava muito mais que ofertava. Uma sábia. Não conseguia diminuir o volume. Quando ensinavam esquecia. E brigava de novo a cada toque. Achava suspeito falar assim. Conversar com alguém sem ver o rosto. A expressão. Mal sabia. Que ia falar sem ver. E que nem faltava muito para isso.

 

Muitas vezes nos surpreendemos com nosso destino. E já são - muitas vezes - cronicamente anunciados. Com a bula oculta, mas presente. De como conviver com eles. De uma outra forma. Como um saber não sabido, como diria o Francês.

Isso dá muito que pensar. Vou pensar sobre isso algum dia.

 

Ela vinha de um tempo de escravos. Mas se orgulhava da família de origem. Alforriaram os escravos antes que a Princesa ordenasse. Não falava do passado. Ou falava muito pouco. Só sobre o passado histórico. Sociológico. Nunca sobre o particular. Não devia ter sido muito bom. Preferia criticar o Sputnik. Era mais simples.

 

Diziam que era braba. Mas oferecia o colo. Respeitava e acolhia os menos amados. E numa época em que faltas eram corriqueiras. Tratadas com indiferença. Despudoradamente.

 

Um dia - nem lembro mais porque - me prometeu um pente de enfeitar o cabelo. E me mostrou o pente. Fiquei espantada com a surpresa. E encantada com o objeto.

Guardava como uma lembrança de um tempo de riqueza. Enrolado em papéis finos. Amarrotados. E me vejo diante do prometido. Lembro do brilho dele no quarto pouco iluminado. Dentro do armário de madeira escura. Como uma mágica. Tinha pedras incrustadas. Era preto. E tinha uns dentes enormes. O pente. Não ela. Ri. Não devia ser tão enorme. Eu que era pequena. Ri de novo. Agora que me lembrei. Já fui pequena.

 

Sonhei anos com esse dia. Quase criei um feriado. Denominei O Dia do Pente. Ela fez um adendo. Uma entrelinha. Tinha que ser uma menina bem comportada. Eis uma palavra em total desacordo. Para uns tem um tipo de leitura. Para outros uma leitura oposta. Acho que sempre segui na oposta.
 

A infância acabou. Nem sei se me comportei bem. Ou mal. Não sei se foi por punição ou por esquecimento. Mas o pente nunca veio.

 

Um dia fez silêncio. Fechou os olhos por conta própria e se foi. Sem Sputnik. Sem alarde.

 

Fiquei sem o pente. Mas com uma malinha de conselhos. Às vezes brilham. Vejo até dentes grandes neles - em algumas situações. Tento usá-los da melhor maneira. Possível e desejável. Abro sempre que se faz necessário. Ás vezes na hora certa. Outras na hora errada. Outras, atrasada. Maioria das vezes até adiantada. Mas é uma malinha com vontade própria. Assim me parece.

 

Guardo-a agora junto a uma outra malinha. A de exclamações. Esta mais recente.

 

Não vejo parceria melhor !

 

 

publicado por Lêda Rezende às 21:19

Março 22 2009

A noite era de festejo.

 

Ele estava lá. Parecia cansado e feliz. Não sei se na mesma dose. Mas sorria. Era também a noite dele. Seus símbolos estavam inseridos num contexto onde se faziam decifráveis - em sua maioria. Tapinhas nas costas. Risos. Sinceridade. Insinceridade. Tudo que faz parte do cotidiano social saudável. Noite de autógrafos. Cada um regendo sua letra. Cada um lendo seu mérito. Cada um se sentindo ilimitado em seu espaço.

 

De repente os encontro.  Ela sempre gentil. Delicadinha. Pode ser alta, muito alta, mas o estilo e o riso são da delicadeza de uma miniatura. Sempre sorridente. Atenta a quem gosta. Ele faz o par perfeito com ela. Irreverente. Foi logo poupando o peso da bolsa no ombro dela. Colocou em seu próprio ombro. Sabe bem o Lugar que ocupa. Não precisa de valise de rótulos. Já se livrou disso. Faz tempo. Sábio.

 

Começamos a rir por causa de um coelhinho. Nunca poderia imaginar que ela conhecia a revolta do coelhinho. A minha revolta do coelhinho. Então fora mesmo verdade. Ela custara a crer. Sim. Porque o coelhinho dele morreu - deram o meu. Para que ele não ficasse triste. Que idéia. Que forma de lidar com a tristeza. De um. Em detrimento da alegria. Do outro. Mas acho que é sempre assim. A alegria acaba sempre perdendo para a tristeza. A disputa tem sempre o lado certo para pender. Igual a mocinha que mudou de lugar por causa do riso. E isso nos trilhos da bondade.

 

Não acreditei quando ele começou a me contar. Novo festival de sustos. E esse seqüencial. Nem bem eu tomava um e já vinha outro. Incrível como o susto percorre todos os espaços.

 

Ele adorava este escritor português. Um ponto em comum forte. Entre nós. Este foi o primeiro susto. Em geral o acham monótono. Prolixo. Tem gente até que já dormiu em meio à leitura. Tratou o coitado do escritor como um edredom. Dormiu enrolada nele.

Mas ele não. Igual a mim. Idolatria. Total. Absoluta. Irrestrita. Indicou um livro dele. Não conhecia. Saímos para comprar o livro. Voltamos. E lá se veio outro susto. Começou a me contar o incidente. Ou acidente. Linha de separação difícil esta.

 

Ele havia encontrado uma vez com este autor. Este mesmo autor. Idolatrado. Lá estava ele. O autor. Sentado numa mesinha no aeroporto. Ele o viu de cima. Parece uma disparidade. Alguém vê-lo de cima. Ele embaixo. Mas foi assim que o viu. Sentado. Numa mesinha de aeroporto. Lendo sozinho. Desceu pelas escadas. Rapidamente. Postou-se diante dele. Apresentou-se. Humilde. Falou da admiração. Da emoção. E colocou as mãos meio trêmulas em cima da mesinha.

 

Agora sim. Susto geral. O escritor sentado. Sossegado. O visitante emocionado. Agitado. E a mesa caída.

 

Sim. Caíra tudo no chão. Pelo chão. Acho que até a emoção caiu espatifada. Coberta pela vergonha. Onde já se viu. Encontrar com um autor homenageado pelo mais importante prêmio no mundo e derrubar tudo por cima dele. Ao lado dele. Aos pés dele.

 

Vai lá saber. Não há geometria exata para definir estas situações. Mas há a certeza da crueldade da lei da Gravidade. Por um fragmento de segundo lembrou que sempre quis nascer em Plutão. Lá essa lei não existe. Quase riu. Aqui vale uma exclamação. Não para a mesa. Nem para a queda. Mas - novamente - para o decorador!  De onde saiu a idéia. De uma mesa com apoio apenas central. Tinha que culpar a alguém. Culpou o decorador. Me senti aliviada. Não sou apenas eu que vivo de bronca com os pobres decoradores. Achei um parceiro para esta empreitada já longa.

 

Pediu desculpas. O autor foi incisivo. Tranqüilizou. Perguntou pelo corporal. Se havia se machucado. Pelo emocional ele já sabia. Não precisava perguntar. Era admirável até diante das quedas. Das derrubadas. Entendia da cegueira diante do real. Das intermitências de uma emoção. Sabia entender. Afinal vivemos todos em nossas ilhas. Tentando conhecer as dos outros. O duplicado de cada um na simplicidade de uma mesa derrubada. Não podia ser diferente.

 

Na saída comentamos os nossos objetivos. As nossas idéias. E ficamos os três rindo. De coelhinho doado a um fã perdoado ficamos nós a entender os símbolos que a tecnologia tentava decifrar. E não há código - ou magia - maior que o olhar da imaginação de quem escuta. Pela descrição de quem relata.

 

Do coelho ao autor estendeu-se a nossa ilha mais um pouco conhecida.

 

Sem roncos de motor. Sem sandálias no tapete. Sem números da Gravidade.

 

Mas com muito mais barulho e levantamento de taça que a mais vã Olimpíada poderia supor.

 

 

publicado por Lêda Rezende às 15:54

Março 22 2009

A noite começara cedo. Logo depois das tarefas nossas de cada dia. Eram os últimos dias das férias dela nesta cidade. Apenas um mês de férias. As celebrações se repetiam Depois de tanto tempo, tudo que se podia pedir era mais comemoração. Ela estava feliz. Parecia ao menos bem feliz. Não sei se pelo passado. Não sei se pelo presente. Ou se pelo tempo que voava em meio ao tempo que ficava. Não importa. Importa que estávamos todos ali. Os amigos mais próximos. Felizes.

 

O cardápio exato. Qualificado. Menu com nome e sobrenome. E adjetivo. Espiritual. Procede. O espírito mais alimentado que o corpo. Embora este tivesse muito bem acariciado pelo sabor.

 

A sala linda. Belos tapetes aqueciam o ambiente envolto na noite fria. A luz morna desenhava os contornos na parede. Os bibelôs marcavam o tempo ido. Nas fotos as idas e vindas no tempo. Tudo em acordo com a idéia. De afeto. De festa. De acolhimento. A mesa colorida. O vinho sombreava o toque gentil dos excessos. Entre pratos, taças e talheres os risos abençoavam a cena. Lembrei daquele filme. Lindo.

Onde a beleza e os prazeres são cantados em volta da mesa. E todos erguem um brinde. Ao amor. Linda cena. Que me perdoem os que discordam. Direção de italiano é diferente. Mas deixemos os italianos. E a direção.

 

A festa é lusitana. Lusitana de estilo lusitano. Agora me confundi. Vai ver o espiritual está contorcendo meu espírito. Ou torcendo. Por causa do pensamento anterior. Ou do acontecido anterior. Melhor tomar mais cuidado.

 

Ela também estava. E surpreendia com seus comentários rápidos. Parecia bem à vontade. Embora com um jeito mais tímido.

 

Agora dava para ser tudo saboreado. Com parcimônia. Com suavidade. Bem diferente da minha chegada. Cheguei um pouco mais atrasada, mas nem por isso menos acelerada. Foi o que transpareceu. Explicitamente. Tivesse uma pilastra e teria também transparecido. Ri. Agora dá para rir. Na hora, não.

 

Parecia cena de filme. Esta por certo não seria do tal diretor italiano. Nada tinha de requintado. Tropecei. No tapete. No tal tapete que aquecia a sala.

 

Mas enfim. Sempre tenho algo a ver com os decoradores. Um dia é uma pedra. Outro, um foco de luz. Desta vez um tapete. Tropecei. Justo na hora que ia cumprimentá-la. A borda do tapete virou. Prendeu no salto da minha sandália. O que seria uma entrada elegante se transformou. Quase tragédia. Digo quase porque toda tragédia sempre poderia ser pior.

 

Lembrei mais uma vez de minha sábia avó. Veja onde pisa menina, veja onde pisa. Nada. Mais uma vez. E lá se foi meu educado cumprimento.

 

Tropecei. Fui de vez em cima dela. Lembro-me dos olhos dela. Esbugalhados. Um passinho para trás. A mão erguida tentando salvar o vinho. Ou a taça. Ou o tapete. Ou a vida. Não sei. Foi tudo muito rápido para tecer filosofia. Ou desenhar telas. Foi de uma só vez. Cai por cima dela. Que me sustentou. Salvou a taça. O vinho. O tapete. Juntas nos abraçamos naquele afã eufórico, diriam os desavisados. E acabamos de encontro dorsal ela, frontal eu, no aparador. Que graças-a-Deus-estava-ali. Bendito seja agora o decorador. Vou levar flores no sindicato. Vou postar mais textos. Tudo em homenagem aos decoradores. Até ao inventor do aparador. E lá nos estiramos. As duas atracadas. Uma de braço pro alto erguendo uma taça e a outra com as pernas trocadas tentando segurar a mesma taça. Amparadas pelo dito móvel. Que ainda bem assim não se entendeu. Ficou imóvel. Portava os bibelôs. Um murmúrio geral fazia a cena quase olímpica. Todos com respiração suspensa. E nós duas com pernas e braços trocados. Ela erguendo a taça.

 

Fosse presente o mestre austríaco e mais um volume seria escrito.

 

Enfim acabamos o tal cumprimento. No alvoroço. Senti que todos respiraram de volta. Quase faltou oxigênio. Na sala. No prédio. Nos recompomos. Ela mais que eu. Ela tentava colocar os olhos no espaço correto da face. Re-encaixar o braço no ombro. Pousar a taça no aparador. Dobrar os dedos para avaliar o funcionamento. Eu tentava – simplesmente - entender direito e esquerdo. Pensando em meus pés e pernas. Lembrei de um filme. A ajuda vem de cima. Algo por aí. Porque escutei uma vozinha delicada atrás de mim.  Oferecendo um vinho. Aceitei. Mas antes sentei. Acredito que por prudência, ela se sentou mais afastada. Bem mais afastada. Segurei minha taça.

 

Desta vez com os braços na posição correta. Prendi o riso. Com tanta força que até me vi com o mesmo esgar da moça ruiva dos lábios preenchidos. Acho que fiquei igual a ela. Só que menos orgulhosa. Mas me contive. Também era o mínimo. Depois de tanta expansão.

 

Voltamos ao proposto. Fomos para a mesa. Ela se sentou ao lado dele. E ficou meio espaço atrás. Vai ver ele também resolvia ser efusivo. Ficou mais atenta ainda.

 

Fomos para casa. Oferecemos carona. Ela nos olhou. Senti uma dúvida. Ia recusar, mas aceitou. Sentou atrás dele. Na descida fez um pedido. Não precisam descer para me acompanhar. Fiquem tranqüilos. Fiquem no carro.  Obrigada. Boa noite. Ordenou. Nos despedimos aqui dentro mesmo, do carro.

 

Na calçada, atrás dela, tinha uma árvore com galhos baixos. Vi um filme de terror. Obedeci.

 

Tirei as sandálias no carro. Relembrei a cena do encontro. Da despedida.

Enfim pude rir relaxada.

 

publicado por Lêda Rezende às 15:46

Março 22 2009

Durante muito tempo eu recriminava o Universo por me ter colocado vivente, digamos assim, ou existente – para dar um certo toque filosófico - no século XX. Sim. Vivia repetindo. Queria ter nascido na Idade Média. Época dos galanteios. Dos castelos. Das muitas salas. Do espaço. Dos cavaleiros. Das tapeçarias. Das roupas femininas cheias de mil-saias. Das festas. Do romantismo exagerado.


Quanta bobagem. Qual nada. Idade Média tem muitas faltas. Falta principalmente a comunicação. Ou melhor, a rapidez na comunicação. Anos para uma carta atingir seu destino. Aliás, outros tantos para se escrever uma carta. Agora lembrei daquele filme. Em que ele escrevia a carta sobre as costas nuas de uma mulher. Para outra mulher. Tudo bem. A Idade não era Média. Nem as mulheres. Nem o escritor. Nem a idéia. Enfim. Isso é o de menos. Menos mediano. Ri. Ainda bem que agora existe outro tipo de mesinha. Com tanta rapidez atualmente iria faltar costas de mulher.  Isso sem falar na quantidade. De escritos.


Por isso também agora mudei de idéia. Nada de queixas ao Universo. À ordem de chegada.  Mudei radicalmente. Viva o século XXI. Nasci até adiantada. Vai ver que o XXII será ainda mais dirigida. A comunicação. Vai ver na base da transmigração. Metafísica palpável. Sabe-se lá. O futuro sempre comporta mais fantasia que a nossa vã realidade pode suportar.


Mas o século XXI já está bem animado.  Acho que num prazo mínimo de quinze dias me inclui. Numa família. Leram. Recomendaram. Comentaram. Me fizeram chorar. Me fizeram rir. Vale mesmo uma exclamação para cada um!!  Até porque irmão sempre tem que ter tudo igual. Desde pequenino. Ri. Só não sei se eles vão rir também.

Agora me sinto incluída.  Rapidamente.


Imagina na Idade Média. Até os irmãos serem localizados. Não devia ser fácil a numeração dos castelos. Vencer poços com jacarés. Sem falar na saúde dos cavalos. E dos seus cavaleiros. Vencer as doenças. Correr por tantas estradas. Atalhos. Cruzar rios. Tudo isso segurando os pontos de exclamação. Vai ver por isso havia tanta luta na Idade Média. As lanças atiradas de longe. As espadas arrancadas de pedra. As brumas. O cálice perdido. As maçãs flechadas em cabeça de filho. As florestas com os ardis. Tira-se de quem tem mais. Para se dar a quem tem menos. Ou o contrário. Vai lá saber. Cada um legislando os dotes. Muita confusão.


Quanto tempo duraria a entrega das exclamações. Quando chegassem ao destino já seriam interrogações. Ninguém mais se lembraria do que se tratava. Pior ainda. Os destinatários poderiam ter viajado. Mudado de castelo. E virariam reticências. E como reticências ficariam perdidas. Até que algum dia alguém desse a elas um ponto final. Sem nunca terem atingido seu objetivo. Com muita sorte virariam talvez um hífen desses, colocados de qualquer jeito para que figurassem em algum cartório. A serem estudados no século XXI. Numa tese francesa sobre O Desaparecimento das Exclamações na Idade Média.


Sempre ficaria em cada vírgula, uma dúvida. Desta agora gostei. Daria até uma frase do dia. Embora sempre justifique um ponto de seguimento. As frases do dia. Para que sigam mais frases no dia seguinte.


E nisso tudo ainda me preocupam. As exclamações. De que adiantaria uma mala cheia delas. Se nunca alcançariam seu destino. Se duas já seria complicado a entrega. Imagina a minha mala como ficaria. E naquela época também não era mala. É verdade. Eram baús. Procede. Agora entendi.


Que sorte a minha. Deixei o Universo sempre assustado. Com a queixa temporal. O Universo querendo que eu entendesse a escolha. O tempo. A distância. A rapidez. E eu reclamando. A minha avó já me alertava. Deixa de ser renitente, menina, deixa de ser renitente.Estava certa.


Ponto final. Curei.


Viva o século XXI e a entrega rápida das exclamações!!

 

 



Março 22 2009

Quem será que teve a idéia. Como diria minha avó. Toda idéia tem que ter um motivo, menina, tem que ter um motivo. Falava algo mais ou menos por ai. Na realidade acho que se viva ela estivesse me daria um puxão nas orelhas. Onde já se viu. Ficar repetindo o que ela falava assim. Sem mais nem por que. Ela também adorava uma pilastra. Herdei dela. Agora estou saindo junto com ela. Da pilastra.

 

Mas enfim. Quem será que teve aquela idéia. Eu, de pé diante dele, tentava achar uma explicação. O tal motivo. Basculava se teria uma conotação terrena ou divina.

 

Um calor que poderia ser comparado a um outro, não fosse a impropriedade do termo em meio ao ambiente.

 

Colocaram um foco de luz. Um enorme foco de luz. Nos degraus da escada. Vai ver foi o mesmo decorador da enorme pedra.

 

E ficava atrás de mim. Também atrás dele que estava ao meu lado. Imaginei mil títulos de reportagem. O tule incendiado. Fogo na cerimônia. Cabelos tostados. Calças queimadas. Lembrei do filme. Paris está em chamas. Até uma mais trágica. Tochas humanas. De um outro filme. Por quem os sinos dobram. Não faltaram slogans.

Lembrei dos cílios. Do ventinho suave. Das ameaças da véspera. Do riso na cozinha. De nada resolveu. Podia piscar acelerado que não diminuía o calor. Olhar plumoso. Nada resolvido. E o calor aumentava.

 

Ainda tinham os fotógrafos. Com um foco de luz. Um carregava o foco. O outro a câmera. Acharam poucas as luzes. Olhei para baixo. E atrás. O enorme foco ficava aos pés. Nos calcanhares -  para dar uma precisão anatômica. Aquiles teria se sentido vingado. Ou solidarizado.  Nada de tendão cortado. Isso era coisa do passado. Tendão assado. Tostado. Incinerado. Nem precisei me esforçar para não rir. Não estava em condições locais e climáticas que permitissem o riso.

 

Ele me sussurrou. Sentia os pés queimando. Fiz que se faz nestes lugares. Para que fosse apenas uma metáfora. Depois informou. Nem sentia mais os pés. Já deviam estar necrosados. Novamente não precisei conter o riso.

 

Tentei piscar mais uma vez para diminuir o calor. Nada. Vou processar o fabricante. Dos cílios. Do foco vou pensar. Não pode ser nada assim. Sem muita reflexão. Até porque reflexão é o termo exato.

 

Mas como vivo agora entre sustos lá se veio mais um. Olhei, tranqüila, para as pessoas que estavam em frente ao grupo que eu estava. Havia, dentre eles, uma mocinha. Vestido azul claro. Longo. Cabelos longos. Pele clara. Uma franjinha. Não acreditei no que vi. Lembrei dos desenhos animados. Os meus emplumados olhos saindo da face com uma molinha. Fiquei mais atordoada do que pasma. Entendi até o ator-doado de tempos idos. Vai ver foi assim que começou. O atordoamento dele.

 

Os cabelos dela, a franjinha - voavam. Os fios até chegavam ao rosto. Ela, já com impaciente delicadeza, afastava da face. Olhei para todos os lados. Para cima. Para baixo. Queria descobrir. De onde vinha o vento. Pensei assustada. Seria dos meus cílios postiços. Testei. Mantive os olhos fixos. Como aquela brincadeira de criança. Nada. Eu fiquei catatônica e suada. Os cabelinhos dela voavam. Pensei de novo. Porque será que Ele só gosta dela. Faço nada de tão errado assim. Porque esse demérito. Ou seria uma forma divina de lembrar. As diferenças. As culpas. Lá me lembrei do russo novamente.

 

E suava. Suávamos. E o calor aumentava. Só conseguia pensar nos destaques das noticias. Já sentia até o cheiro do couro queimado. Dos sapatos dele. Ou dos pés. Olhei para o fotógrafo que se postou a minha frente. Imediatamente me veio à mente um termo cientifico. Sudorese profusa. Isso dá até UTI.

 

Mas acho que Ele se apiedou. Porque foi rápida a resposta aos meus pedidos. A lâmpada. O foco. A luz. Apagou. Apagou. Esta única luz apagou. As demais continuaram acesas. Desta vez foi diferente.  Me deu vontade de rir. Enfim. Tive que conter o riso. Olhei para cima. Pedi perdão pelo riso afoito. Pelo pensamento que insistia em se fazer notado. Porque pensei que podiam ter sido os meus cílios. Vai ver olhei séria para o foco. Ou pisquei para ele. E ele apagou. Assim nas costas. Contive o riso.

 

Um escuro se fez. Ao contrário do que se fala. Bem ao contrário. Foi quando a luz apagou que veio a esperança. E prosseguia a cerimônia. Sem interferências. Com menos risco de furo jornalístico. Os pés dele sobreviveram.

 

Olhei para ela mais uma vez. Continuava tranqüila. Os fios da franjinha dela, irreverentes, esnobes, ainda voavam.

 

Aceitei. Agradeci. Não ao Edson. Não ao fabricante.

 

Olhei para Cima. Agradeci!!!!!

 

 

publicado por Lêda Rezende às 14:44

Março 22 2009

Tomei fôlego. Agora posso repensar. Acho que este é o lugar ideal. Para avaliar sustos.

 

Desde ontem até hoje. Foi uma surpresa total. Bateu o recorde. Daquele último que tomei. Pensei que já ganhara o primeiro lugar no concurso de sustos. Mas não. Este venceu. Até porque este foi diferente. Vencedor em outra categoria. Assim diriam os juízes do meu concurso particular de sustos. 

 

Mas é verdade.

 

Quando li o texto. Quando vi meu nome em negrito. Primeira vez que vejo meu nome em negrito. Na publicação da resenha não era em negrito. Devo ter um problema com nome. Cada vez que publicam, eu me particularizo. Bela conclusão. Vou guardá-la para um futuro. Imagino o que poderá acontecer. Se um dia sublinharem.  Ri discreta. Não adiantou. Perceberam. Bom. Melhor pensar no sublinhado depois. Ainda preciso dar conta do negrito.  

 

E as comparações. Comparou meu escrito à suavidade. Com a brisa. Com a serra. Meu nome entre a brisa e a serra. Quanta honra. Agora sei bem porque alguém fala isso. Quanta honra. Tenho aprendido bastante. Estou encantada. Até imprimi o comentário e a recomendação. Leio e releio. Estou insaciada. Alegria insaciada. A melhor das alegrias. Que sorte a minha.  

 

Outro baita susto. Desse jeito vou virar a rainha dos sustos. Vou parar naquele livro de recordes bizarros. Até dei um pulo. Agora que entendi o por que da hemoptise. Da metáfora. Da serra e da brisa. A palavra tísica. Que inteligente ele. Que sutileza. Um poeta. Não é à toa. Que é de mundo.

Não pude deixar de rir. Desculpas à mocinha que mudou de lugar, mas foi incontrolável.

 

Esta sonoridade foi terrível. Sei que tem um nome para isso. Uma figura de linguagem. Mas não lembro. Ainda bem. Um doutor em Linguistica poderia me processar. A mim já bastam os juízes dos sustos. Nada de acréscimos. Ele nunca vai saber disto. Poderia rasgar o texto. O contexto. O pretexto. Apagar o negrito. Melhor nunca mais repetir isso. Mas é o que dá. Ter idéias de menos em trilhos de mais. Acaba-se perdendo o estilo. Pior ainda. Sim. Ainda tem um pior. Imagina. Se ele sabe. Que também sou de lá. Que foi de lá que vim para cá. E fazendo este tipo de arranjo. Sim. Porque figura de Linguagem é que não é. Só um arranjo mesmo. E de má qualidade.

   

Soube por ele. No meio da tarde. Em meio aos gráficos. Leu pelo telefone. Estava feliz. Compartilhando. Ele apoiou. Riu.  Adoro quando ele faz isso.

 

Meu primeiro ato foi chorar. Quando escutei pelo telefone o comentário. Aquelas palavras. Talvez um chorinho egóico. Meio cigano. Dividindo com o mundo. Até com os gráficos que estavam sobre minha mesa.  Lá se foram os pontinhos do gráfico. Viraram tracinhos do gráfico. Não sei como vou explicar o desenvolvimento com tracinhos. Enfim, depois resolvo isso.  

 

Preciso comprar um dicionário. Para ler mais verbetes. Agora só visualizo três. Alegria. Felicidade. Susto. Vou ficar repetitiva. Ela que falava isso de mim. Nunca mais falou. Agora vai retomar a crítica. Não vou poder responder. Só falo mesmo três palavras. Desde ontem. Ri de novo. Felicidade egoísta ilimitada. Nada especial. Toda felicidade é mesmo egoísta e por isso ilimitada. Melhor arrumar outro slogan.


Lembrei dela. Delicada. Tímida. Sempre mais séria do que rindo. Decidiu fazer um curso. Quer saber como escrever. Um texto. Um livro. Uma crônica. Uma poesia. E veio me contar. Aprendeu a diferença entre poema e poesia. Achei fantástico. Nunca pensei nisso. Nessa diferença.  Aprendeu também que a rima não tem valor. Fiquei com dó da rima. Que será dela agora. Que tem um curso só para afastá-la. Para dispensá-la.  Falei que não concordava. Não existe técnica. Não existe lógica. Não existe regra. Para se descrever a alma. Decidiu conferir. Procede.

 

Já chegou e eu nem percebi. Passou rápido o tempo. Melhor seguir como um texto. Percorrendo as trilhas. Cortando os obstáculos. Quebrando o vazio de uma folha em branco. Sem cursos. Sem fundo de garantia. Sem aposentadoria. Sem despedir a rima. Com a brisa. Em meio a serra. Contrariando os nossos bacilos mentais de cada dia. Com crateras. Com ôcos. Lendo o comentário. A recomendação. Relendo. Vou até dar uma tossinha. em homenagem à serra. E pontuar com exclamação. Só vou usar exclamação. Quero todas as exclamações.Vou encher uma mala. Para abrir quando quiser comemorar. O comentário e a recomendação.

 

Viva o  obrigada!  Em negrito e com exclamação!

 

 

  

publicado por Lêda Rezende às 14:11

Março 22 2009

Era um almoço festivo. Todos comiam. Bebiam. Barulho de pratos e de talheres em coro regido pelas vozes. Risos. O tempo estava frio. Muito frio. Ela saiu do terraço. Foi para a sala. Sentou-se diante de um espelho. Mas sequer o olhou. Ou se olhou.

 

Sentou-se um pouco afastada. Ajeitou os cabelos. Sempre tinha este gesto quando algo a fazia refletir. Enfiava as unhas por dentre os cabelos. Os jogava bem para trás.Talvez um gesto acariciador. Ou descortinador.

 

Notei o gesto. Ri. Neste instante quem fosse sábio compreenderia. Hora de evitar confrontos. Nada de expor idéias. Mas não há muitos sábios por aí. Os gregos já se foram há tempos. Se um grego ali estivesse saberia. Hora de silêncio. Sem questões.

 

O encontro é para mastigar. Melhor cumprir a finalidade do encontro. Mastigar. Não as palavras. O conteúdo do prato.

 

Comentou sobre a solidão. A possível solidão.

 

Alguém se contrapôs. Discordo. Falou bem claro. Demorei a localizar a voz. Falou de novo. Repetiu sua idéia. A solidão sempre é impossível. Localizei. Ela também.

 

Primeiro ela olhou para as pessoas da sala. Sorriu.

 

Tremi. Temi. Lembrei do livro que não encontrei. Deveria tê-lo procurado mais. Poderia ser útil neste momento. Agora era necessário o útil. Para que o agradável se mantivesse.

 

Das pessoas ela sorria. Às vezes até gargalhava. Mas nunca dos comentários. Todos os comentários tinham força. Viesse de quem viesse. Tinha uma susceptibilidade à palavra proferida. Basculava. Em alguns momentos só escutava. Em outros devolvia.

 

Com severidade. Fosse o que fosse. Fosse a quem fosse. Se entendesse como pessoal era imediato. Entrava na defesa. E não havia verbetes que dessem conta. Dos significantes. Só havia significados. Como se não houvesse metáfora possível. Diferente da solidão. Solidão podia ser possível. Metáfora não. Era a palavra pela palavra. Sem barra.

 

Acho que ninguém notou. Que ela estava mais susceptível. Decidiu pelo vinho. Tinto.Depois virou-se para quem falara. E, calma, explicou. Muito calma. Sim. Parecia mais uma explicação.

 

Se eu dividir uma casa com alguém e esse alguém me destratar, eu me odiarei. E isso faz a solidão possível.

 

Falou assim, de um fôlego só. Como se da água estivesse saindo.

 

Viera de outra cidade. Nem sabia mais de quantas mudanças. Mas nunca estagnara. Mudava-se. Perdia objetos. Perdia rostos. Perdia até confiança. Mas mudava-se. Intuíra desde muito cedo que viver é buscar. Buscar é verbo transitivo. Intransitivo poderia ser o encontrar. Gramática pessoal. Mas persistente.

 

Escutei o que ela falara. Olhei para ela e sorri. Sim. Dividir e destratar. Não combinam. Mas vivem - quase sempre - aos pares.

 

O austríaco não foi tão claro quanto ela. Ela foi mais certeira. Nem o marquês francês pensou com essa objetividade. Até na dupla dinâmica tem essa combinação. Dupla dinâmica. Imaginei os dois voando e fazendo par. Divisão e Destrato. Poderia ser uma dupla caipira. Também. Agora ri. Mas com ar discreto. Vai lá que sou mal interpretada e eu que vou fazer parte. Desta dupla nova.

 

Configurei tantas duplas. A mocinha do metrô e sua mãe. O falso libertador e a ingênua. O ator e a assistente. Tem até título de música. Título de filme. Tantas e tantas duplas me vêm à mente. Mente. Boa metáfora. Até pela mentira se destrata. O que se divide. Nunca vi nada mais partilhado.

 

Lembrei dele. Vai ver por isso é mais pragmático. Tudo dele vem seguido de contrato. Contrato de uso. De divisão. Sempre digo. Ele é sábio. Um dos poucos que restaram. Se contrata, não destrata. Ou dá mais trabalho. Destratar. E acaba-se apenas dividindo. E o corte fica único. Quando há. E de uma só vez. Ele lida bem com cortes. Vai ver aprendeu por isso. Não se destrata aos poucos. Mas de um golpe só. Ele iria rir desta confusão toda que estou fazendo. E iria dizer que entendo nada. De contrato.

 

Agora ri. Dei um pulo da cadeira. Sem querer. De um golpe só soou forte. Ainda bem que deu para disfarçar. E ainda ganhei um guardanapo. Aproveitei o agradecimento para rir.

 

Um casal levantou para dançar. E o filho pequeno ficou entre eles. Deveriam estar lembrando o contrato. A divisão. Para evitar o destrato. Não sei qual deles. Talvez todos. Ou só um.

 

Olhei para ela. Continuava com sua taça de vinho tinto. Ela tem razão. Acho que deveria ter uma lei. Proibido destratar quem divide. Um espaço. Um momento. Uma fase. Uma cama. Uma mesa. Um pensamento. Uma perspectiva. Um plano. Um sorriso. Uma história.

 

Procede. A solidão é sempre possível. A companhia sempre limitada. O ódio sempre auto-infligido.

 

Melhor dar vivas ao guardanapo.

 

Mais uma vez - impossível esquecer o russo.

 

 

 

publicado por Lêda Rezende às 13:32

Março 22 2009

 É verdade. Nem notei. Dez anos. Agora a dúvida. Logo eu que detesto dúvida. Tinha que surgir uma justo agora. Justo hoje.
Aconteceu muita coisa? Aconteceu pouca coisa? Só me vem à mente perguntas.
Ri.
Se eu soubesse respondê-las - nem teriam surgido.
Conclusão à moda austríaca.

E ainda nem me decidi se parece. Se parece pouco tempo ou muito tempo.

Ele quando soube, comemorou. Depois a pergunta. Arrependeu? Assim. Pergunta solta. Ele sempre faz pergunta solta. Quando quer fingir que não tem importância. A pergunta. Mas sei que é quando tem. Perguntou e se pôs a fazer alguma coisa. Disfarçou. Barbas de molho. Esta expressão sempre me lembra ele. Também tem outra. Pulga atrás da orelha.
Ri.
Ele percebeu. Mas preferiu não comentar. Discreto em tudo.  Por tudo.

Aquele dia foi incrível.

Sai de lá. Chega aqui. Em menos de doze horas o Universo trocado. Cenário trocado. Paredes trocadas. Rostos apagados. Rostos apresentados.
Cento e noventa e seis caixas.  Não esqueço este número. Cento e noventa e seis.
Entraram por uma porta. Eu saí pela outra. Para o Hospital.

Caixa sempre é questão. Uma já é. Mas cento e noventa e seis é terremoto.
Ri de novo.
Era mesmo o que parecia.  Meu coração. Parecia um terremoto. Batia de todo o jeito. E de toda falta de jeito.
Acabei no Hospital.

Caixa entrando e eu saindo. Ele que me levou. O mais velho. O mais novo ficou. Angustiado. Rimos muito no caminho. O motorista do táxi não entendia. Era urgente porque era mortal. Como poderia se rir tanto disso. Nem nós sabíamos.

O médico até desconsiderou. Avisou ríspido. Quem está morrendo não ri. Conclui rápido. Ele não entendia nada de morte. Muito menos de riso.
Mas acatei.

Voltei. No mesmo dia. Voltou o compasso. Do coração. Eu sempre fui descompassada.Sempre tive problema de conteúdo e continenti. Não cabia. Nada cabia. Empurrava daqui. Ajeitava dali. Fiz doação. No final: casa arrumada. Casa montada - como diziam de onde vim.
A posse se renovava a cada trinta dias.

Lembrei que tinha um fantasma. Ri agora. Todos o viram. Mudava até as coisas do lugar. Um dia ele sumiu.
Deixou que a integração de posse ficasse para mim. Ou minha.

Ele brinca que sou desorientada. Descompassada pode ser. Desorientada não. Não sei. Talvez sim. Nunca entendi de bússola. Nem sequer compreendo os pontos cardeais. Seguia as setas. Foi por uma dessas setas que nos conhecemos. Uma história simples. Ou uma simples história.
Não parece filme. Não parece do outro mundo. Um encontro. Começa com o olhar. O dele. O olhar sempre traz o impossível de ser dito.
Continua com as palavras. As minhas. Se organizam com o ato. Conjunto.

Eles ainda moravam comigo. Eles chegavam das aulas à noite. Jantávamos juntos. Sempre rindo. Nos divertíamos com qualquer coisa.
Tinha um frigobar. No vestíbulo. Passinhos na noite.
Não era o fantasma. Farra no frigobar. Farra de chocolate.
E pela manhã só embalagens vazias.
Ninguém dizia de quem foi o ataque maior.
Ri mais uma vez.

Lembrei do frio. Aquecedor pela casa toda.
Eram tantos que possibilitava a idéia de usar protetor solar.

Ri quase alto.

Nem sabia as ruas. A cada nova esquina um susto. Benditas placas. Ou bendito seja o inventor das placas. Minha vida pendurada num fio.  Olhava para cima e descobria os rumos.  Me sentia numa nau. Arrecifes de um lado. Tubarões do outro. Icebergs mais adiante.

A Nau dos Insensatos. Ou da insensata solitária.  Gostei da analogia.

Ele não entendia como eu gostava do trânsito. Transito. As ruas eram mais minhas a cada dia. Se eram minhas, não faziam mal. Podia demorar nelas. Até hoje gosto das ruas. Gosto da intimidade conquistada.

Ele me achava corajosa. Inteligente disse um dia.
Quase dei um pulo.
Esta palavra sempre me soou tão alheia a mim.  Lembro do dia em que contei isso a ele. O motivo do tal alheiamento. Tive um diagnóstico de retardo de raciocínio. Algo por aí. Ele riu. Negou. Até se irritou. Falava sempre que eu era inteligente.
E a palavra começou a me soar mais próxima e menos verbete.

Muitas vezes ele ria ao me ver sair. Todos já me conheciam. O jornaleiro. A mocinha da livraria. O segurança do estacionamento. Até o judeu mal humorado da lavanderia. Era mal humorado. Mas quando me via sorria. Tinha um neto. Escutei todas as gracinhas dele. Mas nunca o conheci.

A cidade me incorporou. E eu ela. Não sou natural daqui. Mas escolho. Sou artificial daqui.
Ri.
Vou escrever isso em meus registros.

E tinha ela. Era ótimo. Ela vinha todos os dias no final da tarde. Tomávamos chá e comíamos bolo. Ríamos muito. Ajudamos a saúde financeira da fábrica dos bolos
Não sei qual de nós duas era a mais solitária. Talvez as duas. Ou nenhuma das duas.
Só sei que ríamos e comíamos. Quando estava frio era café com conhaque. Poucas vezes choramos.
Agora caiu uma lágrima. Ela se mudou para bem longe. Depois do mar. Quem sabe um dia uma de nós escreve um livro. O Banquete na Cozinha. Perdão Platão. Mas o nosso era mais divertido. E nunca chegou o Alcebíades bêbado. Agora ri mesmo e ele viu.

Me olhou. Viu que estava rindo. Acho que viu que escondi a lágrima. Deve saber tudo que estou pensando. Ele sabe tudo de mim. Sempre. Às vezes tem ciúme. Do tempo que não encontramos a seta. A seta que nos encontrou. Nega. Diz que não se incomoda. Mas sei bem que se incomoda.

Bobagem. Pare com isso. Que abraço gostoso. Sim. Como poderia estar arrependida? Muito bom.

Sim, é verdade. A ignorância é que permite a coragem. Eu tinha as duas. Que sorte a minha.

Concordo. Tudo deu certo. Dez anos. Sim. Sem dúvidas. Aconteceu muita coisa.

Muita coisa boa, maravilhosa.

Viva a artificialidade. Também amo você. Muito.


publicado por Lêda Rezende às 00:42

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