Blog de Lêda Rezende

Maio 26 2009

Seria a primeira vez que falaria em público. Um caso clínico. A exposição de uma experiência - num encontro cientifico.  Complicado. O caso por certo. Mas nem a metade.  Não pelo caso. Nem pelo clinico. Mas por sua timidez.

 

Isso sim. A maior complicação.

 

Mas decidiu que o faria. Já não era sem tempo. Repetia sempre. O que mais gostava na vida. Uma pilastra. Para ficar atrás dela. Da pilastra. Mas desta vez iria enfrentar. Estava decidida. Isso tinha que acabar. Não ela. A pilastra.

 

Mas isso ainda não era o pior. Faria uma apresentação. Num país estrangeiro. Com tradução simultânea para quatro idiomas. Pensou. No quanto era exagerada. Vivia enfiada atrás de uma pilastra. Anos e anos. E agora iria sair de lá para uma tradução simultânea.

 

Com as amigas fez mil gracejos. E se perdesse a voz. E se esquecesse os óculos. E se tropeçasse na hora de subir no tablado. E se trocasse as folhas do papel. E se lesse na ordem errada. E se gaguejasse. Não faltaram se. Não faltaram suposições trágicas.

 

Sempre agia assim. Quando a tensão aumentava – fazia gracinhas. Era a forma de se equalizar. Ao menos assim dizia. Vai lá saber. As mil formas de uma emoção se manifestar. Ou se ocultar.

 

Foi para o aeroporto. Entrou no avião. Tremeu. Não era mais uma idéia. O ato já começava a se costurar. Assim ficou.

 

Silenciosa. E tensa. No vôo de ida.

 

Mas continuava firme. Iria apresentar.

 

Uma amiga fora junto. Também da mesma área profissional. Mas optara por ser apenas platéia. Sábia. Já a invejou desde o instante que colocou o cinto. No vôo. Mas calou. Nada comentou.

 

Desceu do avião. A cidade linda. Belas ruas. Belas avenidas. Pensou. Onde venderia uma pilastra. Todo o reino por uma pilastra. Mas também calou. Nada comentou.

 

Sempre se esquece de um mínimo talvez. Uma vez uma decisão tomada, uma vez efetivada - não se tem por onde sair. Rezou até por uma fatalidade. Depois se arrependeu. Pediu perdão. Desculpas. Perdão de novo. E em quatro idiomas. Achou que já tinha se envolvido em tragédia demais. Não precisava de mais cooperação. Mesmo sendo divina.

 

Fez a tarefa. A da vaidade. Cuidou dos cabelos. Escolheu a roupa. A amiga ajudou. Solidarizou. Contemporizou. Tudo que uma amiga faz nestas horas. Inclusive grifar que a platéia estaria lotada. Interessante. Pensou. Mas lá se foi. Escutou o nome dela. Subiu no pequeno tablado. Sentou. Puxou para perto o microfone. Por um milésimo de segundo invocou o além. O aquém. Encerrou no amém.

 

Iniciou a sua fala. Começou a ler. Não reconheceu a própria voz. Parecia uma soprano. Gripada. Chegou a bendita segunda página. Era um total de seis. Na segunda já reconheceu. A própria voz. Daí em diante já era ela. Bem. Mais ou menos. Sempre tinha uma quedinha aqui ou ali. No tom da voz.

 

Acabou. Vieram as perguntas. Respondeu. O relato foi aplaudido. A construção teórica elogiada. Alguém comentou que ela era bem desenvolta.

 

Quase riu. Não poderia dizer que respirou. Isso não conseguira desde a primeira até a tal sexta página. Mas deve ter dado um semi-gemido. Foi o que escutou. Pelo microfone.  

 

Ia sair da sala quando alguém a chamou. Era a tradutora. A mocinha que ficava lá em cima. Num quadradinho com vidro. Com fone de ouvido. Se surpreendeu. Sempre acreditou que elas fossem figuras míticas. Porque nunca viu uma só delas ao vivo. A mocinha riu com a observação. E foi logo dizendo. Sua palestra foi o melhor que teve. Até agora. Desci para lhe dizer isso. Mas você estava tão nervosa. Eu também fiquei nervosa. E quando você falava mais fino - eu também traduzia com minha voz fina. Nunca isso me aconteceu antes. Mas tudo ficou normal depois. Da segunda página em diante. A sua voz - e a minha.

 

Ela conseguiu respirar. Fez uma inspiração forte. Sentiu alvéolo por alvéolo.

 

Decidiu. Explanação só a partir da segunda página. Estava no intervalo e foram tomar um café irlandês. Na cafeteria bem em frente. A mocinha mítica comentou - deveria ter tomado antes. Riram. Muito.

 

Tentar vencer a si próprio é sempre a maior das batalhas. Achou que conseguira. Riu. Na próxima apresentação – concluiu – vou fazer antes um curso. De canto lírico. Riu de novo.

 

Silenciosa. E feliz. No vôo de volta. 

 

 

 


Grata pela visita, depois virei com mais calma;)
Saia-Justa a 26 de Maio de 2009 às 15:22

ola minha querida!!! O Boris é tão lindo... Tem focinho de esperto... Deve ser um amor... Tem tanto de fofinho como de branquinho...
Podias-me ter adicionado no msn...
Beijos grandes e continuação de uma boa semana, espero que melhor que a minha (risos)
Teresa Isabel Silva a 27 de Maio de 2009 às 14:25

Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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