Blog de Lêda Rezende

Maio 14 2009

O dia já amanhecera agitado.  Acordou. Atrasado. Assustado. E vice-versa.

 

Tinha uma reunião. Detestava atrasos. Desde sempre fora assim. Pontual.

 

Levantou. Vestiu-se. Tirou a roupa. Esquecera do banho. Saiu do banho, vestiu-se. Colocou a gravata. Voltou ao banheiro. Esquecera de escovar os dentes. Escovou. Caiu pasta na gravata. Voltou para o quarto. Trocou a gravata. Desceu o elevador. Subiu de volta. Esqueceu a chave do carro. Até relaxou. Começou a rir.

 

Enfim no carro. Lá se foi para a tal reunião.

 

O objeto direto da reunião já estava lá. Já como o sujeito da frase. Com todos os predicados. Postura monárquica. Ar de mandatário. Fala de empresário. E deixando transparecer um certo tédio. Daqueles já até comuns. Dos que vêm do primeiro para o terceiro. E ele viera de lá há alguns anos. Tudo bem. Mas ainda assim de lá. E como de lá - fazia questão de ser apresentado. E se apresentar. Um eloqüente. E em quatro idiomas.

 

Todos se olharam. A reunião começou. Apertaram as mãos - por sobre a mesa.

 

Havia uma proposta. Mégalo seria dizer pouco. Um novo termo teria que ser criado. O sujeito até tinha predicados. Isso ninguém questionava. Mas faltava uma coisinha básica. Funcional. Até saneadora, pode-se assim dizer. Faltava uma adequação de avaliação. Mínima. Só isso. Um detalhe que tantas vezes coopera. Com o sucesso. Com a conclusão. Aliado da sabedoria. Amigo das parcerias. Detalhe fundamental.

 

Não entendia bem o que significava quantidade viável. A inviável ele dominava. E muito bem. Nunca se escutara tantos números desenfreados. Porcentagens alucinantes. Atendimentos multiplicados. Só não sabia os quocientes.

 

Ele decidiu expor. Os contrapontos.

 

Ele não aceitou. Desdenhou. Muitas vezes - hábito comum. De quem não entende sobre o que fala. Fez-se como estranho. E tratou a todos como estrangeiros. Deu até de ombros num certo momento. Como se numa fila portuária estivesse. Carimbando. Apenas isso.

 

Todos se olharam. A reunião continuou. Mantiveram as mãos – coladas na mesa.

 

Ele lembrou por um segundo os esquecimentos da manhã. Entendeu como premonitórios. Mas voltou ao raciocínio. Eis algo que ele é bom. Muito bom. Fez uma explanação. Sobre o saber de quem não sabe. Onde tudo pode ser possível. E inquestionável. Assim. Com clareza. Sem meias modulações. Contundente, diriam alguns. Expôs o viável. O possível. O pertinente. Sabia do que falava.

 

O sujeito se levantou. Pegou os seus predicados. Falou que ia pensar. Sobre o que propusera. Não sobre o que lhe fora exposto. O importante era a própria idéia. E ninguém do terceiro tem visão. Isso é qualidade dos que são do primeiro. Assim balbuciou. E com sotaque.

 

Saíram da sala. O do primeiro retirou-se. Com um cumprimento em seu idioma natal. Parecia fazer questão. De deixar bem claro. Deixou. Os do terceiro se sentaram numa outra sala. Para complementar o ocorrido.

 

Um deles – do terceiro – não contou tempo. Aliás, sempre entendera o tempo sem contas. Quando o tempo ria dele. Ele devolvia. E ria do tempo. Um estilo bem particular. Mas de absoluto sucesso. Pessoal. Profissional. Um homem de espaço. Muito mais que de tempo. Perfeito.

 

Pegou o telefone. Ligou para quem indicara o sujeito dos predicados. Relatou. Fato por ato. E ato por fato. Detalhou. Em um idioma mais simples. Ou talvez mais complexo. Tudo depende de quem fala. Ou de quem escuta. Depende de um maior conhecimento. Porque foi em idioma alternativo que relatou. Ou em linguagem alternativa. Sim. A linguagem foi explicitamente alternativa. Em muito bom som.

 

Do outro lado da linha concordaram. Com o absurdo. Houve até pedidos de desculpa. Coisa de refinada diplomacia. Aceitou as desculpas.

 

Estava sentado numa daquelas belas cadeiras. Encosto alto. Preta. De couro. Giratória. Brincando, girou. A cadeira.

 

Diante dele estava o sujeito dos predicados. Parado. Olhando. Para ele. Voltara porque esquecera algo. Falava quatro idiomas. E entendia, por certo, o alternativo.

 

 

Ninguém se olhou. A reunião assim se encerrou. Com as mãos afastadas - da mesa. E do outro. 

 


publicado por Lêda Rezende às 22:54

Minha querida, já podes suspirar de alivio... Amanha é sabado e por isso já podes abarandar o ritmo...
Sempre que leio os teus comentários sinto-me sempre satisfeita por ter o privilégio de te ter conhecido...
és incrivel tens sempre uma frase amiga para dizer e para me "derreteres" és super meiga... (risos)
bem beijao grande amiga
e desliga o desperta-dor...
Teresa Isabel Silva a 15 de Maio de 2009 às 11:25

oi lêda, uma reunião no vazio, é ??? Obrigada pelos seus saborosos comentários, mas o facto é que não mereço isso. É gentileza sua... escrevo por escrever , para mim, falo apenas comigo e com as minhas memórias, tudo é bagagem do meu próprio trem...ás vezes, ruinoso !
Super meiga, diz um comentário de você ! É isso, super meiga, super doce, super simpática.
Um beijinho para você com desejo dum bom fim de semana .Ciao.
Peter a 16 de Maio de 2009 às 00:11

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