Blog de Lêda Rezende

Abril 21 2009

Desta vez a ligação foi diferente. Nada de alegria na voz. Muito menos de comemoração. Não se festejou. Nem se falou em macarrão no desjejum. Hoje a dieta era fria. Com sabor de nada. Talvez acrescentado o amargo do fruto. Já tão proibido.

 

Parecia aflita. Aflita de realidade. É sempre difícil este tipo de aflição. Sobrecarrega. E não deixa espaços. Por isso não se consegue dissimular. Nem com a fantasia. Ficar na realidade por muito tempo tira o fôlego. Causa compressão nos músculos. Provoca uma dor que não se sabe onde. De tão pesada e difusa.

 

Descobrira uma verdade. Segundo ela. Concluíra a verdade. Do impedimento. Não era geografia. Não era paternidade. Não era sequer solidariedade.

 

Tinha uma atitude explícita. Estava com ódio de si mesma. Por que não entendera isso antes. Justo ela. Que convivia tão bem com os escondidinhos da alma. Com as entrelinhas dos discursos. Vivia disso. Vivia para isso. Para entender o que ninguém explicava. E explicava o que ninguém compreendia.

 

E agora estava confusa. Sem compreender. Nem a ela. Nem ao outro. Por que se não se entendia, como iria entender o outro. Era cada vez mais proibitivo. O tal testemunho. O tal julgamento.

Por um tempo se enganou. Jurou ter se equivocado. Tanto afirmou que quase acreditou. Mas podia lhe faltar tudo. Menos aquela dose certa de lucidez. Mesmo que na hora errada.

 

Chorou.

 

É preciso sempre estar atento. Ao que o outro exige. Nem sempre a proposta é de parceria. Parceria envolve a dois. No mínimo. E parceria é assim. Quando se vê já está estabelecida. Assim. No silêncio. Como dizia aquele poeta alemão. Onde uma palavra jamais pisou.  Sem discussão. Até sem nomeação. Parceria é só atitude. As palavras são moldura. Efeitos decorativos. Por isso prescindíveis. Ele descartou. Obstaculizou. Assim ela falou. Entre lágrimas e retórica. Ou entre lágrimas retóricas. Muitas vezes esta é a mais importante função da lágrima. Função retórica. Funciona bem para desavisados. Ele utilizou com grandeza este recurso. E na hora ela acreditou. Mais por necessidade do que por ingenuidade. Naquele momento se duvidasse perderia o prumo. Achou prudente acreditar. E se não podia sofrer junto com ele, ao menos sofria ao lado dele. Forma triste de parceria. Isso ela compreendeu. Parceria solitária.

 

Ele confirmou. Nada de ímpetos. Nada de mudanças bruscas. Deixaria assim. Voltaria para onde tinha saído. E torcia para que nada lá tivesse mudado.

 

Foi o que descobriu. Ele só tinha um único compromisso. E de exclusividade. Com ele mesmo. Só. Assim. Claro e destacado. Se estava bom, prosseguia. Se não estava, descartava. Se oscilava, partia. Mas tudo dentro de um acordo tácito. Nada que precisasse da aprovação do outro. Aprovação do outro já significava parceria. E isso ele indeferia. Tal um documento. Sem emoção.

 

Lembrei de uma orientação da minha avó. Quando estiver difícil consolar, sorria com delicadeza, menina, sempre sorria com delicadeza.

 

Sorri. Sorrimos. Depois rimos. De tudo. Do acordo. Do desacordo. Do engano. Do eu-bem-que-falei. Do champagne estourado em silêncio. Do perfume interditado. Da negação. Da contemplação. Não faltou ação. A distância de nada impediu. E ele foi sumindo. Nas palavras. Na retórica. Nas lágrimas. E quando o sorriso finalmente venceu, ele desapareceu. Ele e o compromisso solitário.

 

Ela ficou com as lembranças. E fez delas suas parceiras. Junto com o sorriso. Por um tempo seriam companheiras. Depois já não se sabe. 

 

 

 


Querida amiga, masi uma vez passo aqui numa fugidinha só para te deixar um beixo, tenho que ir para baixo e assim aproveito a boleia do meu pai para baixo...
Entretanto espero que o feriado esteja a correr bem, goza-o bem... que amanha o impiedoso do despertadopr toka de novo
beijos grandes
Teresa Isabel Silva a 21 de Abril de 2009 às 13:37

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