Blog de Lêda Rezende

Abril 14 2009

Morava de frente para o mar. Via o mar de todos os ângulos. Acompanhava as cores. A força. O brilho. Durante muitos anos justificou assim o seu estilo.

 

Alegava que nascera de frente para o mar. Isso a fazia se sentir privilegiada.

 

E desculpada. Porque deveria ter contribuído. Afinal maré muda a cada turno. E ela mudava quase assim. Nesta frequência. Justificava. Todos sempre riram da explicação. Mas nunca discordaram. Vai lá saber o que a geografia é capaz de fazer. Com a vida de uma pessoa.

 

E acrescentava. Com total tranqüilidade. Se tivesse nascido de frente para o lago teria sido diferente. Seria calma. Serena. Teria conduta expectante.

Como diziam onde trabalhava. Conduta expectante. Achava lindo. Sabia que não combinava com ela. Mas achava lindo. Suave. Esse tipo de fato. Ou de ato. Deve ser diferente quem nasce de frente para um lago. Sempre parado. Até que alguém ali jogasse uma pedrinha Dependia da pedrinha. E do outro. Que jogasse. Um lago tem margem. Tem limite de movimento. Não faltava filosofia. Ou explicação geográfica.  

 

Mas nem tudo na vida é lembrança. Geografia. Ou filosofia. A memória fica de espreita. Lá um dia se revela. E desvela. Descobriu isso. E ficou pasma.

 

Passou um dia de turismo com um amigo. Um amigo querido que viera de longe. Tinham apenas este dia juntos. Algo como uma escala. Ele aproveitou para revê-la. Na tarde decidiram passear pela cidade. O amigo tinha esta mania. Pontos turísticos. Não iria contrariar o visitante. E foi com ele. Falando e dirigindo. Apontando e nomeando. Foram muitos os pontos visitados. Da cidade.

 

De repente decidiu mostrar a ele – ao amigo – o bairro onde nascera. Morara ali por muitos anos. Mudara-se para o bairro atual quase adolescente. Nunca havia feito isso antes. Desta vez seguiu a intuição. E foi. Apontar este outro pedacinho da sua história. Pelo viés da arquitetura. Entrou no bairro. Na rua. Parou em frente ao prédio. Foi fazendo voltas. Entrando com cuidado. As lembranças devem ser revistas como muita delicadeza. Não se pode rever assim. De súbito. De súbito pode sugerir descaso. E descaso com o passado pode causar riscos. Ele achou lindo. Ela sorriu. Com calma. E com o olhar quase de criança. Como se fosse reincorporando a infância ao caminhar pela rua. Por isso tem mesmo que se ir com calma. Quando se decide visitar a origem. Porque a vida dá uma giradinha. De leve, mas para trás.

 

Enfim. Lá estava. Olhou o prédio. A janela do quarto dela. E sabe-se lá porque olhou para o outro lado. Como se estivesse procurando a vista que via da janela. A paisagem da infância. Pobre amigo. O susto foi em dois idiomas. Estrangeiro ele era. E estranha ela ficou parecendo. Com o grito espantado que deu. Gritou e segurou a boca. Prendeu até o fôlego. Deve ter mudado de cor. Porque o amigo estrangeiro pegou o celular de imediato.

 

Pareceu a ela que discou apenas três números. Segurou a mão dele. Cortou a ligação. Voltou a respirar. Esforçou-se para explicar a ele. Também em dois idiomas alternados. O motivo do susto. Ele nada entendia. Assim pareceu a ela. Tudo ficara muito confuso de repente.

 

Diante da janela do quarto onde nascera – e morara - até a adolescência estava, nada mais nada menos, que um enorme lago. Um lago. Cercado de margem. Margem com grama verdinha. Mas um lago. Como pode esquecer. Não entendia. Pensou até no mestre austríaco. Ele deveria ter a resposta. Mas ela não tinha. Ficou olhando para o lago. Lembrou então das vezes que ficara na janela. Curiosa. Para aquela imensidão. Aquele excesso de água.  Gente sempre em volta. A água ali. Parada. Escura. E ela da janela. Parada. Olhando. Com seu olhar de criança. Que tentava entender o mundo em volta.

 

Não tinha mais sua explicação favorita. Nascera de frente para o lago.

 

Lembrou de novo do mestre austríaco. Pensou. Refletiu. Tinha que descobrir uma alternativa. Para ela mesma. Muito mais que para os outros. Por fim decidiu. Sentiu-se aliviada. Até explicada. Segura de si de novo. Vai ver era a pedrinha. Sim. Ela deveria ser a tal pedrinha. A que fazia as ondinhas. No tal lago. A que punha a calma em movimento. Riu.

 

Continuou – agora satisfeita - o turismo com o amigo estrangeiro. Ele mal olhava para a paisagem. Vai ver temia tirar os olhos de cima dela. E mais um susto acontecer. Estava suficiente já de sustos para uma escala. Pareceu mais atento. À hora do vôo de volta. 

 

 

 

publicado por Lêda Rezende às 23:51

Parabéns pelo blog, parece-me muito interessante ;)
com certeza, voltarei.
obrigado e beijinho*
Em Fá Sustenido a 15 de Abril de 2009 às 23:05

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