Blog de Lêda Rezende

Abril 13 2009

Foram alguns dias de preparação. O casamento era importante. E havia sido convidada para ser madrinha. Ficara surpresa. Mas feliz. Muito feliz. 

 

Queria ir à altura. Do evento. Sem falar na sedução. Queria ir bela. Para que ele a visse - bela. E especial. Não sabia ainda. Estas coisas não servem.

 

Quando planejadas. Mas enfim. Nem tudo mesmo se sabe antes. De nada adianta a cultura. Os idiomas. Os estudos filosóficos. Aprendizado é coisa para depois. Solitário. Sempre. Processo retardado.

 

Escolhera uma estilista. Achou essencial. Uma mulher sempre entende destas situações. Decidida, foi até ela. Explicou o local. A função. A importância. A sedução. A temperatura.  A estilista olhou para ela. De cima a baixo. Depois de baixo a cima. Certo. Dos lados também. Lados devem ser algo fundamental para uma estilista. Porque foi onde mais demorou. Com o olhar. Séria. Refletindo. Ao menos parecia refletir. Porque ficou algum tempo em silêncio. Diante de um lápis e um croquis. Tentou até dar uma espiadinha. No desenho. Mas a estilista não se interessou. Em mostrar.

 

Depois saiu da frente dela. Subiu por uma escada. Demorou um pouco.

 

Talvez o suficiente. Para uma inspiração pertinente. De repente apareceu.

 

Desceu por uma outra escada. Ela até ficou tonta. Que interessante. Mas devia fazer parte da reflexão. Vai ver ela entendia nada. De reflexão. E de estilista. Muito menos de escadas. Mas ela voltou. Com um tecido. Uma cor. Achou indicado para ela. Sugeriu o modelo. Algo discreto. Mas carregado de mistério. Assim falou. A estilista.

 

Ela acolheu a idéia. O jeito era esse. Confiar na estilista. Das duas escadas. Confiou.

 

O casamento era em outra cidade. E lá a temperatura era oscilante. Por isso a estilista escolhera um modelo adaptável. Quase riu quando ela disse isso.

 

Lembrou de um carro. De um edredom. Só lembrou bobagem. Concluiu. Devia estar tensa. Isso só acontecia quando estava tensa. Não sorriu. Só escutou. E aceitou mais uma vez. Um modelo adaptável.

 

O modelo adaptável ficara bonito. Sentiu-se bonita. E acima de tudo adaptada. Agradeceu à estilista. Mas primeiro agradeceu a si própria. Tivera uma idéia excelente. Elegante. Mas sem falar no gasto. Este sim. Não merecia agradecimento algum. Era nada elegante.  Consolou-se. Lembrou do francês existencialista. Ele falava isso. Sobre uma verdadeira dama. Jamais saberia o preço das coisas. Relaxou. Ele devia saber o que falava. Esperava que a gerente do Banco concordasse. Ou no mínimo gostasse dele. Enfim. Isso ficaria para depois. Junto com o aprendizado.  

 

Arrumou malas. Arrumou bolsinha de maquillage. Arrumou sapato. Bolsa. Acessórios. Arrumou tudo.

 

Descobriu que muitas vezes o ato I sempre é mais belo. Que o ato II. Ou que a finalização.

 

Estava linda. Estava adequada. Mas não deu certo. Nada de sedução. Só de obrigação.  Nada de risos. Só sorrisos. Educados. Corteses.

 

A festa acabou tarde. Pensou na ambigüidade. Do acabou tarde.

 

Mantivera-se discreta. Elegante - até repetiria. Enfim. Nada a fazer. Fatos são fatos. Nada os modifica. No meio da noite acordou. Olhou o vestido no cabide. Inútil. Reto. Descarnado. Chorou. Pela presença das costas. Pela ausência das mãos. Chorou pelo calor da lágrima. Que descia calma. Disfarçada. Lenta. Chorou para saber que era. Que existia. Mesmo que pela lágrima.

 

Pela manhã levantou. Estava estranha. Não sabia bem o que era. Esta inspiração súbita. A angústia estava em alto padrão. Até riu. Do alto padrão. Adaptável e alto padrão. Aprendera algo com a estilista.

 

Procurou um jeito de expor. A sensação estranha. Mas de forma silenciosa. Discreta. Encontrou. Escreveu num papel qualquer que estava sobre a mesinha. Era a primeira vez que escrevia algo assim.

 

Algum tempo depois mostrou a um amigo. O escrito. Ele ficou surpreso. Achou lindo. Perguntou pelo autor. O nome. Respondeu tímida. Acho que estou com um encosto. Riram muito. Ele disse. Então cuida para este encosto não sair. Ele é muito bom.

 

Guardou a poesia. Vendeu o vestido num brechó.  

 

 

publicado por Lêda Rezende às 21:38

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