Blog de Lêda Rezende

Abril 10 2009

Quando o despertador tocou foi como um chamado sobrenatural. Aquilo não deveria ser comigo.  Mas era.

 

Jurei. Fiz promessa. Nunca mais durmo tão tarde. Em véspera de trabalho. Em dia chamado útil. Nunca mais. Mas descobri. Não adianta. Promessa não transforma. Não dá crédito imediato.

 

Resmunguei. Que injustiça. Sossegadinha. Em meu edredom. Em total acordo com aquele deus que nos tira do dia. Nos acolhe na noite. Permite fantasias, criações. Qual uma tela de cubismo. Distorcidas. Mas com uma lógica particular. Podendo se fazer o que quiser. Entender como quiser.

Analisar como quiser. Até negar. Relatar. Aumentar. Muitas vezes esquecer. Uma quase perfeição. Um deus até mais da liberdade. Esta sim. Sua maior função. Libertar. Só não sei mais do que. Por agora só queria duas liberdades. Alternativas. Ou me libertava do sono. Ou do trabalho. Cruel.

 

Libertou de nada.

 

Ainda tive aquela idéia. De colocar o toque de um sonar. Para me despertar. Um sonar.  A princípio me irritou. Depois - entendi. Até me elogiei. Não fora mesmo uma má idéia. Afinal, quando a gente desliga do dia, ou da noite é o que parece. Que estamos dentro de um submarino. Silenciosos. Deslizando.

 

Para um mundo onde as cores e os vínculos são absolutamente particulares. Acredito que sejam estes os únicos momentos de verdadeira privacidade em toda a vida.

 

Depois do primeiro toque do sonar decidi me organizar. Primeiro lembrando onde estava. Depois meu nome. Em sequência tentando entender pernas. Braços. Cabeça. Cabelo. Localizando. Nomeando. E me juntando. Para poder me levantar. Acho que isso faz parte não só da rotina do amanhecer. Mas ainda tinha um agravante. Pior. Muito pior. Horário de verão. Verão.

 

Não sei qual. Porque acordo e ainda está escuro. E sempre chovendo.  Deve ser uma piadinha.  Algo tipo depois verão. Só depois. Porque agora vejo nada.  

 

Mas sai do meu submarino. Não importa em que fase estava. Em que profundidade estava. Estava na hora de emergir. Foi o que o sonar ordenou.

Momento de abrir os olhos e fazer uma troca. Sair da fantasia. Entrar na realidade. Tudo bem que não precisava fazer o mesmo com o vizinho. O de dois andares abaixo. Tal o pulo que dei. Mas enfim. Nem tudo é perfeito no mundo dos submarinos. Ou no mundo da emersão.

 

No automático se foram arrumação e desjejum. Sai. Entrei no famoso trilho. Não sei se ainda da bondade. Mas acredito que um verdadeiro comboio. Como diriam os portugueses.

 

De repente me senti alucinando. Que estranho. Eu parecia estar acordada. A paisagem parecia ocidente-terceiro-mundo. O idioma era o corriqueiro. Mas algo estava estranho. Só tinham japoneses. Todos eram japoneses. Arrisquei, sabe-se lá porque, me olhar num reflexo do vidro. Quase perdi o fôlego. Eu também era uma japonesa. Eu. Que acordara com espírito helênico. Dentro de um submarino. Tinha me transformado numa japonesa.

 

Olhei de novo. Desta vez com mais cuidado e apuro. Não eram japoneses. Era a dificuldade de todos. De abrir os olhos. Semi cerrados. Este o termo exato. Todos pareciam orientais. Todos sonolentos com seu meio olhar. E eu compondo o quadro pseudo-oriental.  Quase ri.

 

Uma hora depois cheguei lá. Ai sim. Acordei. Nada mais de bobagem de submarinos. De deus acolhedor. A cura do olhar japonês veio rápida e certeira. Já foram me avisando. Que estava lotado. Que tinham cometido um erro. Que tinha mais gente que o previsto. Que eu tinha que atender.

 

Para não complicar a pobre da mocinha que agendara errado. Se eu queria um chá. Se eu estava com meu material. Que uma outra se demitira. Que não estavam concordando. Com tanto trabalho. E que aquela ali só chorava.

A outra lá só corria. Muitos já reclamavam. E tão cedo. E ninguém tinha sido pesado. Nem medido. Nem contado. Que não tinha cafezinho. A cafeteira estava quebrada. E ninguém sabia quem quebrara. Os gráficos tinham sumido. Teve quem falasse que parecia que tinham comido. E ainda mais. Comido com farinha. Os gráficos.

 

Sentei. Arrumei o meu material. Lembrei do amanhecer. Fazendo promessas. Tentando negociações com divindade. Filosofando com um sonar. Viajando no Expresso do Oriente. Dissertando sobre dia útil. Reclamando do horário. Do verão.

 

Pensei. No milésimo de segundo que me foi permitido um pensamentozinho particular. Pensei. Nada como um dia após o outro. Amanhã tem mais. Vai ver por isso inventaram o pesadelo. Para sacudir o tal deus acolhedor-libertador. Que ele me aguarde. Fantasia não tem limite.

 

publicado por Lêda Rezende às 22:11

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